Inovações Tecnológicas Brasileiras
por Fernando Nogueira da Costa
O Proálcool (Programa Nacional do Álcool) foi uma das iniciativas mais significativas na história do desenvolvimento energético e tecnológico do Brasil, lançada em 1975 pelo governo brasileiro em resposta à crise do petróleo. Teve como objetivo reduzir a dependência do Brasil do petróleo importado, incentivando a produção e o uso de etanol como combustível alternativo.
O desenvolvimento tecnológico do Proálcool se deu em várias fases e envolveu avanços tanto na produção de etanol quanto na adaptação dos veículos para seu uso. Iniciou-se diante a Crise do Petróleo de 1973. A crise energética global, desencadeada pelo embargo do petróleo pelos países árabes, resultou em um aumento significativo dos preços do petróleo, levando o Brasil a buscar alternativas para reduzir sua dependência de combustíveis fósseis.
O Proálcool foi criado para incentivar a produção em larga escala de etanol a partir da cana-de-açúcar e para desenvolver uma infraestrutura de distribuição e comercialização desse biocombustível, além de adaptar a frota de veículos do país para seu uso. A Embrapa e outras instituições de pesquisa agrícola desenvolveram novas variedades de cana-de-açúcar mais produtivas e resistentes a pragas, além de aprimorar técnicas de cultivo e manejo, como a irrigação e a rotação de culturas, aumentando a produtividade das plantações.
No campo industrial, houve grandes avanços nas tecnologias de fermentação e destilação do etanol. Novos processos foram desenvolvidos para aumentar a eficiência na conversão de açúcar em álcool e para melhorar a pureza do etanol produzido, essencial para o uso em motores de combustão interna.
As usinas de etanol no Brasil evoluíram, incorporando novas tecnologias para otimizar a produção em larga escala. Houve a integração das usinas com a produção de energia elétrica a partir do bagaço da cana, aumentando a sustentabilidade do processo.
No início do Proálcool, os motores dos veículos precisavam ser adaptados para funcionar com etanol. O etanol tem propriedades diferentes da gasolina, exigindo uma taxa de compressão maior. As montadoras automobilísticas desempenharam um papel crucial na adaptação de motores e sistemas de injeção para otimizar o desempenho e a eficiência dos veículos movidos a álcool.
O etanol provoca mais corrosão nos componentes do motor e tem uma eficiência energética menor por litro em comparação à gasolina. Isso exigiu o desenvolvimento de novos materiais e ligas para as peças do motor e o ajuste de parâmetros de combustão. A indústria de autopeças participou do processo.
O primeiro veículo a álcool lançado no Brasil foi o Fiat 147 em 1979, seguido por modelos de outras montadoras, como Volkswagen e Ford. Esses veículos foram bem aceitos pelo mercado consumidor, especialmente devido ao subsídio do governo para o álcool, tornando-o mais barato diante a gasolina.
Na década de 1980, o Proálcool expandiu-se rapidamente, com a construção de centenas de novas usinas de etanol em todo o Brasil e a adaptação de grande parte da frota nacional para o uso de álcool como combustível principal. O governo brasileiro manteve políticas de subsídios para o preço do etanol e controlou o preço da gasolina para manter o álcool competitivo no mercado. Também foram oferecidos financiamentos subsidiados para a construção de usinas e para os agricultores dispostos a plantarem cana-de-açúcar.
No início dos anos 1990, o Proálcool enfrentou dificuldades devido à queda dos preços internacionais do petróleo, a falta de investimentos em novas tecnologias e problemas de abastecimento. Geraram uma crise de confiança entre os consumidores. Motoristas enfrentaram dificuldades para encontrar etanol nos postos de combustível, levando a um declínio na popularidade dos carros a álcool.
No início dos anos 2000, o advento da tecnologia de veículos flex fuel, capazes de operar tanto com etanol quanto com gasolina em qualquer proporção, revitalizou a indústria do etanol no Brasil. Essa inovação tecnológica permitiu os consumidores escolherem o combustível mais econômico, resultando em um novo boom para a produção e o consumo de etanol.
