Enviado por Marco St.
do blog Semióticas
por José Antônio Orlando
Descobri a arte do norte-americano Robert Crumb quando eu era menino, em Barbacena. Meu tio assinava a revista “Mad” e eu tive o privilégio de ser o segundo leitor assim que cada exemplar chegava pelo correio. Tempos depois, também encontrei aqueles traços característicos do Crumb, estranhos e bem-humorados, nas capas dos discos de Janis Joplin e de mestres do blues. Mas demorou até que eu encontrasse suas HQs em livro. Demorou, mas aconteceu: algumas das melhores obras de Crumb agora estão publicadas no Brasil. Entre suas obras-primas mais recentes está uma adaptação da Bíblia Sagrada: o mais genial e iconoclasta dos cartunistas em atividade, hoje aos 69 anos de idade, ousou levar para o mundo dos quadrinhos o Gênesis, primeiro livro da Bíblia, que narra a criação do mundo e a história de Adão e Eva. Mas a surpresa sobre sua nova investida vai se dissipando quando o leitor percebe que o Gênesis traz desde a Antiguidade alguns dos ingredientes que fizeram a fama de Crumb nas últimas décadas.


A arte de Robert Crumb: no alto, ilustração da capa de
“Blues”; acima, ilustração e capa da edição em inglês de
“Gênesis”; abaixo a capa da edição em espanhol e a
sisuda e recatada edição nacional, lançada pela Conrad
O Deus todo-poderoso, como não poderia deixar de ser, é o protagonista destacado no Gênesis segundo Crumb. Mas no traço do cartunista, que nasceu em uma família católica, trata-se de um Deus vingativo, carregado de raiva e com longos cabelos e barbas. Sem pestanejar, esse Deus comete dois genocídios no intervalo de poucas páginas – um durante o Dilúvio que tem Noé como protagonista, no episódio da arca da salvação; outro na chuva de fogo implacável que vem dizimar as cidades de Sodoma e Gomorra. Crumb também recria toda aquela sucessão de incestos, sacrifícios, inveja e misoginia que os judeus veneram na Torá e os cristão fundamentalistas idolatram no Antigo Testamento. Ele diz que dedicou cinco anos de trabalho diário para concluir a adaptação e, na breve introdução ao livro, destaca que tentou ser muito respeitoso com as crenças religiosas milenares. “Se minha interpretação literal e visual do Gênesis ofende alguns leitores”, alerta, “em minha defesa só posso dizer que me aproximei dele como um trabalho meramente ilustrativo, sem intenção de ridicularizar nada nem fazer brincadeiras visuais”. O lançamento de “Gênesis” aconteceu simultaneamente em 20 países, incluindo o Brasil, precedido pela publicação de trechos na revista mais influente dos EUA, a “New Yorker”, que tem Crumb em seu elenco de colaboradores. 
A estratégia de lançamento levou “Gênesis” para as listas dos mais vendidos, um feito raríssimo para uma publicação em quadrinhos. Além do “Gênesis”, Crumb agora está disponível nas livrarias brasileiras com alguns de seus álbuns especialíssimos, publicados pela editora Conrad, incluindo, entre outros, “Minha Vida”, “Blues”, “América”, “Meus Problemas com as Mulheres”, “Fritz, the Cat” e “Mr. Natural”. Há ainda “Kafka de Crumb”, que além dos desenhos do cartunista traz texto de David Zane Mairowitz. Os álbuns de Crumb editados pela Conrad não chegam a ser uma HQ e nem um livro propriamente dito, mas flutuam entre ambos. Assim como os outros clássicos de Crumb, “Kafka” traz resumos, análises e seus desenhos característicos – no caso, imagens que traduzem “A Metamorfose”, “Na Colônia Penal”, “O Processo” e “O Castelo”, entre outros escritos de Kafka, considerado por muitos o nome mais fundamental da literatura do século 20. 
Além dos álbuns de HQ, a arte do cartunista também é celebrada em um documentário antológico – “Crumb”, produzido por David Lynch e dirigido por Terry Zwigoff em 1994. O filme reúne imagens de arquivo, charges e depoimentos – do próprio Crumb e de seus amigos e parentes. Há cenas impagáveis, como o irmão descrevendo rituais inacreditáveis ou Crumb imitando Janis, que lhe disse: “Oh, Robert, precisa deixar o cabelo crescer, botar uma bata, calça boca-de-sino. Tá muito caretão”. Crumb conta e se diverte – como virginiano, ele prefere os uniformes: as mesmas roupas no mesmo estilo.
Bizarro e politizado
O humor mais bizarro e politizado de Crumb aparece por inteiro em “Minha Vida”, autobiografia em quadrinhos que mantém a contestação gaiata que fizeram dele uma lenda entre os clássicos imbatíveis da era do rock. Imagens e piadas visuais, ideias ousadas e uso diversional de sexo e alucinógenos, que ele vem burilando desde o final dos anos 1950, contra o pior conservadorismo, revelam em “Minha Vida” as experiências confessionais do autor e constroem seu melhor melhor personagem: ele mesmo.
