5 de junho de 2026

O Partido dos Bilionários e o Paradoxo da Democracia, por Luís Nassif

O desafio é reconstruir um pacto social que una justiça econômica e justiça social — sem que uma seja usada para sabotar a outra.

A ascensão de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos não pode ser explicada apenas por variáveis econômicas superficiais, como o aumento da inflação. Em entrevista ao jornalista Luiz Guilherme Gerbelli, do Estadão (“Governo Trump será ‘absolutamente terrível’ para a economia dos EUA, afirma vencedor do Nobel”), o cientista político James Robinson, autor de “Por que as Nações Fracassam”, oferece uma leitura mais profunda: o fenômeno Trump é resultado de uma reação cultural e estrutural à degradação das condições de vida da classe média americana. Este artigo parte dessa análise para explorar o paradoxo da democracia contemporânea, marcada pela concentração de renda, polarização ideológica e manipulação das pautas sociais por um poder econômico invisível — o chamado Partido dos Bilionários.

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A falsa objetividade econômica

Durante o período eleitoral, analistas econômicos apressaram-se em atribuir a queda de popularidade de Joe Biden à inflação. Essa leitura, baseada em planilhas e indicadores, ignora o mal-estar social mais profundo que se alastra entre os cidadãos comuns. Robinson aponta que a ascensão de Trump está ligada à figura do “hommus bobus” — o homem comum, desorientado, que reage emocionalmente à perda de status e oportunidades. A crise não é apenas econômica, mas simbólica: é a sensação de que o mundo está mudando rápido demais, e não necessariamente a favor dele.

O ultraliberalismo e o empobrecimento da classe média

A financeirização da economia americana, impulsionada por políticas ultraliberais, aprofundou a concentração de renda e empobreceu a classe média. A promessa de prosperidade foi substituída por empregos precários, insegurança habitacional e endividamento crônico. Esse processo não apenas deteriora as condições materiais de vida, como também mina a confiança nas instituições democráticas. O cidadão comum, sem acesso a oportunidades reais, vê sua frustração crescer — e busca culpados.

As pautas humanistas como bode expiatório

Em vez de direcionar sua indignação à elite financeira que concentra riqueza e poder, parte da população volta-se contra as minorias beneficiadas por políticas compensatórias. Direitos LGBTQIA+, igualdade de gênero, justiça climática — conquistas civilizatórias passam a ser vistas como privilégios indevidos. Essa inversão de causalidade é perigosa: o que deveria ser entendido como reparação histórica é tratado como ameaça à ordem social. A pauta progressista vira alvo, não por seus méritos, mas por sua instrumentalização política.

O Partido dos Bilionários

A ideia de que os Estados Unidos são governados por um único partido — o Partido dos Bilionários — dividido entre Democratas e Republicanos, ajuda a entender a lógica por trás da polarização. Ambos os lados servem aos interesses do capital, mas com estratégias distintas:

• Os Democratas apostam em ONGs, influenciadores e redes sociais para promover pautas progressistas e manter a aparência de inclusão sem questionamentos ao modelo econômico..

• Os Republicanos recorrem à desinformação, à ultra-direita, à NRA e a grupos conservadores para canalizar o ressentimento social.

A eleição de Barack Obama marcou o início da politização das redes sociais. Desde então, ambos os partidos passaram a disputar corações e mentes no ambiente digital, com algoritmos e narrativas cuidadosamente construídas.

As “Primaveras” e a geopolítica da desestabilização

A influência política das redes sociais não se limitou ao território americano. Movimentos como as “Primaveras Árabes” e iniciativas como Viva Rio e Vem Pra Rua no Brasil foram impulsionados por interesses geopolíticos disfarçados de ativismo democrático. 

Em um caso, a retórica da ampliação de direitos foi usada como ferramenta de desestabilização de regimes e governos. A democracia, nesse contexto, torna-se um instrumento de poder, não um fim em si mesma.

Em outro, os direitos passaram a ser utilizados como álibi para o investimento político da direita na política do ressentimento.

O paradoxo da democracia contemporânea

Vivemos um paradoxo: enquanto a democracia é celebrada como valor universal, ela é corroída por dentro por interesses econômicos que moldam o debate público. 

A vertente “progressista” do Partido dos Bilionários estimula pautas identitárias sem enfrentar as causas estruturais da desigualdade. Já a vertente conservadora manipula o ressentimento popular para atacar essas mesmas pautas. O resultado é uma sociedade polarizada, onde o verdadeiro inimigo — a concentração de renda e poder — permanece intocado.

