Se não sairmos das ruas poderemos vencer!, por Paulo Endo

Fazer a hora é marcar o tempo, marcar o ritmo, enunciar gramáticas, juntar-se às falas que são outras, que são nossas e que se sonham juntas. Fazer a hora é sonhar o sonho dos outros, com os outros, como os outros.

Crédito: Laércio Portela/MZ Conteúdo

do Psicanalistas pela Democracia

Se não sairmos das ruas poderemos vencer!

por Paulo Endo

Mais cidades, mais pessoas, mais grupos e coletivos, mais alegria, criatividade, solidariedade e vida nas ruas. As ruas falam, cantam, dançam, gritam, choram no 19J.

No domingo, mais uma vez, as ruas humanizaram o Brasil!

Ontem notícias de que a esquerda congressista voltará a insistir no impeachment no congresso nacional. Se insistir em travar o processo e com o brado das ruas, Arthur Lira será considerado cúmplice da morte de centenas de milhares de brasileiras e brasileiros. Se parece pouco, é importante lembrar que isso sequer era cogitado antes do 29 M. Ao contrário, manifestações à esquerda e à direita se diziam contra o impeachment, “que não era a hora”, que provocaria mais instabilidade institucional, etc… Nas ruas o impeachment volta a ser uma possibilidade, um clamor e uma realidade vindoura.

Bom,  quem sabe faz a hora não espera acontecer.

A frase estupenda capaz de nomear tudo e todos naquele sombrio 1968 e, ao mesmo tempo, revelar o anseio silenciado de cada um.  Zuza Homem de Melo comentando sobre a apresentação de Geraldo Vandré nesse dia em que, ovacionado pelo público, foi proibido pelo governo militar de receber o primeiro lugar no III Festival Internacional da Canção. Zuza destacava que diferente de outros artistas, que também faziam alusões críticas ou dos que subiam ao palco  em grupos ou bandas, a apresentação de Vandré foi completamente inusitada.  Era só um homem, um homem só e um violão em 1968, nomeando o sentido de revolta diante dos milhares que o assistiam ao vivo e pelos aparelhos de TV. Quem sabe faz a hora…não espera acontecer.

Fazer a hora é marcar o tempo, marcar o ritmo, enunciar gramáticas, juntar-se às falas que são outras, que são nossas e que se sonham juntas. Fazer a hora é sonhar o sonho dos outros, com os outros, como os outros. Fazer a hora é nos redimir do tempo heterônomo, linear e cativo para atentarmos para a atemporalidade onírica onde se reúnem todos os impossíveis.

As ruas hoje fazem a hora no Brasil. Quem poderá ser indiferente a alegria que aguarda esperançosa e risonha a democracia que não temos? Delas depende tudo o que irá acontecer nos próximos meses, anos e décadas. Saber disso é aprontar-se para uma luta que se agrava, se aprofunda e se instala no Brasil. O passo decisivo do cadafalso ou da  retomada.

A fúria da besta na segunda feira pós 19J em Guaratinguetá evidencia sua disposição. Não vai parar. Move suas peças, adula batalhões, acena para policiais, vende a alma ao demônio (centrão) e tem em seu apoio muitos adeptos e eleitores. A tendência é que eles cresçam e decidam mais adiante também ocupar as ruas violentamente. A vacina virá, o bolsa família terá aumento de valor e número de pessoas contempladas e as eleições ainda estão distantes.

Ano que vem o quadro se alterará. Com toda a população vacinada, o governo preparará sua retomada e, como sempre, os partidos não estarão prontos. É possível que até lá não haja nada nem frente de esquerda, nem frente única, nem frente democrática, mas corremos o risco de testemunharmos o mesmo atraso que marcou os partidos e suas lideranças até agora.

Vimos isso acontecer nas últimas eleições pelo Brasil. Mesmo o apoio à inequívoca candidatura Boulos/Erundina em SP não recebeu apoio enfático e expressivo e uma frente pluripartidária que trabalhasse junto e resoluta pela eleição da dupla. No Rio, Freixo não foi candidato.

As instituições brasileiras falharam em preservar a democracia. Foram cúmplices de cunha, cúmplices de moro e cúmplices de bolsonaro. Vimos a redução dos 3 poderes a um: o executivo.

Lições contrárias também tem vindo de toda parte.

A beleza e a gravidade dos acontecimentos no Chile nos faria desejar estar entre os que lá inventavam palavras, formas e performances revelando, ao final, o sentido do que se evidenciaria como o livramento institucional da herança do nauseante Pinochet: uma nova constituição chilena. Doravante o Chile começa a inventar as próprias palavras para dizer-se, sem que os que a lavram, tenham as mão sujas de sangue. Durante meses seguidos as chilenas/os ocuparam as ruas diariamente. Foram 35 mortos, centenas que perderam a visão, muitos feridos. Mas uma nova constituinte acontecerá.

