A Virada Cultural de sucesso, por Daniel Gorte-Dalmoro

A proposta não é apenas para a virada, mas da prefeitura do atual alcaide para tudo o que é público: se não se pode privatizar, esvazia-se

A Virada Cultural de sucesso

por Daniel Gorte-Dalmoro

Cara aos cofres públicos e esvaziada, cheia de problemas técnicos e tida por um fiasco por muitos, reluto a usar tal terminologia para a Virada Cultural de 2024 – tal qual Jairo Malta faz na Folha, no artigo “Como Virada Cultural de São Paulo foi de uma referência a um fiasco”. Na verdade, depende de que ângulo se está vendo, com quais parâmetros se está trabalhando para definir seu sucesso ou fracasso. Para a prefeitura, foi um sucesso.

A divulgação do evento, a distribuição dos palcos pela cidade, em especial pelo centro, o Metrô só fazendo o caminho de volta do centro (após a meia noite, apenas era possível embarcar nas estações Anhangabaú e São Bento), o vale do Anhangabaú cercado, como se fosse mais um dos inúmeros eventos privados: a proposta implícita a esta virada era mesmo seu esvaziamento. Por isso ela foi um sucesso aos olhos de quem a organizou. 

E essa não é a proposta apenas para a virada, mas da prefeitura sob a gestão do atual alcaide para tudo o que é público: se não se pode privatizar, esvazia-se – e depois, privatize-se, como é o caso do próprio centro da cidade, primeiro esvaziado, e agora sendo entregue à iniciativa privada.

Por coincidência, na mesma data acontecia no parque do Ibirapuera privatizado um festival privado de música, com ingressos a R$ 660, a meia entrada (mais as taxas, em geral 20%, e esse valor não dava direito a todas as atrações). Na mídia, nenhuma alusão a falhas técnicas, atrasos ou furtos, como no evento público (nem a mortes, só para lembrar do que houve no show da Taylor Swift, privado, algo que a mídia corporativa fez questão de esquecer rapidamente; sem falar nas comuns brigas entre o público nos eventos privados, nunca noticiados). Novamente, implícito, o discurso de que o público é falho, enquanto o privado é eficiente.

Se, conforme Malta, a virada perdeu muito de seu potencial – misturar artistas consagrados com nomes que despontavam ainda em potência – e seu objetivo – ocupar o centro -, em boa medida se deu porque essa proposta estava em parte no festival privado do parque privatizado, enquanto essa forma de ocupação da região central não se faz mais necessária para os investidores – incorporadoras e especulação imobiliária. Hoje a ideia é retirar do centro a pecha de violento para tentar atrair uma classe média descolada, e os eventos privados – ou em estilo privado – no vale do Anhangabaú ajudam nessa repaginada.

E acima de tudo, nossas elites, vocalizadas pela mídia corporativa e pela direita/extrema-direita, seguem tentando moldar a percepção da população – ao menos de parte dela, a mais vulnerável a atuar contra os próprios interesses, por não se identificar como classe, a classe média – quanto à cidade, aos espaços e serviços públicos e espaços e serviços privados. E em tido sucesso.

A guerra contra o que é público segue a pleno vapor: a pausa na pandemia foi apenas isso, uma pausa. São Paulo da atual gestão é mais uma demonstração (insidiosa) dessa guerra.

Daniel Gorte-Dalmoro é escritor e funcionário público. Filósofo e Sociólogo formado pela Unicamp, Mestre em Filosofia pela PUC-SP (se debruçou sobre A Sociedade do Espetáculo, de Guy Debord), Psicanalista em formação. Autor, dentre outros, de Trezenhum. Humor sem graça. (Ibiporã 1011) e Linha de Produção/Linha de Descartes (Editora Urutau).

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