Sugestão de MiriamL
do Portal Vermelho
Stanislaw Ponte Preta, humorista contra a ditadura
Os resumos biográficos falam que Stanislaw Ponte Preta é pseudônimo de Sérgio Porto, quando seria mais próprio usar a palavra heterônimo, o nome, a pessoa que um escritor cria para obras de estilo, tendência e características diversas das suas. Sob a pele do heterônimo Stanislaw Ponte Preta, Sérgio Marcus Rangel Porto cresceu para a fama, com uma graça e gozação imprevistas na postura grave do cronista Sérgio Porto.
Por Urariano Mota, para o Portal Vermelho
Stanislaw Ponte Preta, o Sérgio Porto
Os registros falam também que ele foi radialista e compositor brasileiro, nascido em 11 de janeiro de 1923, falecido de infarte no dia 30 de setembro de 1968.
Importa mais dizer que Sérgio Porto, na pessoa de Stanislaw, foi escritor e jornalista único pelo humor com que desmontava pela sátira, deboche, piadas e ridículo os policiais, militares golpistas e reacionários em geral da última ditadura brasileira. Como aqui:
“Quando aquele cavalheiro nervoso entrou no hospital dizendo ‘eu sou coronel, eu sou coronel’, o médico tirou o estetoscópio do ouvido e quis saber: ‘Fora esse, de que outro mal o senhor se queixa?’ “.
“Foi então que estreou no Teatro Municipal de São Paulo a peça clássica ‘Electra’, tendo comparecido ao local alguns agentes do DOPS para prender Sófocles, autor da peça e acusado de subversão, mas já falecido em 406 A.C….
Quando a Censura Federal proibiu em Brasília a encenação da peça Um Bonde Chamado Desejo, a atriz Maria Fernanda foi procurar o Deputado Ernani Sátiro para que o mesmo agisse em defesa da classe teatral. Lá pelas tantas, a atriz deu um grito de ‘viva a Democracia’. O senhor Ernani Sátiro na mesma hora retrucou: ‘Insulto eu não tolero’ “.
E notem que coisa mais bonita: na sua maior invenção, Stanislaw Ponte Preta recortava dos jornais as notícias que ele, de modo livre e satírico, comentava em novo texto. Isso é mais uma lição de literatura. A maioria dos grandes “criadores” não sabe, por exemplo, que o gênio de Ibsen pegava notícias de jornais para as suas tragédias e dramas. Mas Stanislaw era mais imediato, porque, como jornalista, trabalhava em regime de urgência. E não parava nem nos momentos de lazer, pelas manhãs em Copacabana ou em Ipanema. Segundo Millôr Fernandes, “ele continuava recortando, no violento sol da praia, pedaços dos jornais que lia sem parar, aproveitando o tempo”.
Mais adiante, apareceriam em jornais até antes de dezembro de 1968, no tempo anterior à ditadura absoluta que veio com o AI_5:
“A peça ‘Liberdade, Liberdade’ estreou em Belo Horizonte e a Censura cortou apenas a palavra prostituta, substituindo-a pela expressão: ‘Mulher de vida fácil’, o que, na atual conjuntura, nos parece um tanto difícil. Ninguém mais tá levando vida fácil…..
Em Campos (RJ) ocorreu um fato espantoso: a Associação Comercial da cidade organizou um júri simbólico de Adolph Hitler, sob o patrocínio do Diretório Acadêmico da Faculdade de Direito. Ao final do julgamento, Hitler foi absolvido.
A minissaia foi lançada no Rio e execrada em Belo Horizonte, onde o Delegado de Costumes (inclusive costumes femininos), declarou aos jornais que prenderia o costureiro francês Pierre Cardin, caso aparecesse na capital mineira ‘para dar espetáculos obscenos, com seus vestidos decotados e saias curtas’. E acrescentou furioso: ‘A tradição de moral e pudor dos mineiros será preservada sempre’. Toda essa cocorocada influenciour um deputado estadual de lá – Lourival Pereira da Silva – que fez um discurso na Câmara sobre o tema ‘Ninguém levantará a saia da Mulher Mineira’”,
Esse era, é o grande Stanislaw Ponte Preta. Ele fica. Mas o seu criador e criado, depois de sobreviver a uma tentativa de envenenamento, foi liquidado no coração em setembro de 1968. Tinha só 45 anos de idade, aos três meses antes do AI-5.
alfredo machado
20 de setembro de 2014 4:21 pmFebeapá e muito mais
MiriamL,
Acabo de saber que SPPreta sofreu tentativa de envenenamento.
