‘Temos que virar a página, houve excesso dos dois lados’, diz embaixador brasileiro na França

Ao mesmo tempo, chanceler exagera número de ONGs na Amazônia, errando os dados e sugerindo que organizações são instrumentalizadas por interesses de terceiros

Jornal GGN – “Houve excessos verbais, de parte a parte. Quem começou foram os franceses, porque chamaram o nosso presidente de mentiroso”, avaliou em entrevista à Folha de S.Paulo o embaixador do Brasil na França, Luís Fernando Serra.

Ele foi lembrado pela reportagem, logo em seguida, que às vésperas da declaração do presidente da França, Emmanuel Macron, de que Bolsonaro mentiu sobre garantir a proteção do meio ambiente ao assumir os compromissos na cúpula do G20, o presidente brasileiro disse que o francês tinha “mentalidade colonialista”.

“Mas é evidente. Isso me lembra a Conferência de Berlim de 1884, em que europeus decidiram o futuro da África sem chamar os africanos”, rebateu o embaixador do Brasil.

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“Dentro das fronteiras, aquilo que é nosso pedaço da Amazônia é brasileiro, ponto final. Vai propor a internacionalização da Sibéria para o Putin… ora! Isso é um papo que não pode prosperar, entende?”, continuou o diplomata.

A crise retórica entre os dois países começou por causa da gestão dos incêndios na Amazônia. Às vésperas do encontro do G7, cúpula dos países mais industrializados do mundo, Macron afirmou que a queimada da floresta era uma questão de “crise internacional” e pediu para que o tema fosse debatido na agenda do G7.

Após a manifestação do francês, se seguiram uma série de críticas, algumas bastante ofensivas de ministros brasileiros e do próprio presidente Bolsonaro. A de maior repercussão foi quando Bolsonaro endossou, no domingo (25), um comentário ofensivo a primeira-dama da França, Brigitte Macron.

Em uma entrevista para uma TV francesa, nesta segunda-feira (26), o embaixador brasileiro na França descreveu a mulher de Macron como “muito bonita, inteligente, elegante e charmosa” e disse ainda que “houve excessos de parte a parte”, de representantes dos dois países.

Na entrevista à Folha, Serra disse que é preciso “virar a página e continuar na construção da parceria estratégica” e “aprofundar todos os lados da cooperação” entre os dois países.

“Ela [a relação com a França] é a mais completa que o Brasil pode ter com um país europeu, porque, além de cobrir todos os aspectos do relacionamento bilateral, inclui o fronteiriço [na Guiana, território francês] e o elo sentimental. Não tem nenhum país na Europa, nem mesmo Portugal, que tenha todos esses lados”, observou.

Por outro lado, ele manteve sua defesa a certos pontos de vista gestados no governo Bolsonaro. Ao ser questionado sobre às críticas do Palácio do Planalto à ajuda internacional, se o governo brasileiro entende a manifestação de apoio de outros países “necessariamente” como “ingerência”, respondeu:

“Não. O que significa ingerência é decidir o futuro da Amazônia sem o Brasil. Todos os mecanismos de ajuda à Amazônia [até hoje] foram negociados com o Brasil presente à mesa. Essa história de o G7 se reunir sem o Brasil e decidir que o Brasil é uma questão internacional não é aceitável, de forma alguma”, disse.

“A parte da Amazônia que está dentro das nossas fronteiras é brasileira, não tem relativização de soberania nenhuma [possível]. Estamos de brincadeira? Estão pensando que o Brasil é o quê?”, questionou.

“E tem mais. Não vi um jornalista falar, em 2005, dos incêndios que houve na Amazônia. Em 2015, alguém disse que os incêndios na Califórnia eram culpa do [ex-presidente dos EUA Barack] Obama? Porra”.

Em seguida, o chanceler sugeriu que as organizações não-governamentais (ONGs) são instrumentalizadas por interesses internacionais.

“Todo mundo se virou contra o Bolsonaro, sempre arrumando pretexto porque ele falou das ONGs [apontou-as como responsáveis pelo aumento das queimadas]”, pontuou.

“Dá para desconfiar que tem uma agenda escondida quando você vê 300 ONGs na Amazônia e zero no Nordeste. Uma de duas: ou há agenda escondida ou preconceito com os nordestinos. Escolham uma”, prosseguiu.

“Por que 55 milhões de nordestinos não mereceram uma ONG, e os 25 milhões que moram na Amazônia mereceram 300? Ora, todo mundo sabe que tem índio que fala holandês, norueguês e sueco, mas não fala português. Tá me entendendo?”.

A reportagem da Folha procurou dados do Mapa das OSCs (Organizações da Sociedade Civil), realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) a fim de apurar o que o embaixador disse. O resultado é que o chanceler não usou dados corretos. O levantamento mostra que existem 205.182 organizações que atuam no Nordeste brasileiro, nas mais diferentes áreas. Já nos nove estados que compreendem a floresta amazônica no país existem 105.851 entidades.

A ser questionado como fica a tradicional imagem da diplomacia brasileira de comedimento e pacifismo, após as manifestações recentes, o chanceler respondeu que isso não irá mudar, apontando que o Brasil incomoda por causa da “agricultura muito competitiva”.

“O Brasil continua sendo incontornável. Isso não muda. Temos a quinta população do mundo [na verdade, a sexta] e a quinta superfície. Somos número 1 em diversos produtos agrícolas. Na base de todo esse problema está o fato de que nossa agricultura é muito competitiva. Isso incomoda”.

*Clique aqui para ler a entrevista na íntegra.

 

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