4 de junho de 2026

Carma e atração gravitacional no filme “Gravidade”

Desde “2001: Uma Odisséia no Espaço”, nunca um filme como “Gravidade” (2013) do mexicano Alfonso Cuarón, conseguiu representar tão bem a vastidão do espaço e seu vazio obliterante. Indicado ao Oscar de filme, direção, atriz entre outras categorias técnicas, o filme é elogiado pela crítica pela narrativa direta, crua e de grande verossimilhança científica, diferente dos blockbusters recentes, sempre envolvidos em complexas mitologias. Porém, por trás das alucinantes sequências de destruição por detritos espaciais que obrigam a abortar a missão de reparos no telescópio Hubble, há um poderoso núcleo místico-religioso que o próprio diretor admite em entrevistas: morte e renascimento. Mas o filme vai mais além, ao simbolicamente aproximar a lei da gravidade (o mais importante personagem do filme) com a Lei do Carma, atração gravitacional com a reencarnação.

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Você está solto no espaço a 375 milhas acima da Terra, o oxigênio está se esgotando, a comunicação foi perdida, uma nuvem de restos catastróficos de satélites está voando na sua direção a 32 mil km/h e não há nenhuma esperança de resgate. O que você faz? O filme Gravidade dirigido pelo mexicano Alfonso Cuarón vai direto ao assunto: sem introduções ou apresentações dos personagens, apenas uma legenda inicial que nos informa que a vida no espaço é impossível. Corta para o exterior onde sempre é noite, a não ser pela enorme nimbus azul-cinza da curvatura da Terra, uma presença constante que representa a força literal da nossa casa: a atração gravitacional, o grande inimigo e ao mesmo tempo aliado com o qual os astronautas terão que lidar para sobreviver.

Uma equipe da NASA está em um passeio espacial de rotina fazendo reparos e atualizando o sistema de computadores do telescópio Hubble. A engenheira Dra Ryan Stone (Sandra Bullock) é a especialista da missão responsável pelos reparos no telescópio enquanto Matt Kowalski (George Clooney) é o experiente líder em sua última missão antes da aposentadoria, coordenando os trabalhos e voando em torno do ônibus espacial. Até que o inesperado acontece: do outro lado do planeta um míssil russo destrói acidentalmente um satélite cujos destroços produz uma reação em cadeia de destruições de outros satélites, criando uma mortal nuvem de destroços.

O controle da missão de Houston começa a gritar para abortar a missão, mas já é tarde: metal pulverizado, pórticos em espiral e um turbilhão caótico de detritos criam caos e destruição, arremessando os astronautas para o espaço escuro. Só depois desses 10 minutos iniciais temos o primeiro corte de plano. Não há mais horizonte natural para corrigir nossos sentidos e o 3D só aumenta a desorientação. Corta para um extremo close up no rosto de Bollock, balançando em 180 graus, rígida de terror e com um aviso sonoro de que o oxigênio está a 10%.

Desde 2001, Uma Odisséia no Espaço (1968) de Stanley Kubrick, nenhum filme conseguiu expressar tão claramente como em Gravidade o caráter absoluto do espaço – a vastidão impossível, o vazio obliterante. A câmera de Alfonso Cuarón consegue colocar o espectador no centro do mais inimaginável e extremo perigo – ficar à deriva no espaço.

Muitos críticos vêm apontando que a grande virtude do filme é a sua narrativa crua, direta e realista (o filme seguiria à risca as leis científicas da astrofísica e astronáutica – o que desmente o astronauta brasileiro Marcos Pontes que trabalha na NASA – clique aqui sobre isso). Algo que os blockbusters atuais teriam perdido, por estarem sempre imersos em complexas mitologias como em Avatar.

Esse blog acredita que a verdadeira virtude de Gravidade não é o seu “realismo” ou crueza narrativa. Os supostos “erros” científicos do filme apenas confirmariam que , ao contrário, a virtude do filme estaria no plano do imaginário e da mitologia. Em entrevistas o diretor mexicano confirma que a inspiração do argumento e roteiro veio “quase tudo da religião” (veja “Gravity – Entrevista a Alfonso Cuarón: “Los cineastas que trabajamos la fantasía estamos en eterna deuda con ‘Avatar'” In: Sensacine).

