PPP Túnel Santos-Guarujá avança, mas com críticas ambientais e financeiras
por José Manoel Ferreira Gonçalves
Solução histórica para o tráfego da Baixada Santista
O Governo de São Paulo deu finalmente um passo para a concretização de um projeto há muito aguardado pelos moradores e visitantes da Baixada Santista: a construção do Túnel Submerso Santos-Guarujá. No dia 23 de outubro, o governador sancionou o Projeto de Lei n° 655/2024, autorizando a parceria público-privada (PPP) que viabilizará essa obra emblemática. A sanção do projeto representa um avanço notável, especialmente porque o túnel será o primeiro submerso da América Latina.
Além de um impacto visual impressionante, o projeto traz consigo um investimento robusto, estimado em R$ 6 bilhões. Esse valor será dividido entre o Governo do Estado de São Paulo, a União e o setor privado, no que seria um esforço conjunto para transformar a mobilidade entre as duas cidades.
Benefícios econômicos e sociais
Com a implementação da PPP do Túnel Santos-Guarujá, o impacto positivo na economia e na vida cotidiana será positivo. A nova infraestrutura alavancará a economia da região e fará a diferença na vida da população. O projeto atende a uma reivindicação de décadas da população da Baixada Santista, especialmente dos 21 mil motoristas e 7,7 mil ciclistas que fazem o trajeto diariamente entre Santos e Guarujá. Com a travessia reduzida para menos de cinco minutos, o tempo economizado nas viagens impactará diretamente a produtividade e o bem-estar dos moradores e trabalhadores da região.
O túnel trará também um fôlego para o setor turístico. O fluxo mais eficiente de veículos deve estimular o aumento de visitantes no litoral paulista, contribuindo para o crescimento da economia local. Além disso, a obra deve gerar cerca de 9 mil empregos diretos e indiretos durante sua construção, criando novas oportunidades para a população.
Questões ambientais e críticas ao projeto
Apesar dos benefícios previstos, o projeto do Túnel Santos-Guarujá tem enfrentado críticas ambientais significativas. Um dos pontos de maior preocupação é o impacto da remoção de materiais do fundo do mar durante a construção, como o destino dos sedimentos recolhidos. Ambientalistas alertam que, sem um plano claro para o tratamento e descarte desses materiais, o projeto pode prejudicar a fauna e a flora marinha da região, além de comprometer a qualidade da água nas áreas adjacentes ao túnel. As audiências públicas realizadas pelo Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema) trouxeram à tona esses e outros questionamentos sobre o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e o Relatório de Impacto ao Meio Ambiente (RIMA) do projeto.
Outra crítica relevante é a falta de transparência sobre as medidas compensatórias para mitigar os danos ambientais. Embora o projeto prometa reduzir a emissão de gases poluentes a longo prazo, o impacto ambiental imediato da obra, como o tráfego de embarcações e a dragagem do fundo do mar, levanta preocupações sobre a sustentabilidade do empreendimento e sua real contribuição para o meio ambiente.
Crítica ao modelo financeiro da PPP
Além das questões ambientais, o modelo financeiro da PPP também tem gerado discussões. O fato de o setor privado assumir apenas 14% do investimento, enquanto 86% vêm dos cofres públicos, levanta questionamentos sobre a viabilidade e a justiça desse arranjo. Críticos argumentam que uma PPP com apenas 14% de aporte privado é uma temeridade, pois o setor privado, que visa o lucro, tende a limitar as ações do poder público, principalmente quando este deseja beneficiar a sociedade como um todo.
Em casos como esse, o setor privado, detentor de uma fatia pequena do risco financeiro, pode usar sua posição para maximizar os retornos sobre o investimento, muitas vezes às custas dos benefícios sociais que o governo, em boas mãos, poderia garantir. Esse desequilíbrio pode, eventualmente, enfraquecer a capacidade do Estado de realizar políticas públicas mais inclusivas e justas. Para uma obra tão essencial à população, a dependência do capital privado em questões de operação e manutenção pode ser um obstáculo para o desenvolvimento de serviços de qualidade a longo prazo.
Um investimento estratégico e estruturado
O investimento financeiro faz parte do Programa de Parcerias de Investimentos do Estado de São Paulo (PPI-SP) e integra o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), garantindo uma estrutura sólida para o andamento da obra.
