5 de junho de 2026

O Brasil e o reencontro com a alegria, por Luís Nassif

Assistindo a alegria da Orquestra Juvenil da Bahia, voltou aquele sentimento irreprimível de paixão pelo Brasil. E, ao mesmo tempo, de tristeza
Crédito: Inteligência Artificial

Certa vez, em uma viagem de jornalistas, uma repórter da Exame me contou a saga da família. Pais italianos, jovens ainda, na fase mais dura da Itália do pós-guerra, foram para o porto buscando espaço no primeiro navio que os levasse para longe da fome. Aí ouviram “Aquarela do Brasil”. Perguntaram de onde era a música. Do Brasil, responderam. Então é para lá que queremos ir, porque um país que faz uma música dessas só pode ser bom.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Assistindo, agora, a alegria contagiante da Orquestra Juvenil da Bahia, voltou aquele sentimento irreprimível de paixão pelo Brasil. E, ao mesmo tempo, de tristeza.

Como pode um país como o nosso, que produziu a alegria, a mistura de raças, de culturas, de músicas, ter caído nessa tristeza tão profunda? Participei do projeto a cara do Brasil, de Domenico di Masi. A primeira cara do Brasil eram as festas populares, as festas juninas no Nordeste, o carnaval baiano e carioca se nacionalizando, os festejos de Recife.

Anos atrás, o grande Mário Novello, do Centro Brasileiro de Pesquisas Fisicas, me propôs um desafio complicado: participar de uma mesa, com físicos, filósofos, e discorrer sobre a utopia brasileira. Isso em pleno período tenebroso, da conspiração do impeachment, do discurso de ódio dominando a mídia, da Lava Jato destruindo a economia e assassinando reputações.

Resolvi montar uma fábula.

Houve um momento em que todas as tribos hunas se juntaram para assaltar o orçamento. Houve uma guerra mundial em que bombas de nêutron varreram a população para casamatas, deixando na superfície pó e destruição sobre a terra. Restaram só redes sociais povoadas de fantasmas.

Passado o bombardeio, um cidadão botou a cabaeça para fora e se indagou: onde estou? Não tinha a menor ideia. Até que encontrou um toca disco empoeirado e um disco de 78 rotações. Resolveu ouvir, e era “Que nem Jiló”, de Luiz Gonzaga. Imediatamente colocou a música na rede. Lá em Recife, alguém ouviu e resolveu colocar o Frevo no 2 na rede. Em Salvador, outro cidadão colocou um samba do Pelourinho. De João Pessoa vieram sons de bandolim e de Belém os sons da selva.

De repente, como puxados por um coral mágico, todos caminharam com seus instrumentos para o Rio de Janeiro. Lá se juntaram aos sambistas e chorões e partiram para Brasilia. Os sons foram varrendo a sujeira do ar, os Bolsonaros, os Arthur Lira, os Alcolumbres, o Ministro do STF que impede o julgamento da Lava Jato, a bancada da bala, o cartel da Faria Lima, o Centrão, os filisteus.

E, sob as bênçãos da música brasileira, os meninos voltaram a sorrir, a cantar, a explodir o coração de paixão pelo Brasil, os moreninhos, os pretinhos, os branquinhos reencontraram o pai que os abandonou durante tatantos séculos.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

17 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. José de Almeida Bispo

    29 de setembro de 2024 1:35 pm

    Infelizes da Costela Oca!
    Não me pergunte o que significa ou qual a origem de tal imprecação, costela oca, mas era assim que meu saudoso pai se referia, irado, contra todo aquele ou aquela que por espírito de porco costuma por areia na sopa alheia. Que detesta a alegria e tudo faz para estragar, gratuitamente a felicidade dos outros. Como essas legiões de zumbis que brotaram ruidosamente dos piores esgotos, com o único propósito de apenas perturbar; infelicitar por infelicitar. Lixos!