O Proálcool foi um dos principais fatores para a redução da dependência do Brasil do petróleo importado, contribuindo para a segurança energética do país. O uso de etanol, um combustível renovável, ajudou a reduzir as emissões de gases de efeito estufa e contribuiu para a promoção de uma matriz energética mais sustentável.
Diminuiu “o complexo de vira-lata” dos brasileiros. Empresas brasileiras como Petrobras, Vale, Embraer e Embrapa também contribuíram com inovações tecnológicas em seus respectivos setores. Não só melhoraram a competitividade dessas empresas, globalmente, mas também contribuíram para o progresso tecnológico do país.
A Petrobras é mundialmente reconhecida por suas tecnologias de exploração e produção de petróleo em águas ultra profundas, especialmente na camada pré-sal. A empresa desenvolveu tecnologias inéditas em perfuração, completação e produção para a exploração de petróleo a profundidades acima de 2.000 metros.
Essas inovações colocaram a Petrobras na vanguarda da indústria global de petróleo e gás, possibilitando a exploração de vastas reservas de petróleo na costa brasileira. Antes, eram inacessíveis.
A Petrobras também inovou em tecnologias de refino, incluindo a capacidade de processar petróleo pesado e ácido, uma característica comum das reservas brasileiras. Essas inovações permitem a Petrobras maximizar a eficiência do refino e produzir uma ampla gama de derivados de petróleo, aumentando sua competitividade no mercado global.
A Vale, por sua vez, investiu em tecnologias de automação na mineração, incluindo caminhões autônomos, perfuratrizes automatizadas e sistemas de monitoramento em tempo real. A empresa também desenvolveu práticas inovadoras para a gestão de rejeitos, especialmente após os desastres de Mariana e Brumadinho.
As inovações em automação aumentaram a eficiência operacional e reduziram os custos, enquanto as novas tecnologias de gestão de rejeitos foram cruciais para melhorar a segurança ambiental e operacional. A Vale desenvolveu sistemas logísticos integrados, como o Sistema Norte, incluindo ferrovias, portos e centros de distribuição altamente eficientes, para escoar a produção de minério de ferro.
Esses sistemas permitiram à Vale reduzir custos e aumentar sua competitividade no mercado internacional de minério de ferro, além de facilitar o transporte de grandes volumes de minério para exportação.
A Embraer é mundialmente reconhecida pela inovação na fabricação de aeronaves regionais, como as famílias ERJ e E-Jets. A empresa desenvolveu aeronaves eficientes, confortáveis e economicamente viáveis para companhias aéreas que operam em rotas de curta e média distância.
Essas inovações permitiram a Embraer se tornar uma das maiores fabricantes de aeronaves regionais do mundo, com uma base de clientes global, inclusive composta por grandes companhias aéreas.
A Embraer também inovou no segmento de jatos executivos com a criação das linhas Phenom, Legacy e Praetor. Essas aeronaves são conhecidas por suas inovações em conforto, eficiência de combustível e alcance. A inovação no setor de jatos executivos ajudou a Embraer a se estabelecer como uma das líderes globais nesse mercado, oferecendo aeronaves competitivos diretamente com fabricantes tradicionais como a Gulfstream e a Bombardier.
A Embrapa desenvolveu tecnologias adaptadas à agricultura tropical, como variedades de soja adaptadas ao cerrado brasileiro, sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), e novas técnicas de manejo sustentável. Essas inovações transformaram o Brasil em uma potência agrícola global, aumentando a produtividade agrícola e permitindo o cultivo em áreas anteriormente consideradas inadequadas para a agricultura.
Ela é líder em programas de melhoramento genético de plantas e animais, incluindo a criação de novas variedades de sementes e raças de gado mais produtivas e resistentes a doenças. A Embrapa desenvolveu também técnicas de irrigação e manejo de água, como o sistema de irrigação por gotejamento, essenciais para a produção agrícola em regiões semiáridas do Brasil.
Essas inovações ajudaram a expandir a fronteira agrícola do Brasil, promovendo a agricultura em áreas com limitações hídricas e contribuindo para a segurança alimentar. Cada uma dessas inovações tecnológicas contribuiu para transformar seus setores e impulsionar a economia brasileira em um contexto global.
Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Autor de “Economia de Mercado de capitais à Brasileira” (agosto de 2021). Baixe em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: fernandonogueiracosta@gmail.com.
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