Mães & Filhos, por Thiago Rodrigues Cardin

Às mães de todas as vítimas mortas pelas mãos do Estado brasileiro (em guerra ininterrupta contra seu próprio povo), todo o amor do mundo.

Foto Brasil de Fato

Mães & Filhos

por Thiago Rodrigues Cardin

Esses homens vão ter que entender
Que isto aqui é o nosso Brasil
Nosso chão, nossa vida, nossa pátria mãe gentil
Isso um dia vai ter que mudar
A justiça vai ter que acordar
E a igualdade um dia vai raiar

(Nossa pátria mãe gentil – Beth Carvalho)

Em 1946, Zuleika, mais conhecida como Zuzu, dá à luz seu primeiro filho, Stuart – posteriormente, Hildegard e Ana Cristina completariam a família.

Ao iniciar a vida adulta (com direito a um bicampeonato estadual de remo pelo Clube de Regatas Flamengo), Stuart ingressa no curso de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Na sequência, passa a integrar organizações clandestinas de combate à ditadura militar instalada no país. Preso em abril de 1971, Stuart é torturado e morto por agentes da ditadura, sendo dado como desaparecido pelas autoridades.

Nos próximos cinco anos, a vida de Zuzu se transforma em uma guerra contra o regime pela recuperação do corpo de seu filho – estilista, ela organiza desfiles-protestos que se tornam internacionalmente conhecidos, causando a ira dos agentes que comandavam o país. Sua busca se encerraria em 1976, em um acidente automobilístico causado por militares que ceifaria sua vida.

Mais de 40 anos depois, a Justiça determina a emissão de novas certidões de óbito de Zuzu Angel e Stuart Angel, nas quais constam que ambos foram vítimas de “morte não natural, violenta, causada pelo Estado brasileiro, no contexto da perseguição sistemática e generalizada a população identificada como opositora política ao regime ditatorial de 1964 a 1985”.

(em 2014, a Comissão Nacional da Verdade confirmou 434 mortes e desaparecimentos de vítimas da ditadura militar no Brasil)

*

No dia 14 de maio de 2006, Débora comemorou o dia das mães (e, por coincidência, seu aniversário) em sua casa, na companhia dos filhos Rogério, Kátia e Kelly, além dos netos. À noite, Rogério se despediu da mãe, disse que dormiria na “casinha” que haviam comprado e estavam reformando para “sair do aluguel” e que trabalharia cedo na segunda, mesmo “estando de atestado” (tinha feito uma cirurgia dentária, “com 15 pontos na boca”), por medo de perder o emprego.

No dia seguinte, eclodem os chamados “crimes de maio”, ações de grupos de extermínio integrados por policiais em resposta a ataques do Primeiro Comando da Capital. Débora fica sabendo, por meio de um programa de rádio policial local, de uma “matança” ocorrida em sua região, com 16 pessoas mortas – o nome de Rogério é o terceiro da relação de vítimas lida pelo repórter.

Após “vegetar” por 40 dias, chegando a ser hospitalizada, Débora se levanta e sai à procura das outras mães que perderam seu filho no massacre. Com elas, inicia a peregrinação em busca por justiça, sendo recebida com desdém e descaso em todos os órgãos públicos nos quais ousa gritar a verdade: seu filho foi morto por policiais “porque era preto” [i].

Débora lidera a fundação do Movimento Independente Mães de Maio, rede da qual participam familiares de vítimas de diversos episódios de violência policial no Brasil e que, em 2011, receberia o Prêmio Santo Dias de Direitos Humanos da Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.

Em 2018, após Débora Silva Maria exercer incansavelmente a função de investigadora extraoficial do assassinato de seu filho, o Supremo Tribunal Federal manteve decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo que responsabilizou o Estado pela morte do gari Edson Rogério Silva dos Santos.

(564 brasileiros foram assassinados nos crimes de maio de 2006. Apenas em 2020, houve 6.357 vítimas de violência policial no país – 74,3% eram jovens de até 29 anos e 79,1% eram negros)

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Mãe de Marielle e Anielle e avó de Luyara, Mariah e Eloah, Marinete conviveu a vida toda com uma estrutura matriarcal sólida, tendo como primeiro exemplo de vida a própria mãe, Filomena, que “criou suas filhas enfrentando as fissuras cruéis da desigualdade no nordeste”.

Construindo uma “geração de mulheres fortes” inserida em uma “sociedade que produz a morte e a violência contra nossos filhos”, Marinete sempre soube que o ativismo político seria uma consequência natural para quem cultivava resistência. Assim, não se surpreende quando Marielle, em 2006, é nomeada assessora parlamentar e assume a coordenação da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, tampouco quando, uma década depois, a filha participa de sua primeira disputa eleitoral, sendo eleita vereadora na capital fluminense.

Nada podia preparar Marinete, contudo, para a dor que sentiria a partir de 14 de março de 2018, dia em que Marielle é covardemente executada. Nem mesmo o conforto de saber que na noite anterior conseguiu se despedir de sua filha aplacou o “período de deserto” que invadiu sua vida, afundando sua alma “no mais profundo abismo” [ii].

Embora Marielle esteja mais presente do que nunca (inclusive nos gritos de resistência que se alastraram pelo país afora), sua ausência física dói no coração de Marinete. Isso não a impede de, ao lado de Anielle e de sua família, pavimentar a construção do Instituto Marielle Franco, promovendo o legado de luta de mulheres negras, LGBTQIA+ e periféricas.

