16 de junho de 2026

Crônicas de domingo: O galo de briga de Oswaldo Aranha

Houve tempos em que a briga de galo era hobby da alta sociedade de Poços de Caldas e do país. Nos anos 30, os galistas de Poços costumavam disputar campeonatos no Jockey Club, em São Paulo.

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O primeiro galista de Poços de Caldas foi Cacá, filho de Pedro Sanches de Lemos -uma das figuras reverenciais da cidade-, que costumava enfrentar os galos de Pinheiro Machado, o ACM da Primeira República, entre outros figurões que frequentavam o balneário. Adalberto, irmão de Oswaldo Aranha, também era galista contumaz.

Nos tempos de Assis Figueiredo, prefeito de Poços no início dos anos 30, a melhor cocheira de galos de briga da região era a de Haroldo Junqueira, fazendeiro e chefe político local, e de Januarinho Paschulli, massagista. A fama da dupla Cai-Cai e Submarino -seus campeões- era reconhecida nacionalmente.

Conheci Januarinho com mais de 90 anos, perto da morte, morando de graça no Palace Hotel de Poços e andando amparado por uma bengala. Lembrou-se dos bons tempos, falou com carinho do meu pai -“grande namorador, que nem os “almofadinhas” (grupo de dândis poços-caldenses que namoravam todas as banhistas que vinham passar temporada na cidade), mas, ao contrário deles, muito trabalhador”.

Nos tempos do jogo, Januarinho era o massagista preferido das banhistas e mantinha com os poderosos uma intimidade invejável, da qual apenas massagistas e barbeiros podem desfrutar. Ali, no Palace mesmo, ele me dizia: “Aquele menino veio para cá cuidar da blenorragia de um governador de Minas. Quando eu o vi com o ministro Mário Mattos, falei cá comigo: “Esse menino ainda vai longe'”. O “menino” era o futuro presidente Juscelino Kubitschek.

As demais cocheiras tinham que se juntar para enfrentá-los, pois o predomínio de sua dupla de campeões era tão massacrante que às vezes pintavam o campeão Cai-Cai de preto, fazendo-o passar por galo paulista, para encontrar adversário.
Naqueles tempos, as regras do jogo eram diferentes. Os galos usavam espora natural, mas com medida certa, para manter a igualdade de condições. Com o tempo, as esporas passaram a ser serradas e nelas adaptada uma espora de metal de um centímetro e um bico de prata. As lutas chegavam a durar quatro horas. A cada 15 minutos os galos eram separados para o rebolo, lugar para onde se levam os galos para descansar, quando a briga dura muito.

Januarinho e Haroldo não respeitavam galo nem dono de galo. Cada luta era precedida de fanfarronarias indescritíveis.

“Meu galo vai fazer uma avenida na cabeça do seu galo e vai chamar a galinha para beber o sangue!”, urrava Haroldo, fazendo gelar o sangue do galo, do dono do galo e da galinha.

O empresário carioca Lineu de Paula Machado era cliente das massagens de Januarinho, tinha uma boa galaria e gostava de apostar alto. Um dia apareceu por lá com Oswaldo Aranha e uma porção de galos de raça. Aranha havia sido o grande comandante da Revolução de 30. Depois, tornara-se homem forte de Vargas.

“Aposto 30 contos!”, desafiou Paula Machado.

Como faziam costumeiramente, quando se tratava de cevar o pato, Haroldo e Januarinho confabularam entre si. Demonstraram preocupação, reclamaram do alto valor da aposta, enquanto olhavam de soslaio, com temor reverencial, a equipe carioca.

“Deixe eu ver se nosso grupo consegue juntar esse dinheiro numa vaquinha”, respondeu Haroldo. E foi simular a vaquinha com o público local -que já conhecia suas manhas.
Lineu perdeu todas as brigas e a aposta de 30 mil. Restou apenas seu campeão. Irritado, quis encontrar um álibi para parar:

“Meu campeão só luta por 50 mil.”

E Haroldo:

“Deixa ver se eu arrumo com os amigos.”

Arrumou, é claro.

A luta começou com o galo de Lineu muito rápido, demonstrando ter canelas elétricas, desviando-se de todas as esporadas e bicadas de Cai-Cai. Januarinho estava preocupado:

“O galo é bom!”

Haroldo, com olhos experimentados, não perdia a calma:

“O galo, quando é muito rápido e pouco esperto, vai desviando, desviando e ganhando confiança. Quando ganha confiança, diminui o passo e leva.”

