Ação, palanque, barbárie e bônus, por Ricardo Mezavila

Com vinte e nove mortos até o momento, a chacina na Favela do Jacarezinho tem servido de anabolizante para a campanha de Bolsonaro à reeleição.

Mauro Pimentel - AFP

Ação, palanque, barbárie e bônus

por Ricardo Mezavila

Com vinte e nove mortos até o momento, a chacina na Favela do Jacarezinho tem servido de anabolizante para a campanha de Bolsonaro à reeleição. Tomando pauladas na CPI da Covid, o presidente precisa sair do corner, ganhar fôlego e agilidade para continuar na luta. 

Não há nada que comprove, mas a visita que Bolsonaro fez ao governador Cláudio Castro no dia anterior ao massacre, pode não dizer nada, mas também pode dizer muito, quando passamos a ler nas entrelinhas da coletiva dada pelo subsecretário da polícia civil e pelo delegado responsável pela operação. 

O subsecretário disse: “De uns tempos pra cá por força de algumas decisões, de algum ativismo judicial, que se vê hoje muito latente na discussão social, a gente foi de alguma forma impedido de atuar em algumas localidades e vimos o crescimento do tráfico”. 

Com um tom ‘bandido bom é bandido morto’ o delegado emendou: “Foram 24 mortos (já são 29), diga-se de passagem nenhum era suspeito, era bandido, criminoso, traficante e homicida”. 

Ativismo Judicial” é um termo muito utilizado pelo grupo ideológico afinado com Bolsonaro que prega o fechamento do STF. 

No sepultamento do bravo policial, que mereceu todas as honras, o secretário de polícia civil criou uma atmosfera de terror muito utilizada por Bolsonaro na campanha: “Quem conhece um pouquinho de operação, o traficante, o criminoso, quando a gente entra na comunidade ele atira para fugir. Ontem, eles atiravam para guardar posição, para matar. O que a polícia civil mostrou ontem foi técnica, foi maturidade, de mostrar à sociedade que aquele traficante que invadiu a casa da moradora ele é inimigo de toda a sociedade. Amanhã pode invadir sua casa na Zona Sul, na Zona Norte, na Zona Oeste”,  

Nas redes, a turma que odeia os ‘Direitos Humanos’ manifestou-se amplamente, dando voz a uma corrente que busca apoio do eleitorado pouco ou nada esclarecido, porém acuado e vulnerável.  

Aproveitando o palanque, o presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, através da sua conta no twitter deu sua opinião sobre as manifestações dos moradores do Jacarezinho e da presença de integrantes dos Direitos Humanos na região: “Desfile dos queridinhos da imprensa, ONGs dos direitos humanos, PSOL e movimento negro. Para nós, cidadãos de bem, não são vítimas nem suspeitos. São lixo e valem menos que esterco”! 

É apenas suposição, assim como é suposição que todos os mortos pelas armas do Estado eram bandidos. Outra suposição, se havia vinte e um mandados de prisão, se três foram presos e três foram mortos, então, quinze conseguiram fugir.  

A conta não fecha. Quem são os outros vinte e seis que tombaram, sendo alguns dentro da casa de inocentes e na presença de crianças? 

Ricardo Mezavila, cientista político

Este artigo não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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