Com doses generosas de muita sinceridade, muito humor negro e nenhuma concessão à moral vigente na indústria cultural, “Minha Vida” encadeia histórias publicadas do começo dos anos 1970 a 1994, incluindo cartuns, autorretratos, narrativas mais extensas e outras de poucas páginas ou até de apenas um quadro, tanto em preto-e-branco como no mais lisérgico colorido. Seu traço febril, distorcido, genial e demolidor, explode em sarcasmo subversivo contra tudo e contra todos. Em “Minha Vida”, Crumb fala de si com nenhuma piedade, enumerando seus melhores ataques contra a hipocrisia, mais os escândalos e muitos problemas com a justiça nos Estados Unidos, que o levariam por fim ao exílio na Europa na última década. Em 2010, quando esteve no Brasil como convidado especial da Flip – a Feira Literária de Paraty – Crumb surpreendeu a todos na entrevista coletiva: disse que viajou meio a contragosto e que só aceitou o convite depois de muita insistência da esposa, a também cartunista Aline Kominsky.
Crumb mora com a esposa e a filha desde 1991 na França e, neste autoexílio, passa a maior parte do tempo ouvindo discos antigos, lendo e desenhando. Além da dedicação à sua versão do Gênesis, nos últimos anos ele também vem produzindo projetos por encomenda e histórias curtas para jornais e revistas, entre elas a “New Yorker” e a “W”, especializada em moda e comportamento. Para a “W”, uma das criações recentes de Crumb foi a retrospectiva em capítulos sobre a trajetória feminina através dos séculos, seguindo das agruras das mulheres no tempo das cavernas até maquinações mais atuais e espúrias de personagens estranhos como Lyndee England, aquela militar norte-americana que, em 2003, foi fotografada torturando prisioneiros no Iraque. Crumb e seu humor são implacáveis. 
Literatura, jazz e rock’n’roll Jazz, blues, rock’n’roll e altas literaturas permeiam cada quadro na narrativa de “Minha Vida”, entre passagens de estilo gráfico surpreendente, breves, inconformistas. O mundo característico de Crumb e sua bizarria fornecem o fio condutor a cada traço em fragmento confessional, intercalados por poucas páginas de textos, algum trecho de entrevista e uma ou outra anotação circunstancial. A síntese da contracultura passa pelo imaginário que Crumb retrata nos quadrinhos. Em “Minha Vida”, esta síntese inclui a infância católica em subúrbios protestantes na Philadelphia (onde ele nasceu, em 30 de agosto de 1943), a escola sempre repressora, a família substituída na adolescência pelas experiências quando foi morar com o irmão mais velho (que o levariam em definitivo ao mundo da música, da libido à flor da pele e da psicodelia), os primeiros desenhos publicados, os hippies de San Francisco, os esoterismos e as manias de estrelas do pop-rock.
Enquanto “Minha Vida” carrega saborosas confidências autobiográficas, as mais antológicas lendas do jazz e do rock’n’roll estão reunidas em “Blues”, outra obra-prima do cartunista que ganhou da Conrad uma edição das mais caprichadas. Detalhe: a versão brasileira é melhor e mais completa que a edição original em inglês. Com bela encadernação em capa dura e colorida, “Blues” inclui – além dos casos mais surpreendentes sobre as origens da música na América, seus personagens principais, as bebedeiras, a vida na zona rural, os cantores cegos, a discriminação racial e os pactos com o diabo nas encruzilhadas – todas as histórias em HQs “musicais” de Crumb, mais as capas de disco que ele produziu, as filipetas de culto dos colecionadores, os anúncios publicitários e os cartazes de shows.

Crumb é impressionante. Seu traço característico, sujo, algo disforme, com formas grotescas que denunciam a proximidade com o universo das drogas alucinógenas, definem também o que de melhor a cultura underground produziu nas últimas décadas. Como apresenta muito bem o ensaio “Faróis da Eternidade”, de Rosane Pavam, que abre a edição nacional de “Blues”: “Crumb viu o sonho da liberdade nascer e escapar. Assistiu à decretação da morte de tudo – da religião, do cinema, da música, da dança – mas não a desejou. Libertar é diferente de matar, e o trator de Crumb passou sobre as senzalas suave-mente, bem raciocinado”. Foi na década de 1960 que Crumb surgiu como referência da contracultura, com os baluartes de seus cartuns cáusticos que questionam valores. Sua arte se mantém assim desde aquela época, quando revolução era a palavra de ordem: seus traços de humor negro abalaram tabus, desmascararam falsidades puritanas, revelaram obsessões sexuais e, em “Blues”, reverenciam e criticam a “evolução” da música popular no decorrer do último século. 

