Conselhos ao jovem jornalista de economia – 1, por Luís Nassif

Pode haver várias escolas de pensamento econômico, mas o objetivo final é apenas um: promover o desenvolvimento, levando o bem estar a todos os cidadãos, através de instrumentos de coordenação e estímulo da economia, articulados através dos estados nacionais.

Quando entrei na faculdade, o mote geral era: com 6 meses de redação, você aprende tudo o que aprenderia com 4 anos de faculdade. Um evidente exagero! Na técnica jornalística, talvez. Nas outras formas de conhecimento, não.

Hoje em dia, o conselho que se dá: cuidado!, com 6 meses de redação você pode desaprender tudo o que aprendeu em 4 anos de faculdade.

Paradoxalmente, mesmo com o fim do diploma, as boas faculdades tornaram-se essenciais. Na última década e meia, o estupro do jornalismo pelas empresas de mídia espancou qualquer preocupação com os princípios fundamentais da profissão. A guerra cultural empreendida a partir de 2005 calou os jornalistas mais independentes, abriu espaço para uma geração alpinista ou intimidada, matando qualquer reação aos abusos, justo na fase mais decisiva da profissão – a invasão dos influenciadores das redes sociais – gerando um descrédito inédito em relação ao papel do jornalista.

Com a pandemia e o avanço da ultradireita, com a entrada de novos competidores no mercado, esboça-se um início de reação do jornalismo, mas que ainda esbarra no ranço familiar das empresas de comunicação.

Alguns conselhos aos jovens jornalistas:

A tensão permanente jornalismo x empresa

O negócio da mídia é constituído de dois blocos distintos e complementares: o jornalismo e a atividade empresarial. Repito: são distintos e complementares. Cada qual obedece a uma lógica própria, mas que precisa conviver com a lógica do outro. 

É o jornalismo que garante o prestígio necessário e o interesse do leitor para a empresa rentabilizar seu negócio. Os grandes jornais se formam quando o pacto funciona: quando a empresa respeita o jornalismo; e o jornalismo entende os limites da empresa.

A partir daí, cria-se o círculo virtuoso: jornalismo com credibilidade –> construção de reputação do veículo –> aumento da tiragem, da publicidade e das assinaturas. E abre-se espaço para os negócios sub-reptícios, que fazem parte da lógica fundadora da mídia de massa:

  • participação das guerras comerciais;
  • participação nas guerras políticas;
  • participação em jogos comerciais diversos.

Provavelmente o apoio do The New York Times à notícia falsa sobre armas químicas no Iraque foi feito em negociação com a redação. Afinal, a proximidade com o poder gera não apenas negócios, mas notícias.

Por isso, é importante que se ressalve a responsabilidade maior dos diretores de redação. Se eles representam a empresa perante a redação, deveriam representar o jornalismo perante a empresa. Por isso mesmo, quando os princípios do jornalismo são afetados, a responsabilidade direta é da direção de redação. São os diretores que devem responder perante o jornalismo sobre as falhas de cobertura assim como receber o mérito pelas virtudes da cobertura.

Em “O caso de Veja”, relato a extraordinária decadência do jornalismo brasileiro, quando foram rompidos os limites do jornalismo e a mídia brasileira de primeira linha transformou-se em uma enorme Fox News, com as redações totalmente submissas ao jornalismo de esgoto que passou a ser praticado. 

Uma pequena digressão sobre as redações

Até os anos 70, havia uma separação mais nítida entre redação e empresa. Em geral, as redações eram comandadas por grandes jornalistas, com razoável autonomia.

Nos anos 60, o Estadão foi dirigido por Cláudio Abramo e, depois, por Clóvis Rossi. Nos anos 70, Cláudio passou pela Folha. Mino Carta comandou o Jornal da Tarde nos anos 60 e, no final da década, implantou a revista Veja. Jânio de Freitas e Alberto Dines tiveram papel fundamental no Jornal do Brasil, assim como Franklin de Oliveira no Correio da Manhã.

A sucursal brasiliense da Veja era dirigida por Pompeu de Souza e D’Alembert Jaccoud; a do Estadão por Carlos Chagas; a da Folha por Ruy Lopes. As sucursais cariocas dos jornais paulistas e as sucursais paulistas dos jornais cariocas eram dirigidas por jornalistas de prestígio.

Na biografia que escrevi de Walther Moreira Salles ele contava ter ido atrás de apoio do seu amigo Nascimento Britto, para adquirir a Refinaria União. A primeira atitude de Nascimento foi consultar a redação, para saber de sua posição. Voltou com a bandeira sendo endossada pelos jornalistas.

No período ditatorial, Delfim Netto pediu a Walther que usasse seu prestígio nos Estados Unidos para conseguir uma cobertura, em rede nacional, dos avanços econômicos do Brasil. Walther consultou seu amigo, presidente da NBC. Recebeu uma recusa. O amigo consultou a redação, que foi contra devido às notícias sobre torturas no país.

São dois exemplos do funcionamento correto do negócio jornalismo.

Muitas vezes os diretores de redação tinham mais prestígio que os próprios proprietários.

A partir dos anos 70, principalmente, há um processo de enquadramento das chefias com as próprias famílias assumindo o comando das redações. No Estadão, cai Clóvis Rossi; na Folha, cai Cláudio Abramo; do JB, cai Alberto Dines.

Na Folha, depois da saída de Cláudio Abramo entrou Boris Casoy. Em meados dos anos 80, Otávio Frias Filho assumiu a diretoria de redação, curiosamente condicionando a aceitação à possibilidade de que eu assumisse a Secretaria de Redação. E mal o conhecia. Passei três meses naquele inferno, em meio a um passarinho terrível, que tentei evitar, e pedi demissão.

