12 de junho de 2026

Sobrevivência do fujimorismo e herança colonial explicam profunda polarização política no Peru

Pesquisadora analisa o cenário eleitoral peruano e aponta como o discurso anticomunista e a negligência estatal moldam os eleitores
Foto: Agência Xinhua
Foto: Agência Xinhua

Em entrevista conduzida pelo jornalista Luís Nassif, a doutora Yasmin Calmet, investigadora do Núcleo Interdisciplinar de Políticas Públicas e Opinião Pública da Universidade Federal de Santa Catarina, analisou o cenário de extrema imprevisibilidade das eleições presidenciais no Peru. Com uma diferença mínima de centenas de votos entre os candidatos, a pesquisadora destacou que a apuração dos votos no exterior impulsionou a direita, liderada por Keiko Fujimori. Ela explicou que o resultado final, com previsão de ser anunciado em julho, depende da validação ou anulação de cerca de 1.600 votos sob análise do júri especial de eleições, devido a denúncias de irregularidades e cédulas marcadas previamente.

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Ao explicar a persistência da família Fujimori no cenário político, Calmet apontou para a construção de uma memória coletiva ligada ao período de 20 anos de conflito armado e terrorismo que assolou o país a partir da década de 1980. Segundo a investigadora, o governo de Alberto Fujimori trabalhou intensamente o imaginário popular para associar a esquerda ao terrorismo latente, narrativa que foi fortalecida por meios de comunicação alinhados à direita. Esse controle psicológico consolidou o fujimorismo como o “salvador da pátria” capaz de deter o comunismo, enquanto governos subsequentes falharam em lidar com a corrupção e com os remanescentes de grupos como o Sendero Luminoso.

A pesquisadora também abordou as raízes históricas da divisão social peruana, traçando um paralelo entre a estrutura colonial e a república contemporânea. Ela argumentou que existe um abismo histórico entre a capital, Lima, e o restante do país, que historicamente foi abandonado pelo Estado. Essa disparidade alimenta um voto motivado pelo ressentimento e pelo desejo de mudança por parte de uma população que anseia por modernização, mas que esbarra em uma estrutura de elite muito forte e na ausência de transformações estruturais na própria mentalidade do eleitorado.

Questionada sobre as relações internacionais e a suposta animosidade com o Equador, Calmet esclareceu que o tema não é uma prioridade para a política peruana atual, uma vez que o último grande conflito fronteiriço ocorreu em 1994. Atualmente, as maiores preocupações do Peru giram em torno do crime organizado, da segurança pública e, principalmente, da migração venezuelana. A pesquisadora ressaltou que muitos políticos utilizam discursos anti-migratórios e associam os venezuelanos à criminalidade e à disseminação de ideias comunistas, o que intensifica a defesa de políticas de linha dura em uma sociedade marcada por uma cultura política autoritária e violenta.

Por fim, a pesquisadora comentou sobre a estratégia de questionamento das urnas adotada por Keiko Fujimori, observando que essa postura faz parte do histórico da candidata em pleitos anteriores para contestar resultados desfavoráveis. Calmet explicou que as revisões de atas tendem a favorecer a candidata da direita, que busca se antecipar aos fatos diante de uma vantagem oscilante. Ela concluiu que o discurso de fraude é uma ferramenta recorrente do fujimorismo para desestabilizar o processo eleitoral quando o cenário se apresenta com margens extremamente estreitas.

A entrevista foi transmitida no canal TV GGN, no Youtube, na noite de quinta (11). Assista abaixo a partir dos 42 minutos de programa:

Nota da redação: O Jornal GGN utiliza ferramentas de Inteligência Artificial para transformar o conteúdo original do canal TV GGN, no Youtube, em texto para o portal GGN. O uso de I.A. não dispensa, em hipótese alguma, a revisão, apuração e edição por parte de um jornalista da redação GGN.

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