Este eu considerava um gênio. Um dos poucos humoristas que era bem humorado, iInventou o concurso As Certinhas do Lalau, formidável contraponto debochado às listas das dez mais bem vestidas, dez debutantes mais bonitas, dez mais isto, dez mais aquilo, hábito de alguns colunistas sociais na época,dos quais se destacava o jornalista Ibrahim Sued.
A mais famosa das listas era, sem dúvida, a de SPorto, todos os anos formada por dez mulheres pinçadas a dedo por quem entendia do assunto. Quando era publicada no jornal, todos corriam pro jornaleiro.
Sobre o Febeapá, bíblia de humor que eu cito com frequência, SPPreta já estaria lá pelo 50º volume caso fosse vivo, pois a quantidade de besteirol, ao menos em minha opinião, aumentou dramaticamente. Eu não consigo imaginar o que não sairia de SPPreta a respeito do politicamente correto. Acredito que Sergio Porto já está eternizado como um dos representantes de uma determinada época.
Leonardo M. G.
21 de setembro de 2014 11:07 pmTambém não sabia desse envenenamento
Tenho toda a obra dele como Lalau Ponte Preta: “Garoto Linha-Dura”, “FEBEAPÁ Completo”, “Rosamundo e os Outros”, “Primo Altamirando e Elas” e “Tia Zulmira e Eu”.
jura
20 de setembro de 2014 4:25 pmTristeza
E pensar que o humorismo brasileiro já teve muita graça!
CELSO ORRICO
20 de setembro de 2014 4:37 pmfrase dele
“já que a esculhambação é geral nos locupletemos todos”
Anarquista Lúcida
20 de setembro de 2014 9:37 pmNao foi bem isso, Celso
O que ele disse foi “Ou se reinstaura a moralidade ou nos locupletemos todos”. As palavras podem nao ter sido exatamente essas, mas o sentido era esse. Nao falava de esculhambaçao, mas de favoritimos, etc.
Estanislau Baré de Itararão P.Preta
20 de setembro de 2014 4:41 pmGrande Stanislaw P.P.
Tive o privilégio de conhecê-lo pessoalmente, sujeito além de tudo discreto e educado.
Comparável a ele só outro gigante, o Aparício Torelly, conhecido como Barão de Itararé.
Ambos daqueles que ao passar, ficam. Eternamente.
Quem dera nossa míRdia (outrora “imprensa” fosse hoje povoada de craques com tal “índice de qualidade”.
Hoje, impera o índice de mediocridade.
veranis
20 de setembro de 2014 6:13 pmSaudade do Stanislaw
Quando eu era uma criança muito pobre mas que adorava ler e não tinha o que ler, certa vez chegou em minha casa uma carne que veio do açougue enrolada em jornal. Tinha um papel branco por dentro,mas por fora jornal, para não vazar. Como não vazou abri o pacote e lá estava a coluna do Stanislaw Ponte Preta. Li e adorei. Depois de um tempo meu pai que gostava de futebol, era corintiano doente, comprava o jornal quando o seu time ganhava, quando perdia de jeito nenhum. Aí foi a felicidade! Não sei quantas colunas dele eu li, foram muitas. Eu era pequena, certamente tinha menos de treze anos, pois meu pai morreu quando eu tinha essa idade e aí não houve mais jornal. Mas aí eu cresci e comecei a procurar na biblioteca da escola e sempre conseguia alguma coisa dele para ler e era sempre motivo de muitas risadas. Bons tempos aqueles em que humor realmente nos fazia rir.
Francisco de Assis
20 de setembro de 2014 6:35 pmO PINICÃO E O CAGÃO
O PINICÃO E O CAGÃO
Sobre o deputado Ernani Sátiro, citado no texto, existe a seguinte história deliciosa, digna do Febeapá.
Nomeado governador da Paraíba, entre 1971 e 1975, pelo ditador Garrastazu Médici, dizia-se de Ernani Sátiro que se embebedava costumeiramente, em tal quantidade e de tal forma, que não conseguia segurar aquilo que se armazena no reto, em tempo de chegar a um banheiro, e cagava tudo que estava por perto, inclusive com episódios no famoso Hotel Tambáu, em João Pessoa.
Para ganhar popularidade, a ditadura lhe forneceu recursos para construir um novo estádio de futebol em João Pessoa. Devido à disputa política em Campina Grande, cidade do interior e segunda maior do estado, atrás da capital, Ernani Sátiro conseguiu recursos adicionais da ditadura para construir um outro estádio em Campina Grande. Não terminou as obras, deixando-as inconclusas.
O povo de João Pessoa homenageou então o governador Ernani Sátiro, nomeando suas duas grandes obras incompletas como O pinicão e O cagão.
Que estão lá, até hoje.