Aquiles Rique Reis
Músico, integrante do grupo MPB4, dublador e crítico de música.
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Os causos do violeiro Paulo Freire, por Aquiles Rique Reis

A viola de cabaça compõe a sinfonia popular. O caxixi entorna suas contas. Logo o violeiro põe-se a fuxicar pro acontecido render um causo

Os causos do violeiro Paulo Freire, ou
O dia em que o violeiro encontrou a mula sem cabeça

por Aquiles Rique Reis

Um comentário insólito para A Mula (Vai Ouvindo/Borandá), um álbum instigante, com seis faixas/capítulos criados, narrados e ponteados por Paulo Freire, mais a percussão de Adriano Busko.

O cowbell soa: “blom, blom”. A viola de cabaça compõe com ele a sinfonia popular. O caxixi entorna suas contas. Logo o violeiro põe-se a fuxicar pro acontecido render um causo. Cuidadoso, apura tudo – ele odeia as tar de feiquinius!

Num repente, o pároco deu de se engraçar com uma moça. Vixe! A viola ponteia de pura excitação. Sol finalizando a lida do dia, lá vai o violeiro pra casa do pároco de nome Armando. O tal nem tava lá. Saiu. Somadas à percussão, ouvem-se as notas dedilhadas na viola.

O violeiro chega à casa do pároco Armando. Na esquina havia dois homens. Vinha vindo outro cara, era Olavo, irmão do pároco que, cheio de marra, foi logo difamando dona Zélia, que vinha acolá. Esperto, o violeiro deu-lhe um perdido e xavecou a mulher – ela saberia explicar a história que ele quer esclarecer, pensou! Num repente, o pároco chegou todo lampeiro. A viola busca os dedos do violeiro e dispara a tocar ligeiro, o ritmo ajudando na belezura.

O pároco convida o violeiro para ir à sua casa. Um clarão brilha lá fora! Receoso, Paulo volta rápido pro quarto. De novo anoitece e amanhece. O pároco tomara chá de sumiço. O violeiro dá-se a um som lamentoso do seu instrumento. Levanta-se e vai à missa. E não é que a tal da Zélia veio junto? Lá, parou na frente dele e se abriu num sorriso instintivo. O pároco saúda os fieis e dá voz à missa. Com sininhos ao fundo, a viola soa ainda mais bela. O pároco segue a missa. Zélia vai em busca da hóstia. Grudado à moça, Paulo vê o pároco lhe oferecer o Corpo de Deus e a repetir “Pelo sangue de Cristo!”. Na última vez em que diz a frase, o religioso se vê perseguido por uma hóstia que virara uma imensa bola de fogo, e logo se escafede, porque besta ele não deve ser, né?

Mas assim como são as coisas, são as criaturas: a partir desse momento, o violeiro já até aceitava que mula sem cabeça poderia existir. Será? Sentiu culpa pela heresia. Logo na casa de Deus, meu Deus!

Olavo retorna. A viola de Paulo e a percussão de Adriano endoidam. O brilho daquela bola de fogo, vinda do fato extraordinário, se reflete nos olhos das beatas e dos beatos. Quentinho, o causo tá saindo do forno da caixola do violeiro…

Cês tão pensando que eu darei spoiler, é? De jeito maneira.

Mas cadê a mula sem cabeça? Afinal, Zélia e o pároco cruzaram? E o tal do Olavo, que fim levou? Mas vejam bem, queridonas e queridões, isso aí caberá a cada pessoa sacar. Ouçam o CD A Mula, o causo musicado do violeiro Paulo Freire, e descubram, ora bolas!

Aquiles Rique Reis

Nossos protetores nunca desistem de nós.

(primeira faixa/capítulo)

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