De Robert Johnson a Monty Python Robert Johnson está presente em “Blues”, em destaque, assim como Furry Lewis e a galeria dos bluesmen que assombraram os conservadores e criaram os fundamentos do rock e da cultura negra dos EUA que se espalharam pelo mundo. Howlin’Wolf e seus pares também são retratados, com Jimi Hendrix que alucina e leva junto a sacerdotisa do rock, miss Janis Joplin. Ela ganharia do amigo Crumb duas capas antológicas: “I Got Dem ol’Kozmic Blues Again Mama” (1969) e “Cheap Thrills” (1968). Aclamado como gênio e revolucionário, Crumb nasceu em uma família de cinco irmãos na Philadelphia e começou a desenhar ainda na primeira infância. No documentário dirigido por Terry Zwigoff, ele confessa que o motivo da estreia nas HQs aconteceu por insistência do irmão mais velho, Charles, que também o iniciou em certos hábitos bizarros envolvendo sexo, mulheres, política, drogas, literatura e muita música.
O hobby dos cartuns virou ganha-pão em 1962, quando se tornou ilustrador da “American Greetings” e da “Help”. Depois viriam os contratos que alcançaram maior público com a revista “Mad”, outros projetos os mais diversos em áreas idem e, claro, as charges e as HQs mais marcantes da contracultura em todo o planeta. Até o final dos anos 1960, a arte de Crumb estaria restrita ao universo da contracultura, do blues e do rock. Mas isso começou a mudar quando ele lançou “Fritz, the Cat”. Nesta série, as histórias se passam numa grande cidade habitada por animais antropomórficos, sendo que o gato Fritz é o personagem principal. Muito calmo, entregue à preguiça e ao lado mais hedonista da vida, com algumas tendências artísticas, Fritz sempre se vê envolvido pelo acaso com personagens alucinantes em aventuras selvagens, nas quais vai encontrando as mais diversas experiências sexuais. 
Fritz apareceu em histórias desenhadas por Crumb quando criança e viria a se tornar o mais famoso dos seus personagens. As tiras e cartuns com o gato primeiro foram publicadas nas revistas “Help!”, “Cavalier” e “Mad”. Depois foram se tornando cada vez mais explícitas e migraram para revistas mais undergrounds. Depois chegaram às eróticas “Playboy” e “Hustler”, nas décadas de 1960 e 1970. Em 1972, o ponto alto da popularidade: “Fritz, the Cat” foi transformado em filme de animação pelo diretor e roteirista Ralph Bakshi. Com a venda dos direitos sobre seu personagem, Crumb conquistou fama e fortuna e também mais perseguição pela censura. “Fritz” foi o primeiro desenho animado a ser classificado com o código X (impróprio para menores), mas também é considerado um dos filmes independentes de maior sucesso comercial de todos os tempos. O sucesso e o escândalo de “Fritz, the Cat” ainda ganhariam um capítulo inesperado no final de 1972, quando Crumb publicou uma história que pôs fim à trajetória de seu personagem mais famoso: depois de uma última orgia, Fritz é assassinado por uma ex-namorada. Com Crumb é sempre assim: o banal, o comum, o imprevisível e o humor insano de pequenas bobagens cotidianas fornecem um arsenal de piadas visuais com ares libertários. 
Reconhecido como influência ou guru de grandes nomes da cultura pop, Crumb tem legiões de pupilos notáveis. Entre eles, astros e estrelas do rock, do blues e do jazz, jornalistas, escritores e midas da tecnologia como Steve Jobs e Bill Gates, além de Harvey Kurtzman, criador e editor da revista “Mad”, e Terry Gilliam, um dos mentores do grupo de comediantes ingleses do lendário Monty Python. Não é pouco. Líder mundial do movimento underground, entretanto, é um título que Crumb sempre rejeitou. Prefere ser líder de coisa nenhuma, em suas investidas contra o moralismo e as hipocrisias que encontramos aqui e ali. Alguém já disse, não me lembro quem: ao ler Crumb, é o sol que finalmente brilha em nossa porta dos fundos. por José Antônio Orlando.


evandro condé de lima
15 de dezembro de 2013 3:36 pmBeleza de resenha. Ainda não
Beleza de resenha. Ainda não tinha lido nada igual. Só faltou os Freak Brothers, ainda mais se lembrarmos da história impagável dos cogumelos.
Mário Latino
15 de dezembro de 2013 10:52 pmFreak Brothers são de Gilbert
Freak Brothers são de Gilbert Shelton, outro mestre do underground.
evandro condé de lima
16 de dezembro de 2013 2:43 pmPois é viajei…. na
Pois é viajei…. na maionese, bem entendido.
Tamára Baranov
15 de dezembro de 2013 3:54 pmA vida de Charley Patton por Robert Crumb
Robert Crumb, reconhecido como um dos fundadores do movimento underground dos quadrinhos norte-americanos, também recontou em quadrinhos a história de um dos mais conhecidos músicos estadunidenses de delta blues, Charley Patton.
Marco St.
15 de dezembro de 2013 5:19 pmBotando a trilha sonora….
Botando a trilha sonora….
[video:http://www.youtube.com/watch?v=aYKRnWSJT10%5D
C. Acácio
15 de dezembro de 2013 4:09 pmExcelente post , valeu pelas
Excelente post , valeu pelas dicas bibliográficas e por todo o texto. Sobre Crumb , apenas uma palavra … gênio !…