5 de junho de 2026

Memória Urbana LGBTQIAPN+: resgate Histórico e Patrimônio Cultural em São Paulo, por Angel Natan e Bruno Santana

A memorização de lugares que são significativos para a comunidade LGBTQIAPN+ é de excepcional importância para que se dê voz à diversidade
Marcelo Camargo - Agência Brasil

Memória Urbana LGBTQIAPN+: resgate Histórico e Patrimônio Cultural em São Paulo

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por Angel Natan e Bruno Santana

A memória da história LGBTQIAPN+ na cidade é extremamente diversa. Os espaços, acontecimentos e indivíduos que lutaram no passado pela visibilidade da diversidade sexual, cujas batalhas estão diretamente ligadas aos movimentos por direitos dos LGBTQIAPN+, compõem um conjunto de experiências inextricáveis. Essa interação espaço-história é fundamental para entender a importância das manifestações dessa relação encontradas em São Paulo e, consequentemente, nos grandes agrupamentos urbanos.

A memorização de lugares que são significativos para a comunidade LGBTQIAPN+, sejam por seus aspectos históricos ou por acontecimentos contemporâneos, é de excepcional importância para que se dê voz à diversidade sexual. Esses marcos históricos não são apenas pontos de referência, mas também símbolos de resistência, celebração e reconhecimento, configurando se partes do patrimônio cultural. Fundamentais para a educação pública e a promoção de uma sociedade mais inclusiva.

São Paulo, uma das maiores metrópoles do mundo, é rica em história e diversidade. No entanto, essa riqueza cultural muitas vezes não se reflete adequadamente nos espaços públicos. A falta de representatividade LGBTQIAPN+ em monumentos, ruas e praças contribui para a perpetuação de preconceitos e para a invisibilidade dessa comunidade. Ao reconhecer e celebrar os locais históricos LGBTQIAPN+, a cidade pode começar a retificar essa ampla injustiça histórica.

Quais são os vestígios arquitetônicos da memória LGBT que ainda resistem às marcas do tempo em São Paulo? Talvez, ao caminhar pela rua Martinho Prado, nº 119, próximo à Praça Roosevelt, e passar por uma arquitetura imponente com grandes pilastras e uma fachada de vidro, muitos não se deem conta de que ali funcionou o “Ferro’s Bar”. Este foi um importante reduto “sapatão” e palco do chamado Stonewall Brasileiro.

Em 19 de agosto de 1983, as frequentadoras lésbicas do Ferro’s Bar, ao serem proibidas de vender seu zine (publicação independente de cunho artístico, político e informativo) chamado “Chana com Chana”, protagonizaram uma revolta reivindicando o direito de venderem seu periódico no local. Anos depois, esta data seria batizada como o Dia do Orgulho Lésbico.

Fonte Coturno de Vênus – Associação lesbofeminista, antirracista, anti-LGBTIfóbica, anticapacitista do Distrito Federal.

Atual fachada do Ferro’s bar. Street view.

Ou, quando vamos à rua Marquês de Itu em busca de molduras e observamos o nº 182 com a placa “ABC Bailão”, talvez não nos lembremos que neste mesmo endereço funcionou a boate “HS”, também conhecida como “Homo Sapiens”. Inaugurada em 1978, foi um importante espaço de sociabilidade LGBT, reduto de grandes artistas transformistas, caricatas (vertente transformista cômica), travestis, shows de nudez masculina e concursos de beleza. Tão popular que foi a escolha de diversão do ídolo Freddie Mercury, vocalista da banda Queen, durante a passagem da banda pelo Brasil em 1981.

Ilustração: Antiga boate HS. Angel Natan, 2023.

Infelizmente, o HS encerrou suas atividades em 1992 devido a diversos fatores, sendo o auge da epidemia de HIV/AIDS um deles. O vírus dizimou quase toda uma geração de artistas, bailarinos, travestis e jovens em seu auge de produção criativa, nos deixando órfãos de uma memória histórica. Em 1997, dois amigos idealizaram o projeto “Amigos Bailam Comigo” (o ABC Bailão), uma casa noturna voltada ao público LGBT majoritariamente com mais de 50 anos, localizada no mesmo endereço onde funcionava o extinto HS. A casa se mantém ativa até os dias atuais, com um fator interessante: o público que a escolhe como opção de lazer é o mesmo que frequentava a boate HS durante sua juventude.

Atual fachada ABC Bailão. Street view.

A memória LGBTQIAPN+ representa um patrimônio coletivo que merece ser preservado e valorizado. Através de iniciativas concretas, como a criação de memoriais, acervos e a renomeação de espaços públicos, podemos garantir que as futuras gerações conheçam e celebrem a diversidade que enriquece nossas cidades. Os espaços urbanos têm a oportunidade de ser o centro de como a memória e a história podem promover a justiça e a igualdade.

Autores:

Angel Natan é artista e travesti. Formada em Artes Visuais pela Faculdade Paulista de Artes (FPA), é pesquisadora do Memorial da Resistência de São Paulo. Atuou como educadora nos principais aparelhos culturais de São Paulo, ganhou o concurso “Arte na rua” do festival de música Nômade em 2022, e em 2024 teve uma de suas obras selecionadas para a exposição “Sol fulgurante” – 60 anos da ditadura civil-militar, na Pinacoteca de São Paulo. Desde de 2020, é artista, educadora e pesquisadora do Acervo Bajubá, projeto comunitário sobre a comunidade LGBTQIAPN+.

Bruno Santana é arquiteto e urbanista, especializado em Mobilidade urbana e cidade contemporânea (Escola da Cidade). Compõem a Secretaria Nacional do BrCidades e a coordenação do Núcleo São Paulo.

BrCidades

Também cabe a nós compreender como se materializa nas cidades a desigualdades de classe, raça e gênero. Isto para sabermos ouvir as vozes dos personagens que entram em cena e protagonizam um novo ciclo de lutas

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