O país se move num melaço, tudo se arrefece, por Frederico Firmo

Apesar do aspecto brancaleônico deste exército de manifestantes, a noite do dia 6 poderia ter consequências gravíssimas para o país. Mas foi como o furacão Catarina, primeiro desconsiderado e com pouca ou nenhuma medida preventiva.

O país se move num melaço, tudo se arrefece.

por Frederico Firmo

O país se move num melaço cada passo e cada movimento  perde momentum  e momento.  A viscosidade é tão grande que Bolsonaro saltou do prédio mas nunca  chega ao chão.

 O tempo vai passando sem se apressar mas dá a impressão de que foi muito tempo atrás. O dia e noite do dia 6 cheios de acontecimentos importantes nos bastidores. Planos táticos e estratégicos em andamento, avançaram pelas veias abertas de Brasília onde a policia abre barreiras e permite a entrada do que seria o prenúncio da invasão. A noite mal começou quando telefonemas e mensagens foram trocadas. O governador convenientemente se retira de Brasília deixando chefe de polícia e vice-governador que, inicialmente irresponsáveis, se tornam responsáveis  após  um telefonema. Com os nomes expostos preferem recuar.

Os até então convictos e confiantes golpistas entram, mas vão perdendo o ímpeto na medida em que perdem o respaldo da tropa. Com medo não prosseguem dizendo esperar ordens de um imaginário comando. Por sua vez, o comando se esconde atrás daqueles que diziam comandar. Com medo recuam sem se dar conta de quão próximos estavam do alvo e do objetivo.

O filho do presidente dizia que bastaria um jipe, um oficial e um soldado para fechar o STF, porém, um simples telefonema de um ministro bastou para paralisar a turba. Aliás, uma turba da qual apenas parte era de convictos, outra parte era paga. Mas nenhuma parte sabia o que fazer. Eles confiavam que quem faria tudo seria o mito. O motim da PM se transformou em mais uma lenda urbana na época da fake news. Restaram as bravatas nas redes de alguns auto- denominados lideres. Zé Trovão, na hora da batalha, correu para o México enquanto seus liderados recebiam ordens dos patrões para permanecer em Brasília. Não tiveram a mínima capacidade para esconder quem de fato liderava e pagava por tudo aquilo. Uma frota inteira de uma mesma empresa ficou estacionado na Esplanada, mesmo depois da carta a nação do presidente.

Apesar do aspecto brancaleônico deste exército de manifestantes, a noite do dia 6 poderia ter consequências gravíssimas para o país. Mas foi como o furacão Catarina, primeiro desconsiderado e com pouca ou nenhuma medida preventiva. Depois foi minimizado porque ao não passar por regiões mais populosas não deixou marcas visíveis e terríveis por onde passou. Mas o risco foi grande,  um simples bater de asas de uma borboleta poderia ter direcionado o furacão para cidades populosas, com consequências devastadoras. Nos dias seguintes tudo foi sendo minimizado, minimizado até que  se tornou lenda.

Nosso 7 de setembro foi assim, passou perto, mas ao largo. Nos dias que se seguiram, uma  carta mentirosa  a nação  ressuscitou o mordomo do Jaburu, aquele que de fato cometeu um crime. Mais uma vez Temer  serve ao golpe. Chamado mais pela sua amizade com Moraes do que devido à sua habilidade política, preenche de novo um papel com mentiras. A farsa continua com o surpreendente discurso de Bolsonaro na cúpula dos BRICS, jurando ser chinês desde criancinha e  traindo as promessas feitas recentemente a um visitante americano.

Nos dias seguintes, a narrativa cínica começa a se desenhar. Um  general de pijama vem a público elogiar o presidente pela maturidade e serenidade e pelos esforços de respeitar a constituição. Parte dos seguidores, frustrados se despedem, pois as palavras têm cor, aparência e cheiro de traição. Os bombeiros começam a dizer que depois daquela carta o mercado subiu, o dólar caiu e como disse o Zé Trovão, agora o presidente havia decretado que a harmonia entre os poderes era lei e ia ser respeitada pelo STF. O presidente do senado diz que a carta a nação deve ser o guia da politica no país.

Noticias de conversas paralelas entre o Temer e Moraes, entre Ministro da Justiça e Moraes resultam ainda em uma frase de Gilmar Mendes apregoando ser preciso ter fé nas palavras do presidente. A intenção é adiar e inviabilizar qualquer processo de impeachment. Mais uma prova de que o andar de cima entende que um Bolsonaro enfraquecido pode não ser o melhor para a democracia nem para o país, mas é bom para reformas e grandes negócios. As cabeças do andar de cima continuam tendo a veleidade de pensar que podem controlar Bolsonaro. Desde o começo do governo Bolsonaro, apostam que podem controlá-lo, deu no que deu. Cinicamente foram fingindo não ver todo o descalabro e destruição que este governo causa. E agora consideram vantajoso ter um Bolsonaro completamente destruído para chamar de seu. O mercado e adjacências vão manter sua aposta e tentar arrefecer todo e qualquer movimento democrático.

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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