4 de junho de 2026

Vinho e meias nas alturas, por Magali Romboli

No ambiente, a grata surpresa,  um  músico de verdade toca bossa e choro, em um piano de cauda.
The man wears shoes. Tie the laces on the shoes. Men's style. Professions. To prepare for work, to the meeting.

Vinho e meias nas alturas, por Magali Romboli

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Nesta época do ano, São Paulo à noite tem por companheira a baixa temperatura. Motivo de comemoração para muitos que querem sentir o frescor noturno, depois de muitos goles. Sempre atentos com a clientela, fogareiros são acesos para não deixar esfriar os corpos e esvaziar os copos.

Diferente do que pensa a maioria, não é só a classe executiva corporativa que gosta de happy hour com vista privilegiada para a Paulista. Policy makers que não se importam em ter seu brilho ofuscado, por um eleito ou nomeado, vez por outra precisam ver a cidade do alto, porque seu  trabalho é para quem, desde a colônia, vive abaixo. 

Se Suassuna fosse um dos convidados, por certo diria que o bar se chama  “Te Viu”, averso aos estrangeirismos, logo cederia à visão da concretude que esconde todo tipo de gente, em prédios de toda forma e tamanho.  Antenas com luzes multicores transformam a cidade em uma grande balada ao som de buzinas, motores e freadas. No ambiente, a grata surpresa,  um  músico de verdade toca bossa e choro, em um piano de cauda.

Para alegria da mulherada, os homens não usam “naique”. A hora feliz da classe trabalhadora pode começar a hora que o expediente acabar, isto é, tarde da noite. Talvez seja por isso, que um dos maiores orgulhos dos paulistanos seja ter lugar para comer e beber até amanhecer.

O avarandado do arranha-céu justifica a visão.  O vento frio abraça o ar quente do aquecedor a gás, logo um casal rompe a monotonia, por mais que fossem discretos era impossível não se ater à leveza de seus passos, risos e falas.

Ele suportava com classe o peso da mochila, a distorção da jaqueta revelava um laptop das antigas. Dono de uma barba farta bem aparada, um olhar  apertado, quase maroto e com grandes entradas. Ela, de pouco frio, trajava a armadura da mulher executiva, calça de vinco riscado e uma camisa de algodão branca de punho, mesmo tarde da noite, seguia  bem passada.    

Pareciam com fome e com muita sede, logo esgotaram uma garrafa de vinho. Sabe-se de Baco que as uvas liberam a altura das vozes. Trabalho, política, políticos e sindicalistas, nossa quanta intriga. Vez por outra, uma expressão de espanto seguida de boas risadas. A noite corria madrugada adentro, relógios e celulares deixaram de ser observados.

Não se sabe se eram amantes, ou se  o vinho deixou o coleguismo de lado, homem e mulher passam a ocupar maior espaço. O frenesi é suspenso quando ele se levanta e adentra o bar, ela se põe de pé na barreira de vidro que protege o décimo sétimo andar.

Ele volta sorrateiro para admirar o conjunto da paisagem e a surpreende, ao espreitar a  milímetros de distância, a vista da cidade. A ventania é grande, no entanto,  pouco se respira, não é o frio que os congela, é o calor inesperado que passam a sentir um pelo outro.

No entorno, houve o silêncio da torcida: beija a moça. Sempre é bonito ver um casal em movimento.

As taças esgotaram a segunda garrafa, se a conversa era fiada ou afiada, ninguém sabe, mas que o homem era de coragem isto ficou bem claro, em um movimento repentino sacou da mochila um par de meias de lã, tira os sapatos e põe-se a vestir como se nada fosse. Conclusão: eles eram casados.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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