Por outro lado, os próprios setores progressistas se dividem, responsabilizando a cultura “woke” pelo aumento da direita.

O grau de ignorância institucionalizada é tão grande que, hoje em dia, ministros do Supremo, verdadeiros baluartes da democracia, são os mesmos que investiram no desmonte de pautas sociais, sem a menor consciência sobre seus efeitos na radicalização do país.

Conclusão

A crise da democracia não se resolve com mais polarização, nem com a superficialidade das análises econômicas. É preciso reconectar o debate político às causas reais da degradação social: a financeirização da economia, a precarização do trabalho, a captura das instituições pelo capital. Ao mesmo tempo, é necessário defender os avanços civilizatórios sem cair na armadilha da instrumentalização. O desafio é reconstruir um pacto social que una justiça econômica e justiça social — sem que uma seja usada para sabotar a outra.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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4 Comentários
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  1. Marcio Aith

    21 de setembro de 2025 2:52 pm

    Nassif, os EUA chegaram tarde ao movimento que usou o empobrecimento de uma classe média como elemento propulsor. Antes de Trump, a Inglaterra teve Brexit, embalado por velhinhos aterrorizados com a ideia de que imigrantes lhes roubariam os leitos do NHS. A Áustria quase elegeu um presidente vindo de um partido fundado por ex-nazistas. A Itália ressuscitou Meloni, herdeira direta do fascismo. A Hungria de Orbán montou uma “democracia iliberal”, e a Polônia do PiS caminhou no mesmo sentido. A França levou Marine Le Pen ao segundo turno duas vezes, normalizando o discurso da extrema-direita. A Alemanha viu o AfD crescer sobre ruínas históricas. A Suécia colocou um partido de origem neonazista como segunda força. A Suíça proibiu minaretes em plebiscito, e o Chile derrotou uma Constituição progressista surfando em ressentimento nacionalista e xenofobia contra venezuelanos. A Turquia, por sua vez, concentrou poderes nas mãos de Erdogan sob a bandeira de um nacionalismo paranoico. E o Brasil, claro, foi pioneiro em transformar Deus e a defesa de armas em combustível eleitoral para Bolsonaro. Trump, no fim das contas, só embalou num pacote americano um produto que já estava em liquidação no resto do mundo.

  2. Jose de Almeida Bispo

    21 de setembro de 2025 9:48 pm

    Os radialistas tinham por hábito iniciarem os programas xingando o Presidente; mantinham-se fazendo o mesmo; e, em geral, terminavam descendo o sarrafo, desrespeitosamente. Acostumados a serem implorados pelos partidários do Presidente, em alguma daquelas entrevistas que tendem a sair chamuscado. E eis que o Presidente vem à cidade, lançar a pedra fundamental de uma extensão universitária, federal, obviamente. Mas o cicerone do presidente não foi um seu partidário; foi uma prefeita, sucessora de seu pai, coroné clássico, que mesmo já dividindo a influência com outro, ainda comandava vasta região, além do próprio município. Quando os dois helicópteros (o presidencial e o de apoio) sobrevoou a cidade, os sobreditos radialistas calaram. E só retornariam a matilha de cães espumantes em 2013. Em primeiro: ninguém respeita a quem não se dá ao respeito; segundo, O POVO SÓ ACREDITA EM QUEM MERECE SUA CONFIANÇA. Os políticos se apequenaram. Rastejaram. E o povo só respeita quem realmente é lider. Na falta de um lider de verdade, vai qualquer porcaria que prometa sê-lo. Até que a casa, e até o quarteirão inteiro caia.

  3. fabricio coyote

    22 de setembro de 2025 6:26 am

    Marx já vislumbrara isso: a democracia é burguesa. À teoria crítica, soma se a tese 5.6 do Tractatus Logico-Philosophicus: os limites de minha linguagem significam os limites de meu Mundo. Habermas vaticinara essa onda de extrema direita in: https://editoraunesp.com.br/catalogo/9788539305520,a-nova-obscuridade e https://cemap-interludium.org.br/wp-content/uploads/Habermas-nova-intranspar%C3%AAncia.pdf

    mais as inúmeras “faculdades” patrocinadas pelo Estado petista com a mídia ridicularizando os trabalhadores como apedeutas, criminosos, etc.

    o produto é essa bomba de extrema direira prestes a explodir, com passeatas democratas e tudo.

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