20 de junho de 2026

A história do “eu te amo, meu Brasil”, por Luis Nassif

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A dupla Dom e Ravel surgiu no início dos anos 70 com uma música fácil, em um gênero que poderia ser rotulado de marchinha pop. Junto com eles, apareceu um argentino, acho que de nome Santos Dumont, ou nome parecido, com uma música, a Monalisa, do mesmo gênero.  Era um estilo bem agradável, uma modernização das marchinhas. Houve o período das marchinhas bossa-novas dos festivais internacionais da canção e, por curto espaço de tempo, as marchinhas pop. Coloquei a dupla no meu radar de repórter musical iniciante, por identificar seu valor musical.

Mas a dupla explodiu mesmo é com o “eu te amo, meu Brasil”. Logo em seguida compuseram o hino do Mobral e caminhavam para se tornar os compositores oficiais do governo militar.

Repórter da Veja, fui incumbido pelo redator de música, o grande Tarik de Souza, de entrevistar o duo. Eles moravam em um apartamento na rua Tabatinguera, no mesmo prédio do meu amigo Zé Grandão. Ficava a uma quadra da baixada do Glicério.

A entrevista foi curiosa. O mais baixo, Ravel, era o mais esperto. O grandão, Dom, deslumbrado e mandão.

Comecei perguntando como fabricavam suas músicas. Ravel logo tratou de explicar que não se tratava de “fabricar”, mas apenas inspiração. Foi interrompido por Dom.

– Fabricamos sim, é tudo planejado. Estudamos o comportamento do público e planejamos músicas de meio de ano, músicas de carnaval e, agora, as músicas patrióticas.

Ravel ouvia com claro ar de desgosto, mas não ousava rebater o irmão, que estava a mil por hora.

– Nossa próxima música será para uma campanha visando convencer todo jovem a usar fitas verde-amarelas, em vez de blusões com nomes de universidades americanas, o que é um absurdo.

Comentei que sua irmã, que estava na sala assistindo a entrevista, usava um blusão da Columbia University. Dom nem piscou:

– É a prova maior dessa influência americana. Até nossa irmã!

A entrevista prosseguiu, com eles falando dos velhinhos cearenses amparados por eles. Até que chegou a pergunta fatal:

– Tem um pessoal falando em substituir o Hino Nacional Brasileiro pela música de vocês. O que acham da proposta?

Ravel balbuciou um “o que é isso?”, mas Dom avançou:

– Concordamos! O Hino Nacional é coisa de velho. Mas, antes, queremos beber na teta da vaca, os direitos autorais. Se for para virar Hino e não recebermos mais direito autoral, não aceitaremos.

No dia seguinte escrevi a reportagem e deixei com o Tarik. Saiu publicada na edição seguinte, com a indagação do Mino Carta, sobre porque não havia subido para as Páginas Amarelas, o local nobre de entrevistas.

Antes do meio dia da segunda-feira , o empresário da dupla me ligou em pânico:

– Por que você publicou a história do Hino Nacional?

– Uai, porque perguntei e eles responderam.

A entrevista havia sido gravada, não havia maneiras de refutá-la. O empresário esboçou algumas ressalvas:

– Mas por que você não publicou que eles amparam velhinhos do Ceará?

Expliquei que passei a entrevista completa para a editoria e, por questão de espaço, a decisão do que entrava ou não era dos editores.

Naquela segunda-feira havia uma entrevista marcada entre o Ministro da Educação Jarbas Passarinho e a dupla, para acertar outros hinos para o regime. Passarinho cancelou e nunca mais remarcou.

O episódio comprovou que, na maioria dos casos , o patriotismo é o último refúgio dos negocistas.

 

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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16 Comentários
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  1. Romanelli

    8 de novembro de 2018 1:26 pm

    BOM  ..de patriotismo o

    BOM  ..de patriotismo o VAGABUNDO do Dono Da HAVAN  ..que esfrega na cara de todo brasileiro a porcaria da estatua americana em quase toda loja  ..disso este MACACO XENOFILA não vai padecer

    A turma do BOZOsauro muito menos, já que pretendem destruir as poucas amalgamas que nos dão orgulho e liga, fora território, hino e bandeira – já que moeda e cultura aqui ninguém leva a sério – tipo BB, Caixa, CORREIOS, BNDES e Petrobrás

    já Senor Abravel  ..bem, esse “patriot” tb ta morando na Florida faz mais de década 

    logo, tamo mal dessa mercadoria né mesmo ?

    https://www.youtube.com/watch?v=FAVVz-7a1Lg

  2. Maria Luisa

    8 de novembro de 2018 1:29 pm

    A megalomania ja começa na escolha no nome da dupla

    O Temer fez o Brasil regressar ao fim dos anos 90, com Bolsonaro voltamos aos anos de ditadura. Muitos falavam dos perigos e que tais, mas à essa escalada terrivel que vivemos dia apos dia…

    1. antonio francisco

      8 de novembro de 2018 4:01 pm

      Ravel foi apelido dado pelo professor de música

      Diz a Wikipedia que ainda criança, Eduardo obteve o apelido de Ravel dado por um professor de música devido a sua aptidão para a arte.

  3. Antonio - Bahia

    8 de novembro de 2018 2:07 pm

    “eu vejo

    um museu de grandes novidades” (Cazuza). Post atualíssimo!

