Guinga, em Zamboio: Beleza revolucionária, por Aquiles Rique Reis

A beleza de cada uma das onze composições – letras e músicas dele – podem ser sentidas como nostálgicas. Mas são mais do que isso, são um bálsamo a preencher o ar genocida, imposto por loucos irresponsáveis.

Beleza revolucionária

por Aquiles Rique Reis

Ouvindo o novo trabalho de Guinga, algo me veio à cabeça: ainda que os dias de chumbo nos tragam desassossego, seria seu CD uma obra consagradora, de beleza única, que veio para abrir janelas de esperança?

Será que os donos momentâneos do poder querem, de fato, arruinar os nossos biomas e a força grandiosa da nossa cultura? Logo uma música que, como um raio de sol, nos aqueceu nos dias de desesperança?

Ou serão músicas que nos acompanharão ao longo do tempo? Músicas que nos fazem chorar diante da impotência frente à pandemia, mortalmente amplificada pelos negacionistas?

Mas quando a beleza de uma música romântica a faz igualmente revolucionária? Eu sinto que é quando a poesia musicada adere à nossa memória musical. E no futuro, ao ouvi-la novamente, aquela velha canção nos devolverá o sentimento e a satisfação de, através dela, relembrar os tempos difíceis, quando, enfim, recuperamos a liberdade.

É o prazer de curti-la em dobro: primeiro, no momento em que foi recém-criada, e depois, quando a canção, ressignificada, volta a ser cantada. Uma trilha sonora representativa dos tempos difíceis em que foi concebida, mas que hoje lança luz nova sobre uma música tão romântica do passado, agora tão igualmente revolucionária.

Pois bem, Guinga lançou Zamboio (independente).  A beleza de cada uma das onze composições – letras e músicas dele – podem ser sentidas como nostálgicas. Mas são mais do que isso, são um bálsamo a preencher o ar genocida, imposto por loucos irresponsáveis.

Com os sentimentos sempre à mostra, Guinga absorve lágrimas e sorrisos, devolvendo-os às gentes e contentando-se com a alegria de sentir o pensar e o agir.

Assim, ó: sou encantado com as intros que Guinga compõe. É como se fossem uma música à parte, em que os sentidos melódicos e harmônios estão nítidos em cada uma.

Para melhor apreciá-las, quem sabe um álbum com as intros de cada álbum? Alô Fernanda Vogas, alô Guinga, que tal?

As músicas de Guinga, e agora com os seus versos, têm tudo a ver com as melodias: não têm rumo certo. Vão aonde o delírio de Guinga apontar. Palavras inesperadas, sem rimas, instigantes… Ora, música de Guinga. Ouvi-la é transcender à beleza.

“A Bailarina e o Vagalume”, por exemplo, é um louvor ao Rio de Janeiro. Como se, submersas nas águas da Baía da Guanabara, as músicas viessem à tona, achegadas em vertiginosas sequências… aliás, assim como as intros, essa profusão de notas nos fraseados melódicos é outro predicado de Guinga.

 Zamboio é um trabalho irrepreensível. As obras concebidas por Guinga são dignas de aclamação. Momento explícito de sabedoria, seu atual repertório autoral acrescenta motivos para seguir rumo à segunda obra-prima de Guinga.

Aquiles Rique Reis, vocalista do MPB4

Ficha técnica:
Idealização: Fernanda Vogas e Xabier Monreal

produção fonográfica e edição: Vogas Produções
produção musical: Kassin
técnico de gravação: Mauro Araújo
mixagem: Kassin
masterização: Ricardo Garcia

capa e arte: Xabier Monreal
distribuição: Tratore

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