Após proclamado o resultado das últimas eleições Argentinas em 2019 víamos as imagens do/as argentinas/os chorando e celebrando nas ruas, após derrotarem Macri nas urnas. Ouvíamos com atenção algumas lideranças da coalizão difícil e complexa entre Kirschner e Fernandez dizerem: “aprendemos com o que aconteceu no Brasil em 2018”.

Em 2019 estávamos no México logo após as eleições de Obrador. Eles se preparavam para a celebração da Revolucão Mexicana em 2020. Uma grande celebração nacional estava em curso e nós, secretamente,  invejávamos as festas que os mexicanos fariam ao longo de 2020, impossíveis para os brasileiros. Para nós, sem festejos por enquanto. Difícil e doloroso foi comparar o convívio com o rescaldo do militarismo mais decadente no Brasil celebrando a “revolução de 64”  com as festividades pelos 110 anos da Revolução Mexicana de 1910.

Em 2019 a Bolívia veria o golpe contra Evo Morales, sua renúncia e exílio na Argentina. Protestos aconteceram por todo o país e, nas eleições do ano seguinte,  o povo boliviano elegeria Luis Arce, ex-ministro da economia de Evo Morales, permitindo a volta ao país do primeiro presidente indígena de sua história.

 Assistíamos daqui, da arquibancada, as manifestações por George Floyd nos EUA. Multidões nas ruas para punir um único branco assassino de negros. Mas claro não eram multidões contra um policial, eram multidões contra todos os policiais brancos assassinos dos EUA; contra a instituição policial americana, contra todas/apoiadoras/es de Donald Trump; contra todas/os os herdeiros da Ku Klux Klan; contra os representantes do sul escravocrata. Eram, portanto, multidões contra multidões.

Nesse tempo ouvi algumas vezes: O que está acontecendo no Brasil? E não há reação popular?

Eu ficava entre explicativo e envergonhado.

Entretanto voltamos as ruas em maio, antes as torcidas protagonizariam um primeiro respiro voltando às ruas e fazendo a faxina na Avenida Paulista, até então salpicada de apoiadores do atual governo aos domingos.

Temos meses pela frente para instruir as instituições brasileiras que foram incapazes de parar, punir e encarcerar um genocida que mata diariamente milhares de pessoas. Ele deixa claro todos os dias que não teria qualquer dificuldade em matar milhões, seu poço não tem fim. Ele pisa sob os túmulos ocupados por pessoas  amadas, queridas e importantes que não tiveram a menor chance de lutar por sua sobrevivência.

O congresso nacional e o STF simplesmente fracassaram. Não tem como parar a máquina de destruição que avança. As instituições foram vergonhosas desde 2016 para cumprir a tarefa que a elas foi atribuída constitucionalmente desde 1988.

500 mil mortos é o carimbo desse fracasso.

Mas há, sempre há, as ruas. Quando estive na África do Sul, em pesquisa sobre memoriais, enquanto olhávamos o acervo do Museu do Apartheid de Joanesburgo ,um amigo sul africano me apontava nas fotos as pessoas com as quais militou e se recordou do momento em que, muito jovem, havia decidido, como muitas e muitos, a dedicar-se exclusivamente à luta pelo ao fim do Apartheid. Queria largar os estudos e atuar exclusivamente na militância. Foi demovido pelas súplicas de sua mãe.

Não estamos longe desse impasse.

Nosso dia seguinte depende de nossa presença nas ruas com mais consistência, mais tempo, mais disposição. Ver torcidas de futebol, os secundaristas, todos os coletivos, os partidos, as centrais, os artistas juntos nas ruas é um bom começo. É a instalação do colorido em retinas que enxergavam apenas em preto e branco. Pode ser o começo do fim; podem ser também os primeiros brotos medrando no deserto; pode ser a louca alegria que vem cantando enquanto tímidos raios de sol refratam entre as nuvens.

Mas a tarefa é imensa.

Armas vem sendo incentivadas pelo país, corporações policiais aduladas, parte do exército apoia o presidente e jamais aceitará uma candidatura à esquerda, políticas assistenciais estão em curso e a vacina virá. O quadro em 2022 será inteiramente diferente e a contundência do que vivemos hoje, para muitos, desaparecerá.

Os próximos meses dirão se o que estamos vivendo é o lusco fusco da madrugada que termina ou as cores que esmaecem no por do sol.

Para nós não há nenhuma alternativa mais auspiciosa senão lutar para viver a vida que nos resta numa democracia, deixando esse legado para nossos descendentes. Democracia que hoje se desdobra em intensidade, no ponto exato em que colocamos o pé para fora com cartazes, faixas e gargantas para mudar o país.

O  tempo de ir às ruas está chegando ao fim para dar início ao tempo de viver nas ruas, ficar nas ruas e não sair delas.

Este artigo não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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