Misticismo oriental

Em dois momentos o filme faz alusões ao misticismo oriental: no primeiro quando Kowalski está solto no espaço e, conformado com o seu destino fatal, fala para a Dra. Ryan: “como é lindo ver o por do Sol no rio Ganges daqui de cima!”. E o segundo quando a Dra. Ryan finalmente entra na salvadora estação espacial chinesa e senta diante do painel para iniciar os procedimentos de reentrada na atmosfera, vemos o plano em que a câmera enquadra uma pequena estátua de Buda sobre uma saliência – veja foto abaixo.

Em outras palavras, Gravidade faz uma surpreendente aproximação entre a lei da gravitação universal, Carma e reencarnação. Como o próprio diretor afirmou em entrevista, o grande tema do filme é o renascimento, não só como superação das dificuldades da vida, mas também da própria morte.

Isso fica evidente em dois momentos do filme: quando finalmente a Dra. Ryan consegue entrar na câmera de vácuo da Estação Internacional após ficar à beira da morte já sem oxigênio, ela retira sua roupa de astronauta e se coloca, flutuando, em posição fetal. A câmera a enquadra em plano geral e a composição remete explicitamente ao feto e o cordão umbilical; e o outro momento é a simbólica sequência final onde a protagonista como que renasce, numa analogia entre a água, líquido amniótico, nascimento e a reaprendizagem em manter-se em pé e caminhar.

Lei da Gravidade e Reencarnação

Dentro da tradição espiritualista e do misticismo oriental há um entrelaçamento bioenergético entre a lei da gravidade, a lei do Carma e a reencarnação. Termo sânscrito, Carma exprime o encadeamento das causas e efeitos, garantia da ordem do Universo. A esse sentido cósmico, acrescenta-se uma significação ética: os atos humanos estão ligados a suas consequências, e essas ocasionam situações pelas quais os autores desses atos foram responsáveis.

Se a Lua gravita em torno da Terra devido às condições de gravidade e velocidade tangencial (as leis maiores), nossos atos e eventos menores como nascimento, vida e morte de cada indivíduo estariam contidos nessas leis.

 

Wilson Ferreira

Wilson Roberto Vieira Ferreira – Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi.Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no “Dicionário de Comunicação” pela editora Paulus, e dos livros “O Caos Semiótico” e “Cinegnose” pela Editora Livrus.

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12 Comentários
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  1. Athos

    21 de janeiro de 2014 2:45 pm

    O filme é sensacional e deve

    O filme é sensacional e deve ser visto em 3D se possível.

  2. JB Costa

    21 de janeiro de 2014 3:31 pm

    Aguardei ansioso por esse

    Aguardei ansioso por esse post dado que aprecio as análises e críticas do Wilson Ferreira.

    Pela primeira vez discordo dele. Aliás, discordar é muita pretensão. Quem sou eu para ter a petulância de arrostá-lo numa área que é mestre?

    Afirmaria apenas, com todos os reguardos possíveis:

    Não observei, nem assimilei, nenhum dos aspectos místificos aludidos. Ao contrário: minha decepção foi grande considerando que esperava uma obra pelo menos parecida com – essa sim – obra-prima 2001-Uma odisséia no espaço. Em termos de efeitos espaciais, fotografia, salva-se. Mas de resto, nada. Achei pífia a atuação dos dois protagonistas e fiquei com a impressão de que faltou exatamente a profundidade que o analista aponta. 

     

    1. Athos

      21 de janeiro de 2014 5:35 pm

      Eu discordo de vc. Acho que

      Eu discordo de vc. Acho que ele tem razão.

      Eu não fiz uma análise profunda do filme, apenas assisti. MAs da para notar toda a simbologia de um ‘algo” a mais na história.

      Nesta foto mesmo, assim que volta do espaço exausta, a protagonista dorme e fica no formato uterino. Renascimento!

       

      No fim, a saída da água é como outro renascimento.  O andar trôpego, outra analogia ao aprendizado da caminhada.

       

      Deve haver outras…

       

      Achei os protagonistas So So. Fizeram bem o trabalho mas sem qualquer brilhantismo. Com brilhantismo seria barbada para o Oscar.