O secretário de Parcerias em Investimentos, Rafael Benini, reforçou que o túnel atenderá diferentes tipos de veículos, desde carros de passeio até caminhões, além de incluir espaço para pedestres e ciclistas, o que amplia o alcance e os benefícios do projeto.
Desafios e próximos passos
Embora o projeto esteja em fase avançada de planejamento, com a sanção do PL e os investimentos assegurados, ainda há etapas importantes a serem concluídas. A apresentação do novo traçado aos moradores do bairro Macuco está agendada para o dia 28 de outubro. Além disso, a documentação será enviada ao Tribunal de Contas da União (TCU) em dezembro de 2024, e o edital da PPP deve ser publicado até o terceiro trimestre de 2025, com o leilão previsto para o segundo semestre do mesmo ano.
O tempo e o custo da construção serão monitorados de perto. Grandes obras de infraestrutura costumam enfrentar desafios logísticos e financeiros, mas a expectativa é que, com uma sólida parceria público-privada, esses obstáculos possam ser superados. O Túnel Submerso Santos-Guarujá promete não apenas resolver um gargalo histórico da região, mas também marcar o início de uma nova fase de desenvolvimento para a Baixada Santista.
O futuro da mobilidade na Baixada Santista
Quando estiver concluído, o Túnel Santos-Guarujá será um marco na engenharia e na infraestrutura brasileira, destacando o Brasil como pioneiro na América Latina em termos de construção de túneis submersos. Mais do que um feito técnico, a obra representa uma vitória para todos os que dependem diariamente de uma travessia ágil e segura entre Santos e Guarujá.
José Manoel Ferreira Gonçalves – Engenheiro, advogado e jornalista
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Fabio
30 de outubro de 2024 4:12 pmAlguma surpresa?
É sempre a mesma história. O Poder Público, ou seja o povão, entra com os recursos e a iniciativa privada fica com a arrecadação.
E se a receita não for a esperada o Poder Público complementa para manter o equilíbrio econômico-financeiro. É o “capitalismo à brasileira”.
MORGANA OLIVEIRA
31 de outubro de 2024 5:27 pmExcelente análise, José Manoel! O avanço do Túnel Santos-Guarujá representa um marco na mobilidade da Baixada Santista, mas os pontos que você levanta sobre os impactos ambientais e o modelo de financiamento precisam ser discutidos amplamente. Em um projeto de tal envergadura, é crucial que o interesse público e o equilíbrio ambiental estejam em primeiro plano. A baixa participação do setor privado e as consequências ambientais descritas mostram que ainda temos desafios pela frente. Obrigado por compartilhar essa visão crítica e essencial para um debate informado!
Arthur
31 de outubro de 2024 5:30 pmQuando vemos os informes do novo projeto, parece que tudo é maravilhoso! Fico feliz em ver uma análise que não apenas aponta os benefícios da obra, mas também questiona os desafios que o projeto pode trazer para o meio ambiente e para a economia local. Muitas vezes, o desenvolvimento é visto como algo positivo sem se avaliar o custo real para a sociedade e para o ecossistema. Que bom contar com uma visão técnica e responsável sobre um tema tão importante para a Baixada Santista!
Luis Paschoarelli
1 de novembro de 2024 9:38 amDesculpe o alerta, mas não é o primeiro túnel submerso na América-Latina. A Argentina já construiu um túnel submerso em 1969 (https://en.m.wikipedia.org/wiki/Ra%C3%BAl_Uranga_%E2%80%93_Carlos_Sylvestre_Begnis_Subfluvial_Tunnel) que tem quase que três vezes o comprimento do túnel proposto entre Santos e Guarujá (SP). O governo do Estado de São Paulo deveria ter vergonha desta proposta existir a quase 100 anos (https://www.seesp.org.br/site/index.php/jornal-do-engenheiro/item/20157-a-polemica-ligacao-santos-guaruja) e, até hoje, só enrolação. As notícias deveriam expor isso também. Jornalismo sério dissemina informação verdadeira.
Maria Angélica Fernandes
1 de novembro de 2024 11:47 amEnquanto a ganância imperar com falsas promessas, destruindo uma cidade inteira, poluindo todas as praias desta cidade, sem na realidade beneficiar a população local, não ouvindo especialistas ambientais, para beneficiar turistas, grandes empresários, destruindo tuda a cidade, eles não vão descansar, nós tbm sofreremos as consequências e seremos responsáveis por não impedirmos que isto aconteça!…😢