Juiz lança livro para explicar a construção do idiota no Brasil e no mundo

Ao comprar a racionalidade hegemônica, indivíduo atua no sentido contrário dos próprios interesses e é incapaz de fazer reflexões

Crédito: Reprodução

“Pedi à nossa equipe aqui que ajude a estruturar ferramentas e canais para que aquelas pessoas que queiram fazer doações possam fazer essas doações também ajudando o comércio local, que está impactado. Na verdade, quando você tem um volume tão grande de doações físicas chegando ao estado, há um receio sobre o impacto que isso terá no comércio local. O reerguimento desse comércio fica dificultado na medida em que você tem uma série de itens que estão vindo de outros lugares do país”, afirmou o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, na última quarta-feira (15).

A declaração de Leite despertou uma onda de críticas, tendo em vista a situação do estado, que permaneceu mais de 15 dias embaixo d’água, em um cenário de destruição que fez com que os gaúchos perdessem absolutamente tudo. Até o momento, as enchentes que inundaram o Rio Grande do Sul fizeram 155 vítimas fatais, além de 94 desaparecidos e mais de dois milhões de atingidos.

“A fala do governador do Rio Grande do Sul é uma fala assustada: diante da solidariedade que entra dentro dessa lógica contra-hegemônica, que não é mais o egoísmo que está dando as cartas, é a solidariedade. Ele diz pare de fazer doações porque vai prejudicar os empresários, que vai prejudicar o comércio”, comenta o juiz de Direito do TJRJ e escritor, Rubens Casara, autor do livro A construção do idiota: o processo de idiossubjetivação.

Casara foi um dos entrevistados do programa TVGGN 20H da última sexta-feira (17). Ao longo da entrevista, ele explicou como se dá o processo de idiossubjetivação, que, segundo ele, formata pessoas para que aceitem um jogo de poder econômico e político contrário aos próprios interesses. 

“O sujeito idiossubjetivo se torna incapaz de perceber que ele está atuando no sentido contrário aos seus interesses, aos interesses dos filhos, e não faltam exemplos de pessoas que cometem esse vício de pensamento muito mais próximo do vazio de pensamento do que de reflexão”, comenta Casara.

Exemplos

De acordo com o conceito da Grécia, idiota é aquele indivíduo que naturaliza o que deveria ser tido como inaceitável. Pode até ser que esta pessoa seja inteligente, porém ela se mostra incapaz de fazer reflexões. 

“Já que hoje estamos no dia de luta contra homofobia, é aquele dirigente sindical homofóbico, aquele membro do movimento social racista, aquela pessoa que faz as coisas sempre a partir de cálculos simplórios e simplistas, visando lucro ou obtenção de vantagens pessoais”, explica o juiz.

Mais que benesses, esses indivíduos objetificam os demais, percebendo-os como oponentes a serem vencidos ou inimigos que devem ser destruídos. 

Por isso, o autor explica que a motivação para escrever a obra foi entender o porquê de tanta gente achar natural convicções que seriam inaceitáveis até 10 anos atrás, ao ponto de elegermos até representantes desta barbárie como presidentes. 

“É um fenômeno mundial que está intimamente ligado a uma mutação subjetiva gerada por aquilo que alguns autores têm chamado de racionalidade hegemônica, racionalidade neoliberal”, continua o juiz. 

Para combater o processo de idiossubjetivação em andamento, o convidado sugere o resgate da ideia do inegociável. “Não se negocia com vidas, não se pode aproveitar de uma desgraça, de uma tragédia que é política, ecológica, ambiental para que isso venha a ser percebido pelo sujeito como oportunidade de levar uma vantagem.” 

Confira a entrevista completa: 

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Camila Bezerra

Jornalista

9 Comentários

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  1. Como disse ao autor no Facebook, não creio ser uma estratégia adequada chamar de “idiotas” as vítimas do neoliberalismo algoritmizado. Ninguém gosta de ser chamado de “idiota” e certamente os brasileiros manipuladas politica e religiosamente com ajuda das plataformas de internet tem algum tipo de educação ou competência. Eles são advogados, médicos, engenheiros, contadores, oficiais militares, comerciantes, produtores rurais e trabalhadores com alguma qualificação e não teriam chegado onde se encontram se fossem imbecis ou tivessem QI de ostra. Eles foram idiotizados, sem dúvida. Mas isso não significa que eles são idiotas. O processo de idiotização é lucrativo, controlado por multinacionais extremamente poderosas cujos interesses mesquinhos vão desde a extração de dados para fins de modificação dos hábitos de consumo até a eventual manipulação com finalidade eleitoral e geoestratégica. Em razão de suas características (impulsionamento de conteúdos que geram maior engajamento emocional) os algoritmos dessas empresas se tornaram um problema até mesmo nos países do G7, onde são utilizadas por nazistas e fascistas para estruturar e inflar virtualmente movimentos políticos violentos que depois explodiram nas ruas dos EUA, França, Alemanha, etc… Sem reconhecer a humanidade das pessoas que Rubens Casara chamou de idiotas não será possível fazê-las recuperar o bom senso e restaurar a normalidade em países que estão se tornando inevitavelmente instáveis à medida que a tecnologia penetra cada vez mais fundo no tecido econômico, social e institucional. Casara acertou no tema, mas errou na abordagem. O foco não deve ser nas vítimas mas nas empresas que exploram as pessoas. E ele escolheu mal o título do livro. Ninguém chamado de idiota vai querer comprar o livro dele e a obra se tornará prisioneira de uma bolha (a bolha dos leitores de esquerda que compram livros que reforçam sua maneira de ver o mundo). O potencial negativo do livro também merece destaque, pois ele fomenta na bolha de leitores de esquerda preconceitos contra os idiotas da direita ao invez de fazê-los perceber que todos são vítimas em potencial do novo sistema privado de poder algoritmizado. Eu já li e resenhei dois bons livros desse autor. Não vou perder meu tempo comprando essa obra, porque isso seria desperdício de dinheiro.