Mais de 1.150 dias depois de seu assassinato, o Estado brasileiro ainda não respondeu quem (nem por quê) mandou matar Marielle.

(desde a redemocratização do país, 1.569 brasileiros foram assassinados por motivação política – 80 pessoas apenas em 2020)

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Matheus, filho de Rachel, foi uma criança apaixonada por esportes, desde cedo sonhando cursar a faculdade de educação física. Em novembro de 2016, apenas dois meses após completar 18 anos, é preso acusado de participação em um roubo. Condenado, é transferido para um penitenciária no interior de São Paulo, distante a mais de 250 quilômetros de sua cidade natal e local onde, de acordo com o movimento Mães do Cárcere, há diversos relatos de tortura, comida estragada e abuso de poder.

Rachel relata que, nos anos seguintes, seu filho concluiu os estudos dentro do cárcere, fez cursos de capacitação e almejava realizar o sonho (adiado pela pandemia do novo coronavírus) de fazer sua faculdade.

Em janeiro de 2021, Matheus acordou com febre alta. Após desmaiar de tanta dor, seus colegas de cela começam a fazer barulho, a fim de que ele seja levado para a enfermaria, onde é superficialmente atendido e liberado. Pouco tempo depois de retornar a sua cela, Matheus sofre a primeira parada cardiorrespiratória, mas ainda permanece três dias no interior do presídio, para desespero de seus colegas de cárcere, que clamavam por novo atendimento. Enfim encaminhado ao Pronto Socorro local, Matheus vem a óbito no dia 29 de janeiro de 2021, após a quarta parada cardíaca.

Rachel somente ficou sabendo do estado crítico do filho poucas horas antes de sua morte. Ao chegar no município onde Matheus estava detido, já o encontrou sem vida, sendo informada pelo médico que o atendeu que, quando seu filho chegou ao Pronto Socorro, uma infecção já havia tomado conta de todo seu corpo. A causa do óbito não foi determinada, mas, mesmo tendo Matheus testado negativo para Covid, Rachel teve apenas dois minutos para olhá-lo antes de se despedir para sempre do filho caçula.

Rachel Siqueira Silva, de 44 anos, agora pretende “lutar para que outras pessoas não passem pelo que estamos passando”.

(mais de 4 brasileiros morrem por dia em prisões do país. Quase três décadas após o massacre do Carandiru, ninguém foi punido pelos crimes)

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Mãe também de Juliana, Déa Lúcia se tornou nacionalmente conhecida graças ao trabalho de seu filho, o ator e humorista Paulo Gustavo, que em 2006 escreveu e protagonizou o monólogo Minha Mãe é Uma Peça, cuja personagem Dona Hermínia foi livremente inspirada em sua genitora. Posteriormente, o espetáculo seria adaptado para o cinema, resultando em três filmes lançados entre 2013 e 2019, todos sucessos de bilheteria.

Anos antes do sucesso, quando obteve a confirmação do filho ainda adolescente sobre sua homossexualidade, Déa Lúcia recebeu a informação com absoluta naturalidade, não sem temer o que ele poderia “sofrer na rua”, especialmente vivendo no país que mais mata por motivações homofóbicas no mundo. Enquanto isso, Déa Lúcia exercia diversos trabalhos para colocar comida na mesa, de porteira de prédio a vendedora de “quentinhas” – entregues com a ajuda do filho.

Superando estereótipos e preconceitos, Paulo Gustavo se tornou um dos artistas mais reconhecidos de sua geração, construindo uma carreira sólida e chegando a estrelar um espetáculo (“O Filho da Mãe”) juntamente com Déa Lúcia no ano de 2019. Na vida pessoal, também houve superações, passando pela morte de um primo/irmão e pelo aborto espontâneo dos primeiros filhos que teria com seu marido Thales – em agosto de 2019, nasceriam os filhos gêmeos do casal, Romeu e Gael.

Paulo Gustavo somente não seria capaz de superar o projeto genocida do atual comandante do país, que, na maior crise sanitária da história, trabalhou para disseminar um vírus mortal, estimulando aglomerações, vetando a obrigatoriedade do uso de máscaras, esbanjando dinheiro público com medicamentos comprovadamente ineficazes, tratando com desdém as vítimas do vírus, recusando vacinas e propagando a “imunidade de rebanho” (termo, aliás, que cai como uma luva para seus seguidores).

No dia 04 de maio de 2021, após 20 dias de internação, Paulo Gustavo Amaral Monteiro de Barros faleceu de complicações de COVID-19 – no momento da passagem, às 21h12, sua mãe Déa Lúcia Vieira Amaral lhe dizia “Obrigada, meu filho, por você ter me escolhido para ser sua mãe”.

(até o momento, cerca de 420.000 brasileiros já tombaram por um crime contra a humanidade perpetrado no país a olhos vistos)

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Às mães de todas as vítimas mortas pelas mãos do Estado brasileiro (em guerra ininterrupta contra seu próprio povo), todo o amor do mundo.

A seus algozes, o outro lado.

Thiago Rodrigues Cardin – Promotor de Justiça do MPSP e membro fundador do Coletivo por um Ministério Público Transformador – Coletivo Transforma MP

Este artigo não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN


[i] Elaborado com base no livro “Memorial dos Nossos Filhos Vivos”, do Movimento Independente Mães de Maio.

[ii] Elaborado com base em “Uma carta de Marinete da Silva, nossa matriarca”, acessado em https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/anielle-franco/2021/03/15/uma-carta-de-marinete-da-silva-nossa-matriarca.htm

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