  2. Alvaro Augusto Ribeiro Costa

    29 de setembro de 2024 5:55 pm

    Que maravilha, Nassif! Muito obrigado!
    Saúde, paz e bem, alegria pra todos vocês agora e sempre.
    Abraço.

    1. Assis Ribeiro

      30 de setembro de 2024 6:23 pm

      Ouvindo o NEOJIBA não há quem deixe de ter esperança no Brasil.
      Os vários núcleos o projeto são todos excepcionais e quem conhece como são formados os núcleos se encantam com o que se pode fazer deste Brasil.

  3. Antonio José de Almeida Meirelles

    29 de setembro de 2024 8:50 pm

    Difícil acreditar que um país que tenha essa riqueza cultural não encontre o seu caminho cedo ou tarde. Temos nova oportunidade nos dias de hoje!, dada as oportunidades geradas pela emergência climática e pelos conflitos geopolíticos. Que pelo menos parte de nosso país esteja a altura de conduzir nosso povo nesse momento de novas oportunidades que se abrem para nós.

  4. Erminia T.M. Maricato

    30 de setembro de 2024 8:51 am

    Nassif. Estou aqui ouvindo a música com lágrima nos olhos. Isso nao é notícia, é arte. Emocionante! Vc pos lado a lado o inferno e o paraiso.

  5. Luiz

    30 de setembro de 2024 9:54 am

    Nassif, esse é o Brasil de nossos sonhos. A Bahia de Caymmi, Gil, Caetano, Gal, Bethânia, Brown, Sangalo, Batatinha, Gentil, Olodum, Lima e de tantos outros, com seu povo miscigenado, alegre, acolhedor e belo continua a encantar brasileiros e a nós próprios. Não há como não se emocionar com essa juventude que ama a música e dança sua esperança!!!. Muito obrigado.

  6. Anônimo

    30 de setembro de 2024 10:27 am

    Amém

  7. Cabral

    30 de setembro de 2024 11:59 am

    Um dos melhores escritores do meu tempo, um dos mais combativos jornalistas desta “anarcomedia” brasileira, este país controverso e insano necessita de vozes como a do Nassif para continuarmos a andar por este país pra ver se um dia seremos felizes.

  8. Sebastião Cerqueira

    30 de setembro de 2024 12:02 pm

    Lindo.

  9. Carlos

    30 de setembro de 2024 12:47 pm

    Tudo muito lindo! Daí usar isso para tentar passar uma impressão de que o país está vivendo um sonho dourado, é querer forçar muito a barra. Menos, Nassif, menos!

    1. Antonio Morais

      30 de setembro de 2024 5:22 pm

      Só você entendeu dessa maneira, espírito de porco!

    2. Luis Nassif

      30 de setembro de 2024 6:33 pm

      Leia corretamente. Falo claramente que é uma utopia para driblar o pessimismo da realidade.

    3. Hélio Querino Jost

      30 de setembro de 2024 7:38 pm

      Parece que o senhor não entendeu a mensagem, com todo o respeito.

  10. Goretti Lopes

    30 de setembro de 2024 12:55 pm

    Quero!! Quero a nossa alegria de volta! Melhor, quero a nossa alegria ressignificada e cada vez mais bela e límpida no pós desterro, imposto por esses famigerados malditos e infelizes. Volta meu Brasil brasileiro!!

  11. Maria I. Schoppen

    30 de setembro de 2024 12:58 pm

    Adorei
    Eu queria aprender esperanto a anos atrás,onde foi parar este projeto

  12. Hélio Querino Jost

    30 de setembro de 2024 7:37 pm

    Lindo! Lindo! Um dos artigos mais lindos e verdadeiro que o Nassif já escreveu. Emocionante, enche a gente de esperança de reencontrar o Brasil verdadeiro, o Brasil perdido.

  13. Augusto Serrano

    30 de setembro de 2024 8:25 pm

    Excelente!

Recomendados para você

Recomendados