22 de junho de 2026

Por que não existem borboletas em Marte?, por Felipe A. P. L. Costa

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Por que não existem borboletas em Marte?

por Felipe A. P. L. Costa

Não é de todo difícil encontrar uma borboleta – entre outras coisas, elas são vistosas e chamam a atenção. Aliás, a facilidade com que esses insetos são avistados é uma das razões pelas quais eles se converteram em um organismo-modelo em várias áreas da pesquisa biológica, notadamente em ecologia – ver artigo ‘Mamãe faz (sempre) o melhor?’.

Nunca estive em Marte. Todavia, a julgar pelos relatos de astrônomos e pelas fotos divulgadas pelas agências espaciais, parece seguro afirmar que não existem borboletas por lá. (Isso não significa dizer que não existam outros seres vivos naquele planeta.)

Mas por que um planeta tão próximo e simpático como Marte seria desprovido de borboletas? Para responder a esta pergunta, três diferentes fatores podem ser evocados como argumentos: limitações históricas, impedimentos adaptativos ou interações ecológicas. Vejamos cada um deles.

Limitações históricas. A razão de não existirem hoje borboletas em Marte pode ser mera decorrência do fato de que aquele planeta jamais foi colonizado por esses insetos. Trocando em miúdos, não há borboletas voando na atmosfera marciana simplesmente porque o planeta vermelho jamais recebeu antes a visita de alguma delas. Barreiras físicas (e.g., a gravidade terrestre e a enorme distância envolvida) teriam impedido a migração dos insetos e a colonização do planeta. É um argumento bastante convincente, mas não é o único.

Impedimentos adaptativos. Imagine que as barreiras físicas tenham sido superadas. Um segundo fator a ser evocado seria a inexistência de adaptações apropriadas, o que implica dizer que, embora possam migrar até o planeta vizinho, as borboletas terrestres não conseguem se estabelecer por lá. E o motivo de tal insucesso seria o fato de elas serem desprovidas de atributos (‘adaptações’) capazes de fazer com que sobrevivam nas condições da atmosfera marciana. A ausência de oxigênio molecular (O2), por exemplo, seria fatal. Em outras palavras, não seria impossível chegar a Marte; o problema é que as borboletas falham quando estão lá.

Interações ecológicas. Mesmo quando não enfrentam as limitações ou os impedimentos referidos antes, o insucesso em um novo hábitat pode ser causado por um terceiro fator: os colonizadores são destruídos, seja pela fome, seja pelo ataque de inimigos. Assim, mesmo admitindo que a colonização seja rotineira e mesmo na hipótese de que as borboletas terrestres consigam sobreviver na atmosfera marciana, outro fator ainda pode entrar em ação: interações ecológicas desfavoráveis. A ausência de plantas hospedeiras apropriadas seria letal, assim como a presença de inimigos contra os quais os insetos terrestres (ainda) não possuem defesas.

Comunidades ecológicas da Terra

De um jeito ou de outro, o fato é que as comunidades ecológicas (olhando agora um pouco para o nosso próprio planeta) exibem certo grau de resistência à entrada de novos integrantes. É como se houvesse um limite superior ao número de indivíduos ou ao número de espécies que podem viver juntos, em um mesmo hábitat.

Algumas evidências indicam que, em certos casos, os colonizadores podem estar sendo ativamente ‘repelidos’ pelos integrantes de comunidades locais. Não fosse isso, tais espécies expandiriam suas áreas de distribuição, ocupando áreas maiores ou bem maiores do que aquelas que ocupam atualmente. Este seguramente não é o melhor argumento para explicar a ausência de borboletas em Marte, mas é o mais importante fator a operar em muitos sistemas ecológicos da Terra.

Em resumo, espécies que são candidatas à afiliação a determinada comunidade devem, antes de tudo, suportar as características físicas do lugar (insolação, regime de chuvas, oscilações térmicas etc.). Superada essa ‘barreira estática’, digamos assim, uma colonização bem-sucedida depende ainda de fatores dinâmicos, notadamente as interações entre populações. No fim das contas, muitas espécies que suportariam as condições físicas de um hábitat são excluídas de lá em decorrência de interações malsucedidas – e.g., ausência ou escassez de alimento ou sobrecarga de inimigos naturais (competidores, predadores, agentes patogênicos etc.).

Ainda no caso dos sistemas ecológicos da Terra, caberia lembrar o seguinte: se, em decorrência da ação humana, os fatores que estão a impedir a entrada de espécies exóticas são removidos ou relaxados, a balança pode facilmente pender a favor delas. Quando isso ocorre, é quase certo que comunidades nativas sejam desmanteladas e várias espécies desapareçam. É o que se passa quando se modifica drasticamente a estrutura física de um hábitat. Um desflorestamento significativo, por exemplo, costuma ser a porta de entrada para espécies exóticas e invasoras (sobre espécies exóticas e invasoras, ver artigo ‘O impacto negativo de uma paixão’), cuja proliferação até então estava sendo inibida por comunidades nativas estruturadas.

A lição aqui é simples, embora nada óbvia: a gente não perde só aquilo que a gente destrói; às vezes, as perdas mais graves e irreversíveis ocorrem de modo imperceptível, longe dos nossos sentidos e, portanto, longe do alcance do senso comum (ver artigos ‘Mortos-vivos na paisagem tropical’ e ‘A insustentável leveza das reservas extrativistas’).

[Nota: para informações a respeito do livro mais recente do autor, O evolucionista voador & outros inventores da biologia moderna (2017), inclusive sobre o modo de aquisição por via postal, ver aqui; para conhecer outros artigos e livros do autor, ver aqui.]

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Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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