E levou. Lá pelas tantas, o galo de Lineu bicou o de Haroldo, ganhou confiança e abriu a guarda. Levou uma bicada no meio da testa que lhe abriu uma avenida expressa. Atarantado, o galo carioca pôs-se a correr com toda a força que lhe permitiam as canelas elétricas. E o galo mineiro correndo atrás e cobrindo-o de bicadas. Indignado com a covardia de seu campeão, Lineu interrompeu a luta e deu o galo de presente para os vencedores.

O público aplaudiu de pé, mas sem entender o segredo que fazia o galo correr tão rápido. O segredo era uma pista que Januarinho fez na cocheira, onde obrigava o galo a correr todo dia 1.500 metros. Foi o primeiro galo “sprinter” da história.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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4 Comentários
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  1. Ignacio Sans

    22 de dezembro de 2019 8:36 pm

    Pois é Nassif, na relação com os animais antigamente se permitia algumas coisas que hoje não se permite mais. Não que estejamos errados hoje, mas as coisas mudam e é assim que vamos pra frente de alguma forma, pois se as coisas não mudam é sinal qque paramos no mesmo lugar e isso é ruim. Os animais são bichos como a gente, afinal, ora pois. Uma vez meu pai ganhou um galo de presente e o bicho ficou meses no fundo de casa em um pátio diminuto comendo e e engordando, não lembro quem deu o galo e porquê. Foi uma tortura por vários meses ver aquele bicho trancado lá cantando todo o dia de manhã e eu, novo, sem entender o que aquele galo fazia, nem quem tinha dado o bicho de presente pro meu pai por algum serviço que ele fez. Minha mãe aceito, não sem protesto, era evidente que o galo estava gerando uma discórdia naquela casa que já não andava muito bem. Certo dia, num domingo normal, como qualquer outro, o galo foi pra panela e acabou-se a discórdia, pelo menos temporariamente. Eu pouco senti pena, já sabia que o galo seria abatido, mas hoje em dia ficaria chocado.

  2. a.ali

    23 de dezembro de 2019 12:09 am

    pois é, tanto explorou os pobres bichos que acabou de forma inexpressiva

  3. Nádia Farage

    23 de dezembro de 2019 6:50 pm

    Todo meu repúdio a essa crônica, que tenta edulcorar a prática nefasta da rinha de animais e os políticos mineiros, cujo passatempo, de fato, consistia em assistir o sofrimento e a morte de galos. O cronista sequer menciona o fato de que as rinhas de animais foram tornadas ilegais precisamente no período de que trata, pelo Decreto Federal 24645, de 10 de julho de 1934, art.3º, XXIX:
    “Consideram-se maus tratos:

    realizar ou promover lutas entre animais da mesma espécie ou de espécie diferente, touradas e simulacros de touradas, ainda mesmo em lugar privado”
    Causa espécie que um democrata como o Sr. Nassif não possa compreender o desserviço dessa apologia, nesses tempos em que todos os vulneráveis estão sob risco, os animais inclusive. Não é o caso de trazer aqui o aumento dos casos de violência contra animais no país; é suficiente evocar a rinha de cães, ultimamente desmantelada pela polícia federal, para evidenciar o desacerto dessa crônica.

  4. Nádia Farage

    23 de dezembro de 2019 7:10 pm

    Meu repúdio a essa crônica, que tenta edulcorar a prática nefasta da rinha de animais e os políticos mineiros, cujo passatempo, de fato, consistia em assistir o sofrimento e a morte de galos. O cronista sequer menciona o fato de que as rinhas de animais foram tornadas ilegais precisamente no período de que trata, pelo Decreto Federal 24645, de 10 de julho de 1934, art.3º, XXIX:
    “Consideram-se maus tratos:

    realizar ou promover lutas entre animais da mesma espécie ou de espécie diferente, touradas e simulacros de touradas, ainda mesmo em lugar privado”
    Causa espécie que um democrata como Luís Nassif não possa compreender o desserviço dessa apologia, nesses tempos em que todos os vulneráveis estão sob risco no país, os animais inclusive. Não é o caso de demonstrar aqui o aumento dos casos de violência contra animais; é suficiente evocar a rinha de cães, ultimamente desmantelada pela polícia federal, para evidenciar o desacerto dessa crônica.

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