Para que serve uma estátua?, por Fernando Horta

Ao queimar a estátua está se fazendo a disputa política pela memória. Está se criando um discurso político exigindo a tutela do Estado para a negação dos valores (monumento) que a estátua simboliza.

Reprodução Redes Sociais

Para que serve uma estátua?

por Fernando Horta

Toda ação humana de produção ou transformação material da realidade com o objetivo de transpor o limite finito da vida do indivíduo tem sempre duas funções: a função de documento e a função de monumento. Isso é válido para as pinturas rupestres feitas na pré-história, passando pelo Arco do Triunfo em Paris e chegando até … Borba Gato em São Paulo. É preciso, contudo, compreender efetivamente o que significam ambas as funções e como elas interagem com os tempos.

Memória. É disso que se trata. Lembrar e esquecer são atos conscientes, racionais e políticos, como mostra Paul Ricoeur. E as decisões sobre o que lembrar e o que esquecer ocorrem no campo do público e também no campo do privado. Não me interessa muito, aqui, falar sobre a memória no campo do privado. Fotos, gravações, álbuns, roupas, objetos pessoais ou quaisquer coisas que possam vencer o tempo da vida são comumente utilizados como memória do mundo privado. São testemunhos da nossa luta contra o tempo, do nosso desespero contra a finitude e são, em princípio, todos válidos. No campo do privado as memórias são colecionada e mantidas, na maioria das vezes, com finalidade sentimental. São documentos das presenças do passado que julgamos importante conservarmos no presente. No campo do privado, as funções de documento e monumento estão também contidas, mas circunstanciadas fora dos limites do mundo público.

A memória pública, contudo, tem outro propósito. É função do Estado a manutenção e controle da memória. Todo ser humano tem direito a uma orientação temporal e, a bem da verdade, não vive sem ela. Somos tanto seres sociais como seres temporais. O sentido de pertencimento social nasce no mesmo momento e com a mesma intensidade do sentido de pertencimento temporal. É o jogo dos “três presentes” como apresentado por Santo Agostinho. O ser vive apenas no presente. Tudo é, por isso, presente. Há, entretanto, o presente do passado (a memória), o presente do presente (a política) e o presente do futuro (o horizonte dos acontecimentos). Nesse sentido, não cabe e nem pode o homem ficar preso a outro tempo que não o presente. E é o presente da política que molda e define os caminhos da memória. É a política presente que define em qual das duas dimensões (se documento ou se monumento) as coisas devem ser valoradas. Na Alemanha, por exemplo mais gritante, os campos de concentração são mantidos como documento, e há uma constante narrativa pública pela função do “monumento à bestialidade”. Ali apenas “para que não se esqueça e para que nunca mais aconteça”.

O monumento sem o controle público da narrativa é um convite à conservação da bestialidade. É o tempo presente, e só o tempo presente, que ressignifica as funções da memória de forma a organizar os valores pelos quais determinadas sociedades serão regidas. A luta contra a mudança aqui, normalmente esconde (mal e porcamente) a vontade de um retorno ao passado. Não um retorno retórico ou saudosista, mas um retorno político e social. Não há uma memória nazista na Alemanha que não tenha sido apropriada pelo Estado e esteja constantemente vigiada pelas narrativas cuidadas a demonstrarem o consenso presente sobre aquele monumento.

A estátua de Borba Gato funciona como monumento. É um erro (ou seria um objetivo velado?) confundir a função documento com a função monumento. Uma estátua é uma ode pública a um passado que se quer presente. Presente do passado, de forma política. Sem o controle sobre a narrativa que interpreta e reinterpreta este passado, a estátua simboliza a continuidade dos valores daquele passado que não apenas o representa, mas o materializa. O mesmo ocorre com nomes de ruas (estátuas imagéticas impregnadas de sentido presente e rememória), com nomes de estádios, de prédios e etc. É porque temos muitas ruas “Presidente Médici”, “General Geisel” e “General Figueiredo” que alguns pretendem transladar a memória pública para a defesa de Brilhante Ustra. E é porque não temos estátuas de Honestino Guimarães, Stuart Angel Jones ou Amelinha Teles que o país cultua torturadores e elege genocidas.

E voltamos à pergunta inicial: para que serve uma estátua? A resposta é: para eleger genocidas. É pelo controle da memória que se altera o tecido político presente de forma a estabelecer pontos de disputa por valores sociais e políticos que supostamente estariam assentados “desde o passado” e, por isso, teriam legitimidade histórica. Ao queimar a estátua de Borba Gato ninguém está atingindo a função documento da estátua, eis que se sabe (muito bem) quem foi e o que fez Borba Gato, independente da existência da estátua. Ao queimar a estátua está se fazendo a disputa política pela memória. Está se criando um discurso político exigindo a tutela do Estado para a negação dos valores (monumento) que a estátua simboliza. É o presente, na falta da ação política pública que simboliza que não quer mais aquele passado. Lutar ou criminalizar este ato é criminalizar uma das formas da disputa política. É concordar com os valores da estátua (com o passado não pode passar). E esta ode ao passado e a seus valores reivindica crime à mudança. Determina monocraticamente os limites do que o presente faz com seu passado. Estabelece que o monumento é mais importante que o documento, e homenageia (e faz lembrar) os valores e sentidos do passado que quer presente.

É tanto uma postura política (e não condição jurídica) queimar a estátua, como defender que sejam presos que a queimou. E cada postura diz muito a respeito dos valores do presente de cada um. Diz porque qualquer um entende a hipocrisia de se “confundir” a função “documento” da estátua com sua função monumento. E cada vez mais temos ferramentas contra a hipocrisia do uso da História como escudo para a violência transtemporal. O resto é mimimi de fascista.

Este artigo não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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2 comentários

  1. Para mim, o mais importante nesse caso é que li que a açao foi decidida em assembléia de jovens negros favelados. Isso por si só me faz estar a favor do ato (se bem que o momento talvez nao tenha sido o mais adequado, por permitir a consideraçao dos atos contra o Bozo como “terrorristas”; mas quem tem que decidir isso nao sou eu). Porque é disso que se trata. Os que estao censurando os “identidaristas” estao querendo determinar a causa que faz outros lutarem, isso é arrogância. Cada um luta contra aquilo que o oprime, e quem sabe o que o oprime é o oprimido. Fazer uma luta geral pela democracia e contra Bolsonaro nao impede que essa luta assuma matizes vários, que representem os vários movimentos que lutam. Todos juntos, mas cada um dizendo o que lhes parece importante.

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