Parte dessas mudanças deveu-se a restrições da própria ditadura; parte ao fator empresas familiares, o principal empecilho à constituição de grupos midiáticos modernos no país. Se a repressão dos anos 70 e 80 provocou a queda de diretores de redação, a partir dos anos 90 completa-se o ciclo de enquadramento das redações, com a indicação de diretores de redação submissos às determinações das empresas.

Mesmo assim, a mídia garantiu uma pluralidade relativa que se esgotou em 2005, quando Roberto Civita inaugura o jornalismo de esgoto, transformando todos os grandes veículos em uma enorme Fox News.

As cláusulas pétreas da economia

Vamos sair um pouco da lógica comercial das empresas jornalísticas para uma pequena digressão sobre os princípios do jornalismo econômico.

Desde que a economia firmou-se como ciência, desdobrou-se em várias escolas, mas todas elas teoricamente subordinadas a algumas cláusulas pétreas, legitimadoras da ciência. É como a geladeira: pode ter mil badulaques, mas tem que gelar.

Pode haver várias escolas de pensamento econômico, mas o objetivo final é apenas um: promover o desenvolvimento, levando o bem estar a todos os cidadãos, através de instrumentos de coordenação e estímulo da economia, articulados através dos estados nacionais.

O Estado é o agente central de promoção do desenvolvimento e de redução das desigualdades, na condição de gestor de bens públicos..

Para dar conta do recado, são considerados bens públicos:

  • a legislação sobre as riquezas minerais e vegetais do território, através dos tributos e das concessões. O Estado brasileiro começa a se formar a partir do Código das Águas, no início dos anos 30, conferindo poderes ao Estado nacional.
  • A cobrança de tributos sobre a riqueza gerada no território e a gestão dos gastos públicos através do orçamento.
  • A gestão de políticas públicas que reduzam as desigualdades.
  • A regulação do mercado interno.
  • O controle da moeda.
  • A administração do câmbio.
  • É em torno desses temas, desses ativos públicos, que se dá a grande disputa política, na qual as teorias econômicas são apenas instrumentos de luta de dois grupos.

Os desenvolvimentistas acreditam que o Estado tem papel essencial na promoção do bem estar social e do desenvolvimento. Em cima desse princípio são promulgadas leis de amparo ao trabalhador e de combate à desigualdade. Parte dos direitos é bancado pelo setor privado, através dos impostos e da legislação trabalhista.

Os mercadistas acreditam que essa função é do setor privado. A aposta, nesse caso, é que os direitos significam custo e tiram a flexibilidade do setor privado. Com menos encargos, o setor privado teria mais condições de crescer e gerar mais e melhores empregos. Ou seja, retirando direitos dos trabalhadores, o setor privado se desenvolveria mais, retribuindo com mais e melhores empregos.

A experiência mundial nas últimas décadas e a brasileira, no pós-impeachment, os dados históricos comparando períodos de desregulação e de regulação do capital, desmentiram cabalmente a lógica privada.

Independentemente da orientação econômica, as economias necessitam de mecanismos claros de atuação, da definição clara do papel do Estado e do setor privado, independentemente da lógica de sua política econômica.

Capital financeiro e economia real

Uma das grandes manipulações da cobertura econômica é a confusão entre capital financeiro e economia real. A medida da eficiência e da legitimidade do capital é seu papel na ampliação da capacidade produtiva de um país e na geração de empregos.

Muitas vezes, os interesses do capital financeiro são conflitantes com o da economia real.

Em condições saudáveis, o capital financeiro é relevante para irrigar novos setores dinâmicos da economia. Um dos papéis centrais é no chamado capital de risco, é a visão de futuro, de fazer apostas em novos setores dinâmicos, alavancando o empreendedorismo que renova a economia.

O que define o dinamismo do capital de risco é a relação rentabilidade x risco, a perspectiva de uma grande rentabilidade induz a um risco maior.

A financeirização da economia brasileira produziu o pior dos mundos. Em vez de estimular o capital de risco em novos setores, abriu-se espaço para duas atividades de pouco risco e muita rentabilidade: a compra de ativos públicos consolidados e os investimentos em fusões e aquisições. Trata-se da vocação menos produtiva do capital de risco. 

O investimento saudável é nos novos negócios, nos quais empreendedor e investidor apostam nas curvas de crescimento. Empresas já consolidadas já possuem histórico de faturamento e resultados. O risco é mínimo.

Tome-se o caso das refinarias. Alegou-se a necessidade de ampliar a produção das refinarias. Em vez de regular os investimentos em novas refinarias, optou-se por vender refinarias consolidadas – e, portanto, com baixo risco.

O ponto central é que há interesses divergentes entre capital financeiro e capital real.

Há três formas de uma empresa alavancar seu crescimento:

1. Reinversão de lucros.

2. Tomar financiamento de longo prazo.

3. Abrir capital.

No Brasil, desde os anos 50 havia o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) para garantir financiamento de longo prazo a taxa de juros compatíveis com as taxas internacionais. Dado o perfil do mercado de crédito no país, as taxas do BNDES tornaram-se o piso no financiamento de longo prazo.

O empreendedor poderia contar com esse recurso, crescer, ganhar condições de negociar abertura de capital com investidores.

Obviamente, as taxas baixas do BNDES eram favoráveis à economia real, mas desfavoráveis ao capital financeiro. O que se fez? Desde Pérsio Arida começou um processo de elevação de juros do BNDES. De um lado, viabilizou o negócio do mercado – ainda que à custa da economia real. De outro, tornou o empresário cada vez mais dependente do capital financeiro, reduzindo o preço de entrada do capital financeiro na sua empresa.

Voltaremos com mais capítulos dessa série.

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