21 de maio de 2026

A Amazônia excluída, por Augusto Rocha

Onde não há a presença do Estado para fazer as leis serem obedecidas (“enforcement”), levará as pessoas a não obedecerem às leis
Marcelo Casal Jr - Agência Brasil

A Amazônia excluída

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por Augusto Cesar Barreto Rocha

O “nosso futuro comum” adotou o termo sustentabilidade no Relatório de Brundtland em 1987. Ali e em outros lugares a sustentabilidade é percebida como um tripé econômico, social e ambiental. Por aqui, adotamos o termo com apenas um pé, ora no econômico, ora no ambiental, excluindo os demais.

Em exemplos cotidianos do Amazonas, como a construção de rodovias ou de atividades de mineração, o que se vê é sempre um pé. Ora para nada fazer, ora para fazer muito e ignorar as demais dimensões. Ou fazemos apenas o que agrada a um pequeno grupo de investidores, com uma pegada completamente econômica, ignorando todo o resto ou não se faz nada, com um apelo ambientalista, ignorando-se os demais alicerces.

Assim, exclui-se o social para qualquer debate sobre a Amazônia. Não há sustentabilidade nas ações planejadas para a Amazônia, pois o olhar é sempre parcial, precário e pouco includente. A ausência do Estado como parte do apoio construtivo é notável, pois não há investimentos transformadores, mas sempre está atento ao imposto recolhido e a retirada dos recursos naturais, sem contrapartidas minimamente razoáveis.

Em geral, usa-se o termo “sustentabilidade” para ocultar o que se quer fazer ou não fazer. Mineração sustentável? Não há como, mas é assim que a chamamos. Todavia, encontrar um modo de realizar o que uma sociedade quer, como a rodovia BR-319 recuperada e asfaltada, com todas as contrapartidas e preocupações ambientais sendo executadas? Nem pensar, porque afeta o meio-ambiente. Como assim? O que afeta é nada fazer, pois a floresta seguirá a ser destruída pela ausência do Estado.

A destruição lenta ou acelerada da floresta se dá pelo não obedecimento das leis. Onde não há a presença do Estado para fazer as leis serem obedecidas (“enforcement”), levará as pessoas a não obedecerem às leis, se não houver outro meio razoável de ganhar a vida. Uma infraestrutura em si é apenas uma oportunidade. Se não houver meios de realizar atividades econômicas, as pessoas usarão os mecanismos que forem possíveis – inclusive os ilegais.

Não discutimos a sustentabilidade na Amazônia. Apenas discutimos como nada fazer ou apenas como aproveitar sem compensar a sociedade ou a natureza. Olhamos as pessoas da região apenas como se fôssemos encontrar pedintes miseráveis e é isso que há em grande parte da região, pela falta de dinamismo econômico e de oportunidades. Mas não é só o que temos de pessoas. Enquanto isso, o Aquecimento Global segue, com maio de 2024 sendo 1,52ºC mais do que a média 1850-1900 ou maior 0,65ºC do que a média 1991-2020, segundo a agência Europeia Copernicus.

Enquanto a Amazônia for percebida apenas pelo que pode ser no futuro ou pelo que foi no passado, ignorando seu presente, suas aspirações e as suas dificuldades de hoje, seguiremos a não dialogar, a não construir e, principalmente, a desperdiçar uma enorme oportunidade. O problema é de quem? É principalmente nosso, que por aqui vivemos. Também é do Brasil, que desperdiça uma potencialidade única. É também do mundo, pois seu ecossistema certamente afeta o aquecimento global. Até quando seguiremos nesta condição?

Augusto Cesar Barreto Rocha – Professor da UFAM.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Augusto Cesar Barreto Rocha

Augusto César Barreto Rocha é Professor Associado da UFAM. Possui Doutorado em Engenharia de Transportes pela UFRJ (2009), mestrado em Engenharia de Produção pela UFSC (2002), especialização em Gestão da Inovação pela Universidade de Santiago de Compostela-Espanha (2000) e graduação em Processamento de Dados pela UFAM (1998).

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