HumanizaCom e Semio Humanitas repudiam fala sexista do deputado Arthur do Val, do Podemos

Na empreitada de violar a dignidade das mulheres ucranianas, o deputado agrediu todas as mulheres, sobretudo as que enfrentam os impactos e os desdobramentos das guerras e conflitos.

Reprodução vídeo

São Paulo, 5 de março de 2022.

Nota de repúdio

            Como pesquisadoras e pesquisadores dos grupos de pesquisa Jornalismo Humanitário e Media Interventions e Semiótica Humanitária – Semio Humanitas, como profissionais do jornalismo e de outros campos da comunicação, como cidadãs e cidadãos atentos e sensíveis às questões humanitárias, como brasileiras e brasileiros que respeitam o histórico papel de nosso país na concepção e fortalecimento de protocolos, leis e outros instrumentos nacionais e internacionais para a garantia dos direitos humanos de todos os povos, sentimo-nos no dever e no compromisso ético de manifestar publicamente a nossa indignação e repúdio à fala sexista, intensamente violenta, do deputado estadual de São Paulo, Arthur do Val (Podemos), conhecido como Mamãe Falei. 

            Sem a pretensão de esgotarmos nesta nota a discussão sobre a gravidade desse fato, tampouco de apelarmos para lacrações ou cancelamentos que hoje têm moldado a dinâmica das mídias sociais, gostaríamos de focar em alguns pontos.

            Em 2016, no quinto aniversário da guerra da Síria, a ONU realizou em Istambul a Primeira Cúpula Mundial Humanitária. Os alicerces da Cúpula foram traduzidos em uma Agenda para a Humanidade, cuja essência está representada em cinco responsabilidades cruciais (Core Responsabilities): (1) Prevenir e pôr fim a conflitos; (2) Respeitar regras de guerra; (3) Não deixar ninguém para trás; (4) Trabalhar de diferentes formas para eliminar carências; e (5) Investir na Humanidade.

            A atitude de Arthur do Val transgrediu todas essas responsabilidades e amplificou, sobremaneira, o ultraje da guerra. Na empreitada de violar a dignidade das mulheres ucranianas, o deputado agrediu todas as mulheres, sobretudo as que enfrentam os impactos e os desdobramentos das guerras e conflitos.

            A violência sexual, ao lado das armas químicas, para ficarmos apenas em um exemplo, é uma das mais perturbadoras violações das regras de guerra. Sim, há regras até para as guerras e isso está presente na Agenda para a Humanidade e em tantos documentos que regulamentam os crimes de guerra – resultado dos avanços no campo do Direito Internacional.

            Seja no cotidiano dos conflitos armados ou fora deles, a violência sexual, em todos os níveis, é um desenho da brutalidade primitiva da humanidade.

            Não obstante, Arthur do Val e Renan Santos (MBL), seu companheiro de viagem, fizeram do sofrimento humano uma moeda de troca, um palanque político. E se de fato quisessem ajudar o povo ucraniano, poderiam ter recorrido às organizações humanitárias, como Médicos sem Fronteiras e Cruz Vermelha, que historicamente atuam de forma séria, independente e responsável em cenários onde não há espaço para barganhas e revanches políticas, lacrações e marketing pessoal.

            Onde há sofrimento humano, há a urgência de uma bússola moral capaz de impedir a sua amplificação.

            Nossa solidariedade às mulheres ucranianas. Solidariedade que estendemos a todas as mulheres e meninas expostas à violência física e moral, dentro e fora das guerras.

            Que as instituições competentes tomem as devidas providências. Não se trata de punição, tampouco de cancelamento. Trata-se de justiça – na acepção que mais a aproxima dos direitos humanos.

Grupos de pesquisa

HumanizaCom – Jornalismo Humanitário e Media Interventions

Semio Humanitas – Semiótica Humanitária

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