A violência genocida de Benjamin Netanyahu contra Gaza acabou obscurecendo uma das implicações mais graves do atentado terrorista do Hamas, em 7 de outubro de 2023. O ataque atingiu exatamente os grupos pacifistas israelenses de esquerda que viviam em kibutzim nas imediações da fronteira com Gaza.
Os principais alvos foram comunidades do chamado “envelope de Gaza”: Be’eri, Nir Oz e Kfar Aza.
Entre as vítimas estava Vivian Silver, ativista canadense-israelense de 74 anos, amplamente reconhecida por sua dedicação à construção da paz entre israelenses e palestinos e defensora da solução de dois Estados. Vivian morava no kibutz Be’eri, uma comunidade agrícola coletiva no sul de Israel, próxima à fronteira com Gaza, fundada em 1946 por movimentos juvenis sionistas imbuídos de fortes ideais socialistas e igualitários.
Be’eri representava a face mais legítima do sionismo — aquela que chegou a atrair jovens judeus brasileiros idealistas, muitos dos quais retornaram ao Brasil ao constatar o predomínio da vertente autoritária do movimento.
O kibutz era conhecido por sua posição política de esquerda e por uma postura ativamente pacifista, desempenhando um papel vital como “ponte humana” entre os dois povos. Não se tratava de coexistência apenas retórica: a comunidade mantinha programas concretos de trabalho conjunto, empregando palestinos de Gaza em seus campos agrícolas e em sua gráfica, cultivando relações pessoais e reduzindo tensões locais. Moradores e lideranças apoiavam publicamente organizações como o “Combatants for Peace”, participando de encontros bilaterais e marchas conjuntas contra a violência.
No dia 7 de outubro de 2023, militantes do Hamas invadiram Be’eri e cometeram um massacre brutal. Mais de cem moradores foram assassinados e cerca de trinta foram sequestrados. Vivian Silver foi morta dentro de sua própria casa. Também foi assassinado Hayim Katsman, acadêmico e ativista que defendia abertamente os direitos palestinos.
Outras comunidades do envelope de Gaza — Nir Oz e Kfar Aza — sofreram baixas igualmente massivas. Ironicamente, eram exatamente essas áreas, redutos históricos da esquerda israelense, que concentravam o maior histórico de cooperação e contato humano com Gaza. O colapso dessas comunidades significou o desmonte da própria base social do pacifismo em Israel.
Na outra ponta, os ataques israelenses a Gaza eliminaram diversas lideranças pacifistas palestinas. Dos dois lados, foram destruídas as pontes que poderiam, em algum momento futuro, sustentar a paz.
Movimentos que mantinham o tecido conectivo entre os dois povos — como o Parents Circle–Families Forum, o Standing Together e vários grupos médicos e humanitários conjuntos — foram igualmente desestruturados. Muitos de seus membros morreram ou foram forçados ao deslocamento, resultando na suspensão ou redução severa de suas atividades.
A reconstrução das pontes
Apesar da destruição sistemática dessas pontes, novas vozes de resistência emergiram, unidas pela urgência de cessar a violência.
Reem Al-Hajajreh, líder da organização palestina Women of the Sun, e a Dra. Yael Admi, líder do movimento israelense Women Wage Peace, têm encabeçado a iniciativa global “Mothers’ Call for Peace” (Apelo das Mães pela Paz). Em março de 2026, representando milhares de mulheres de ambos os lados, elas lideraram marchas descalças pela Europa e se encontraram com o Papa Leão XIV para exigir um cessar-fogo imediato e a inclusão de mulheres nas mesas de negociação de paz.
Em 25 de março de 2026, a Dra. Yael Admi e a delegação de mães foram recebidas no Vaticano pelo Papa Leão XIV, onde apresentaram pessoalmente seus apelos pelo fim do conflito israelo-palestino. O objetivo imediato é levar ao chefe da Igreja Católica a voz conjunta de mães israelenses e palestinas, garantindo que o Papa ouça diretamente as exigências por um cessar-fogo, pelo fim da violência e pela participação ativa de mulheres nas negociações, em conformidade com a Resolução 1325 da ONU.
A recepção no Vaticano e a marcha descalça pelas ruas de Roma marcam o início de uma série global de “Barefoot Walks” — caminhadas previstas para ocorrer em diversas cidades, alinhadas a grandes cúpulas de decisão global como as do G7, com o apoio da ONG Vital Voices.
O encontro atual inova em relação a iniciativas anteriores: ao contrário das audiências realizadas com o Papa Francisco entre 2023 e 2024 — que recebiam separadamente familiares de reféns e vítimas de Gaza, com foco predominantemente humanitário —, desta vez uma delegação mista e unida de mães ativistas apresenta ao Vaticano uma agenda política resolutiva e comum.
Lições
Duas lições precisam ser extraídas desses episódios.
A primeira é uma definição mais clara do antissemitismo.
Trata-se de um sentimento que existe de fato, mas é utilizado oportunisticamente por setores da comunidade judaica. Eu mesmo fui alvo de uma campanha de cancelamento manipulada por Milton Seligman, lobista da Ambev, provavelmente irritado com as denúncias que fiz de seu cappo, Jorge Paulo Lehmann. Tenho a impressão que setores mais racionais da comunidade já se deram conta dos males que esse oportunismo causou. É utilizar um tema central para objetivos pessoais.
A segunda é admitir que, por trás das críticas legítimas contra o genocídio de Gaza, emergiu um antissemitismo histórico.
O ponto central é separar, conceitualmente, o antissemitismo das críticas legítimas contra o genocídio de Gaza. Do lado da Conib e das lideranças judaicas, parar de enquadrar críticas legítimas do genocídio como antissemitismo. Do lado dos críticos, não utilizar o genocídio para generalizações racistas e para estereótipos conspiratórios.
O problema maior é que, por cima das tentativas de paz de ambos os lados, paira a sombra monstruosa de Netanyahu e dos propósitos expansionistas genocidas de Israel.
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Avel Alencar
26 de março de 2026 9:26 amMilton Seligman é ou era, sei lá, metido a comunista.