  4. CB

    8 de novembro de 2018 2:23 pm

    Os dois aí tinham noção de

    Os dois aí tinham noção de que não se deve tar tiro no pé para não prejudicar os negócios. Em conversas por aí, vejo que tem empresários pequenos, médios, empreendedores ou micro empresários que se viram como podem que não conseguem perceber o tamanho do tiro no pé que dispararam. Até eu que sou de humanas sei que o gera demanda no comércio/serviços e que acaba gerando aumento de produção da indústria é o consumo. Vai enfiar na cabeça desta gente que o consumo não aumenta com a queda do poder aquisitivo ou insegurança sobre o futuro profissional e financeiro do trabalhador, vai enfiar na cabeça desta gente que o que gera emprego é a necessidade de aumentar a produção ou atendimento ao consumidor… Estão fazendo o jogo do rentismo e do parasitismo achando que vão ganhar alguma coisa. Bem feito para os que quebrarem!

  5. Jair Fonseca

    8 de novembro de 2018 3:33 pm

    Acabaram mesmo perdendo

    Acabaram mesmo perdendo espaço e foram até censurados. Esta aqui, por exemplo: 

    https://www.youtube.com/watch?v=-v6qIAfxKL0

     

  6. Jair Fonseca

    8 de novembro de 2018 3:35 pm

    Depois, fizeram canção pela

    Depois, fizeram canção pela reforma agrária: https://www.youtube.com/watch?v=Ufi80fJtDbA

  7. antonio francisco

    8 de novembro de 2018 3:51 pm

    O tal Santos Dumont da Monalisa é mesmo misterioso, dizem.

    Diz lá no youtube que o parceiro do (uruguaio / argentino?) Santos Dumont era Paulo Imperial, irmão de Carlos Imperial.

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=-BOc-FFss9A%5D

  8. antonio francisco

    8 de novembro de 2018 3:58 pm

    Ambos já faleceram. A história desses cearenses é interessante

    https://pt.wikipedia.org/wiki/Dom_%26_Ravel

    (um trecho do texto na Wikipedia)

    Nos anos 1970, a dupla atingiu grande sucesso com a canção “Eu te amo meu Brasil”, gravada pelo conjunto Os Incríveis. Outros sucessos da dupla foram: “Animais irracionais”, “Só o amor constrói” e “Obrigado ao homem do campo”. A ligação dessas canções, que na época levaram-nos ao sucesso, com a ditadura militar, levou a dupla ao ostracismo posterior.[2]

    Dom, com nome de batismo Eustáquio Gomes de Farias, faleceu em 10 de dezembro de 2000, em decorrência de um câncer de estômago.[3]

    Ravel, com nome de batismo Eduardo Gomes de Faria, faleceu em 16 de junho de 2011, de um ataque cardíaco.[4]

    1. ELIANE

      13 de setembro de 2025 3:12 pm

      Mas as músicas deles eram muito boas e fizeram muito sucesso e tinha também Carimbó da Mulher alheia essa parece que é só o Dom. Foram as épocas de melhores músicas no Brasil anos 60,70,80,90 juntamente com canções italianas, americanas, inglesas, espanholas e hoje em dia os cantores pop não gravam mais, só ficou o passado.

  9. Flics

    8 de novembro de 2018 11:59 pm

    No carnaval agentes iam aos

    No carnaval agentes iam aos bailes para “incentivar” as orquestas a tocar a tal marchinha do eutiamomeubrazil… Um deles, que eu lembro, em Porto Alegre era uma tal de Pujol… depois eleito vereador, deputado ou coisa assim… fez carreira…adivinha? sim pela arena.

  10. AMORAIZA

    9 de novembro de 2018 6:12 pm

    Gostei

    Ainda que eivadas de más intenções da ditadura , falso patriotismo e apelação popular, amo ouvir Dom e Ravel cantando a cancão do mobral – (Voce também é responsável)  e Animais.

    Pela música, simplesmente e também a boa letra.

    Detesto o “Eu te amo meu Brasil”.

    E justiça se faça – Mobral, Madureza, entre outras coisas foram alguns dos atos  aproveitável da ditadura

    [video:https://youtu.be/uMYbxubO9Fo%5D

    [video:https://youtu.be/pE6pOoadwJg%5D

     

     

    1. ChoraNão

      11 de novembro de 2018 7:14 am

      Afffff, kkkkkkÉ o cúmulo da

      Afffff, kkkkkk

      É o cúmulo da ficção….

  11. Lucio da Costa Figueiredo

    8 de setembro de 2020 1:40 am

    Música de ufanismo injustificável, composta por uma dupla – Dom e Ravel – que servia aos interesses dos militares, na década de 70, no período mais violento da maldita ditadura militar no Brasil. E ainda, à época, se cogitou em substituir o Hino Nacional Brasileiro por está excrescência musical.
    Não há nada do que se orgulhar por isso!!!

    1. ELIANE

      13 de setembro de 2025 3:31 pm

      De todo jeito é uma bela música, agente simplesmente curtia como todas as músicas lindas da época. Os Incríveis também fez uma bela homenagem a Israel com a canção “Israel”. Nem todos os cantores arrumaram encrencas com os militares. Agente que morava no interior não via nada, a vida era tranquila.

  12. Ademar Amâncio

    13 de fevereiro de 2024 12:22 pm

    Boa a história.

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