    2. Wilson Ferreira

      21 de janeiro de 2014 5:45 pm

      Uma leitura controvertida

      De fato, a leitura feita sobre o filme no artigo pode parecer controvertida. O que intuitivamente chamou-me a atenção foi a sequência final quando a protagonista como que renasce e reaprende a se erguer e a caminhar, tal qual um simbolismo do nascimento e crescimento de uma criança… As entrevistas do diretor confirmaram essa suspeita de um simbolismo mistico-religioso por trás das sequências de ação e perigo.

      Num enfoque sincromístico, é grande a coincidência entre as metáforas de morte e renascimento admitidas pelo diretor e a tradição esotérica e espiritualista de uma conexão entre as grandes leis da natureza e as “leis menores” da vida de cada um de nós – a lei do carma. E principalmente a luta contra a lei da gravidade que, segundo essa mesma tradição, está associado às forças que nos empurram para o útero materno do Plano Astral para a reencarnação.

      Como toda análise sincromística, é bem polêmica e controvertidas. Abs!

      1. Athos

        21 de janeiro de 2014 5:59 pm

        O correto mesmo(na cena)

        O correto mesmo(na cena) seria mostrar a Sandra Bulock peladinha saindo da água como veio ao mundo… mas, não foi dessa vez, hehehe.

        Tirar só o traje russo deu pro gasto.

      2. JB Costa

        21 de janeiro de 2014 7:49 pm

        Como já fiz vária vezes,

        Como já fiz vária vezes, Wilson, vou assistir novamente após as tuas ponderações. Não sou cinéfilo nem tampouco domino a área em que és perito. 

        Só os experts e os mais atentos tem a capacidade de captar a verdadeira essência ou “mensagem” de um bom filme. Sou muitgo ansioso e procuro, de cara, encontrar nuances e detalhes que decerto requerem mais atenção e acuidade.

        Assim, como já fiz em diversas. vou rever o que está em foco à luz das tuas ponderações. A primeira impressão pode ser a que fica, mas é também bem provável ser a errada.

        Ressalve-se, entretanto, que não sou tão bronco conforme o Athos deixava em entrever nas suas recorrentes ironias.

        Só numa coisa não mudo de opinião: 2001, a despeito da opinião negativa de um comentarista que me antecedeu, é um belo e envolvente filme talvez em função do enredo envolver outros dimensões, a exemplo de vida extraterrena, inteligência artificial e vida/morte.

         

      3. Thiago Luiz

        21 de janeiro de 2014 11:58 pm

        Wilson

        Não seria a cena final do lago uma refência a evolução humana?Se você assistiu “Missão Marte” sabe do que estou falando.

    3. Bruno Cabral

      21 de janeiro de 2014 6:15 pm

      Bela droga

      Discordo completamente do comentarista. 2001 é uma bela droga. O filme nao tem sentido nenhum, e a sequencia das luzes faz qualquer um dormir. Assisti quando era novo e tentei assistir novamente depois de adulto para ver se minha percepçao mudava e me decepcionei.

      2010, nesse sentido, é um filme muito mais completo.

      E Gravidade também. Um belissimo filme, assisti duas vezes e gostei em ambas.

  3. Marcelo Castro

    21 de janeiro de 2014 5:34 pm

    sem rigor cientifico

    Nessa eu não vou com o Wilson. O filme vale pelas imagens e pela fotografia, deslumbrantes.

    Quem espera o rigor cientifico de 2001 uma odisséia no espaço, fica decepcionado. O filme é recheado das tradicionais marmeladas hollywoodianas, com direito a astronauta pulando de uma espaçonave para outra.

    Também não reconheci grande profundidade no filme. Roteiro de filme de aventura de sessão da tarde. 

  4. Zanchetta

    21 de janeiro de 2014 7:07 pm

    O melhor foi a frase final do

    O melhor foi a frase final do Carl Sagan… O universo não foi feito à medida do Homem, ele simplesmente o ignora…

  5. Luz13

    21 de janeiro de 2014 9:27 pm

    comentário

    Oi gostei do blog. Veja as previsões de Aline, da Cidade das Pirâmides, para o ano de 2014. https://www.youtube.com/watch?v=6v_iFO6_dyc   Abçs

  6. Athos

    24 de janeiro de 2014 4:15 pm

    http://www.kubrick2001.com/
     

    http://www.kubrick2001.com/

     

    Neste link acima há a explicação do filme 2001 em português. Poderia ser mais rápida a animação….acho até que tem no youtube mas, ta aí o link original.

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