    1. Boa colocação. Mas como compreender a idolatria, como coloque i abaixo, a ponto de ser”meu capitão”, “mito”, “messias” e por aí agora. Tenho trocentos amigos, letrados como os que citou, que votam no Lula, mas nenhum chega aos pés dessa veneração, que, me desculpe, beira a idiotice.

    2. Essas pessoas idiotas não irão recuperar o bom senso. Idiota no sentido mais radical da palavra é “aquele que não gosta da coisa pública” em grego, palavra com sentido genérico que depois se tornou pejorativo, pois quem não se profunda é prisioneiro de manipuladores. A verdadeira inteligência não é saber muito sobre um assunto, mas perceber as correlações entre diferentes campos do pensamento, muitos deles além da lógica racional, algo que essas pesssoas idiotas “qualificadas” não tem. Fala pra bolha? As ações humanitárias vindas do governo atual pex também, mas não por falha na comunicação, mas por falha no receptor que percebe a notícia de maneira preconceituosa e muitas vezes indelével. Mesmo que o autor “dourasse a pílula” com eufemismos, falaria pra mesma “bolha”, o conjunto de pessoas que ainda mantém o bom senso e seus neurônios e coração voltados pra inclusão e preza a qualidade das relações humanas e ecológicas.

  2. Minha cara, em vídeo no face do Jair saindo do hospital, trocentos comentários chamando o indivíduo de meu capitão, messias, Salvador da pátria. Como se explica? Desafio tentar uma conversa com esse bando e conseguir qualquer coisa frutífera. O Leite pelo menos reconheceu a mancada (cagada?).
    Em tempo, veja artigo do Celso Barros na Folha. Não só acredito na “brincadeira” como acredito que haveria milhões de apoiadores. Como já houve.

  3. O governador está em alto estresse falou uma bobagem e se retratou.

    Até parece que a esquerda não faz coisas idiotas também.

    Menos.

    1. Está mesmo em alto estresse, mas falou exatamente o que pensa, foi uma fala comprida e pensada, senão, retrataria imediatamente. Se retratou porque viu as consequências

  4. Não gosto do pai do Eremildo, nem boa parte das ideias que seu velho coloca em sua cabeça, mas dele em pessoa eu gosto. Não tem nenhuma culpa de ser manipulado e explorado além de sua capacidade de discernimento, por isso, também não é irresponsável quando o leite azeda, derrama, coisas do tipo. Ele é apenas uma incapacidade cognitiva que, no plano social e político, acomete a elite brasileira, basicamente demofóbica, e quejandos, pelo hábito predador-exploratório proporcionado pela denegação da humanidade das pessoas pretas e indígenas. O efeito na personalidade ainda é objeto passível de verificação, embora numa primeira observação a coisa aparenta ser séria, crônica, malígna no que tange à sociabilidade, assim, detonada em efeito bumerangue.

  5. O fanatismo e a obediência são traços de caráter. Grande parte das pessoas vivem na conformidade do que se lhes apresenta sem contestar. Confiando nesse perfil de elementos da população, o poder – político, religioso, militar, midiático – entre outros, mira nessa parcela significativa de pessoas e fabrica objetos de apreciação para eles. Observemos que quem conduz a população a vê como um todo, de uma perspectiva superior, sem ter a noção de suas particularidades, assim, fica fácil fabricar ídolos de qualquer natureza e através deles obter consentimento para o que queiram fazer, contra ou a favor dos fanatizados. O crente, o soldado, o lider comunitário, o torcedor, o fã: todo aquele capaz de decidir pelo impulso em vez da razão corre esse risco, e esses, são a maioria. Os dirigentes então, têm apenas que cuidar que aqueles que vêem que “o rei está nú” fiquem quietos, eis que são minoria. É assim, e parece que sempre será.

    1. Exatamente. As pessoas são adestradas desde sempre a obedecer, acreditar, confiar, a ter uma abordagem cognitiva subjetiva do mundo, em engolir e formular teorias a priori, baseadas em pré-conceitos, antes de uma observação empírica e uma reflexão desapegada. Todo o resto é mero corolário dessa “gadificação” histórica, sistemática e dolosa do povo por seus dominadores.

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