A Greve dos Caminhoneiros e o biodiesel (2/2), por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Existem outras matérias-primas para biodiesel muito mais produtivas que a soja. O óleo de dendê e o pinhão manso são dois exemplos.

Ilustração Redesoft

A Greve dos Caminhoneiros e o biodiesel (2/2)

por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Tem razão quem reclama  de a área destinada à produção de álcool poder ser empregada para produzir comida. Hoje, um hectare de cana, que equivale a um quarteirão da Av. Paulista, produz, em média, 80 T de cana. Cada tonelada de cana fornece, em condições normais, 104 l. Assim, pode-se imaginar que tenhamos 8.320 l/ha. Em sentido figurado, usa-se um quarteirão da Av. Paulista para produzir um pouco mais que oito caixas d’água de álcool. É preciso considerar que, entre cultivo, corte, carga e transporte, também se usa diesel para movimentar tratores, caminhões, colhedeiras, carregadeiras, entre outros veículos. Segundo a Única (União Nacional da Industria da Cana de Açúcar), são aproximadamente 210 l/ha dentro da fazenda e outro tanto fora dela, somando 420 l para cada 8.320 l de álcool,  em torno de 5% do volume produzido. O Brasil destila, entre hidratado e anidro, 28 l bilhões, ou seja, somente para produzir álcool, lá se vão 1,44 l milhões de óleo diesel, 1% do consumo total do país.

Imaginemos agora que se usam 4,2 ha milhões, que poderiam produzir feijão com arroz. Em relação aos 850 milhões de hectares que o país tem como território, parece pífio, não passando de 0,5%. Mesmo retirando as áreas a serem protegidas dos vários biomas com que conta o país, a parcela é insignificante, atingindo os 1,5%.

As críticas destinadas à distorção da ocupação territorial cabe à soja destinada ao biodiesel mais contundentemente. Supondo-se que a quase totalidade da origem do combustível seja soja, pode-se estimar a área necessária a ser plantada para suprir a imposição da participação de 10% nos 144 bilhões de litros de diesel de petróleo que o Brasil consome anualmente. Por conta da pandemia, segundo a ANP (Agência Nacional do Petróleo), em 2020, foram consumidos 7% a menos de diesel, perfazendo 136 l bilhões, o que permite inferir que o consumo normal do país tenda a voltar aos 144 l bilhões.

Supondo-se que a produtividade da soja seja 3,6 T/ha, com a premissa de 18% de óleo no grão, obtêm-se 648 kg de óleo por hectare. Se usado diretamente, os resíduos colariam os bicos injetores. O combustível é um éster extraído por craqueamento, usando-se álcool como catalizador. O processo chama-se transesterificação que, além de equalizar a viscosidade das várias matérias-primas que podem gerar biodiesel, permite que os motores funcionem sem adaptação. É um processo em que vinte por cento do peso perde-se como vapor e outros vinte por cento transformam-se em glicerol. Sobram 414,72 kg de biodiesel por hectare que, com a densidade de 0,88 oferecem 471,27 l por hectare. Isso indica que seriam necessários mais de trinta milhões de hectares para fazer face aos dez por cento de adição obrigatória. Considerando-se que se usa combustível para plantar, colher, secar e transportar o grão, a área efetiva é oito vezes maior que a requerida para produzir álcool. Se forem tomados os números de produtividade por hectare, grosso modo, 500 l/ha para o biodiesel de soja e 8.000 l/ha para o álcool obtém-se um resultado dezesseis vezes menor para o éster, ratificando a ineficiência da atividade, o que se ameniza pelo comércio do farelo.

Existem outras matérias-primas para biodiesel muito mais produtivas que a soja. O óleo de dendê e o pinhão manso são dois exemplos. Respectivamente, produzem 9.600 l/ha e 5.800 l/ha. Ambas são culturas perenes. Por não terem plantio anual como a soja, o consumo de diesel no processo é bem menor, o que é uma economia de combustível extra. Não são usados por não serem commodities, consequentemente, não contarem com os mecanismos mundiais e nacionais de financiamento. Commodities, por poderem contar com contratos futuros para garantir preço, bem como investimentos via fundos, permitem que o produtor tenha uma grande parte de seu risco mitigado e a lucratividade garantida, desde que não invente nada, desde que extremamente conservador. É o resultado da financeirização, que padroniza o pensamento dos agentes econômicos, pondo a aversão ao risco à frente do anseio pelo lucro. Põe-se a eficiência em segundo plano, tornando lentas todas as mudanças de longo prazo.

A reclamação dos frotistas caminhoneiros acerca da higroscopia e acúmulo de impurezas do biodiesel parece injusta, pois os veículos de ciclo Diesel sempre usaram filtros de decantação para separar a água e outro de feltro para os resíduos. É por isso que se deve deixar o tanque sempre cheio, minimizando o contato com o ar. O problema parece ser de custo mesmo, visto que a ineficiência do processo resulta valores inimagináveis por litro. Tomando-se os mesmos R$6,76/l para o óleo do capítulo anterior, temos R$10,56/l devido às perdas na transesterificação, ao que se devem somar 50% de custo do processo, chegando-se aos R$15,84 reivindicados pelas usinas. Sem subsídio, representa um acréscimo de R$1,58/l, como reclama o setor de transportes.

Para o agronegócio, trata-se de custo de oportunidade, pois, para 60l de biodiesel, são 8,68sc de soja que se deixam de exportar em grãos. Um prejuízo, mesmo que se possa exportar farelo, cujo mercado é muito mais restrito.

Se o uso de biodiesel for socialmente firme, que se transforme o biodiesel em commodity, tal que as cultivares realmente eficientes, como o dendê e o pinhão manso, encontrem financiamento. Baseando-se em uma cadeia ineficiente, é que não se chega a lugar algum.

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou mestrado na PUC-SP, é pós-graduado em Economia Internacional pela Columbia University (NY) e doutor em História Econômica pela USP. No terceiro setor, sendo o mais antigo usuário vivo de cão-guia, foi o autor da primeira lei de livre acesso do Brasil (lei municipal de São Paulo 12492/1997), tem grande protagonismo na defesa dos direitos da pessoa com deficiência, sendo o presidente do Instituto Meus Olhos Têm Quatro Patas (MO4P). Nos esportes, foi, por mais de 20 anos, o único cavaleiro cego federado no mundo, o que o levou a representar o Brasil nos Emirados Árabes Unidos, a convite de seu presidente Khalifa bin Zayed al Nahyan, por 2 vezes.

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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