10 de junho de 2026

Para reconstruir o RS, gestores deveriam investir em planejamento e ciência

Em vez de políticas públicas regionais para conter inundações, governo estadual desmontou órgão de projetos de desenvolvimento regional
Crédito: Gustavo Mansur/ Palácio Piratini

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O último balanço da Defesa Civil, divulgado na manhã desta quinta-feira (16), indica que o número de vítimas fatais das fortes chuvas que causaram enchentes no Rio Grande do Sul chegou a 151. 

No entanto, o estrago é ainda maior: o estado soma 806 feridos, 104 desaparecidos, 77.199 em abrigos e 538.164 desalojados. 

Também nesta semana, a água apresenta tendência de baixa em Porto Alegre e revela uma realidade desoladora. Após o transtorno de lidar com as inundações, os cidadãos agora encaram acúmulo de lixo, entulho, mau cheiro e a presença de ratos,  baratas e insetos. 

As mudanças climáticas são uma realidade e há tendência de grandes precipitações não só no Rio Grande do Sul, mas em várias cidades do Brasil e do mundo cada vez mais constantes. 

Por isso, o programa Nova Economia desta quinta-feira (16) contou com a presença do geógrafo e doutor pela USP, Cláudio di Mauro, e da presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU/RS), Andréa Ilha, para falar sobre como deveria ser o processo de reconstrução do estado, para que as consequências causadas pelas chuvas e enchentes não voltem a se repetir. 

Colapso

“O que a gente está presenciando é o colapso total do estado, tanto nas suas infraestruturas viárias, pontes, estradas, os alagamentos, enchentes, todos os serviços públicos paralisados, falta de água, de luz, que afeta quase todo o estado”, resume Andréa Ilha. 

Para a arquiteta, a partir de agora é preciso pensar as cidades e o planejamento urbano de forma diferente. “O Conselho defende que o trabalho seja feito de forma técnica, levando em consideração a ciência que a gente pensa que está sendo deixada de lado na gestão das cidades, nesse crescimento desordenado, e na posição técnica.” 

“A gente viu, nos últimos dias, manifestação de técnicos falando de todo o sistema que existe de proteção de Porto Alegre das enchentes, que sofreu por falta de manutenção, não funcionou como deveria por não ter sido levado a sério esse sistema”, emenda a entrevistada [confira o manifesto neste link].

Andréa comenta ainda que a questão das enchentes se tornou um problema estadual, porém houve um desmonte da Fundação Estadual de Planejamento Metropolitano e Regional (Metroplan), órgão estadual responsável pela elaboração e coordenação de planos, programas e projetos de desenvolvimento regional para atender aos interesses do mercado.

Falta de planejamento

Ex-prefeito de Rio Claro, no interior de São Paulo, entre 1996 e 2004, Cláudio Di Mauro contou ao GGN que, desde aquela época, ele e outros prefeitos da região tinham consciência sobre a necessidade de preparar as cidades para enfrentar as mudanças climáticas. 

A ideia era elaborar uma legislação específica que garantisse a recuperação dos temas ambientais, das áreas de nascentes, dos córregos e, consequentemente, dos parques lineares. Assim, a medida seria capaz de reduzir o escoamento de superfície, além de facilitar a infiltração maior da água, reduzindo inclusive a quantidade de sedimentos arrastada pela água da chuva para os rios. 

O plano, porém, foi abandonado pelos gestores que o sucederam. “Nós fizemos aqui em Rio Claro a política municipal de recursos hídricos, mas os prefeitos que me substituíram não levaram em conta, não acharam que isso é importante, porque essas questões das mudanças climáticas não são entendidas como precisam.”

“Se nós não tivermos a visão dos componentes da paisagem, da natureza na elaboração do diagnóstico, nós corremos o risco de fazer coisas atropeladas”, diz o entrevistado. 

Di Mauro chama a atenção para que os gestores públicos elaborem diagnósticos sobre os componentes da natureza antes de permitir a construção de novas habitações, pois, a fim de evitar a construção de cidades sem levar em conta as características físicas que aquela área apresenta. 

Futuro do Rio Grande do Sul

Ambos os entrevistados concordam que não adianta refazer as casas afetadas pelas inundações nos mesmos lugares. Cláudio Di Mauro aponta, até, a necessidade de criar uma autoridade federal para concentrar a utilização dos recursos financeiros para a reconstrução do estado. 

Já Andréa Ilha ressalta que o governo precisa atender às questões de emergência, sem permitir que elas se tornem permanentes, como expulsar as populações periféricas para áreas sensíveis a novos desastres ambientais. 

“Porque o que a gente vê é isso: as pessoas que ocupam as áreas mais afetadas são aquelas que têm menos recursos para se reconstruir. Se não houver apoio do estado na reconstrução de forma correta, naturalmente elas vão voltar a ocupar esses espaços mais sensíveis”, conclui Andréa. 

Confira o debate completo no canal da TVGGN no Youtube ou no link abaixo:

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Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É repórter do GGN desde 2022.

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1 Comentário
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  1. Fábio de Oliveira Ribeiro

    17 de maio de 2024 10:57 am

    Sim, a reconstrução do Rio Grande do Sul deveria ser a questão mais discutida no momento. Isso além da compensação das vítimas e da responsabilização dos culpados, porque é evidente que a inundação não teria causado tanta destruição e mortes se o governador tivesses feito aquilo que se espera de um estadista: cuidar do bem estar presente e futuro da população do seu estado, o que exige realizar obras que não dão lucro e desafiar os interesses mesquinhos dos produtores rurais que exisgem mais desregulamentação ambiental. Todavia, assim que Eduardo Leite começou a ser pressionado ou a se sentir pressionado a imprensa sacou o marido dele do anonimato. E a atenção foi desviada da tragédia causada pelo neoliberalismo do governador para o relacionamento gay que ele mantém com o marido que o defendeu. E assim como num passe de mágica uma questão privada (a vida conjugal de dois homosessuais) se torna mais importante do que o assunto público que deveria ser discutido (a desgraceira que um veado neoliberal causou). A impostura do neoliberalismo jornalístico é evidente. Ele não está preocupado com o bem estar da população gaúcha. Na verdade dificilmente alguém pode dizer que os veículos de comunicação estão realmente interessados na vida gay do governador. A questão aqui é impedir que a população olhe para o que ocorreu exija a responsabilização dos culpados e, sobretudo, esqueça que quem está realmente providenciando o que é necessário para solucionar a catástrofe que Eduardo Leite ajudou a causar é o governo federal petista. O MST está lá na linha de frente fazendo e distribuindo comida para os desabrigados. O marigo gay do governador foi cozinhar para os famintos que perderam suas casas? Não, ele não foi. Porque, a sensibilidade gay dele não é igual à sensibilidade social que é necessária (e que deveria estar sendo estimulada e aplaudida pela imprensa, algo que não vai ocorrer).

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