O Efeito Milei na campanha brasileira e a crise diplomática decorrente
por Bruno Lima Rocha
A Argentina é o terceiro maior parceiro comercial do Brasil (individual), e é o quarto maior se contarmos com a União Europeia. Já o Brasil é o maior comprador de produtos manufaturados e industrias do vizinho Hermano. São os dois pilares do Mercosul e deveriam ter relações de Estado, buscando o desenvolvimento mútuo além da soberania e estabilidade política em toda a América Latina e Caribe, com ênfase na América do Sul e do chamado Cone Sul.
Ao que parece, o titular da Casa Rosada, o economista com sérios problemas de equilíbrio emocional e operador de luxo de empresários como Eduardo Elsztain e fundos como Blackrock, se dedica a estabelecer as condições opostas. Para Javier Milei, que além de “peculiar” é um indivíduo perigoso e com a mesma estatura moral de Donald J. Trump, Marco Rubio e outros elementos de duvidosa conduta da extrema-direita, cada momento é a oportunidade para “mostrar serviço” ao titular da Casa Branca e o secretário de Estado de orientação “gusana”.
Milei como cabo eleitoral do neofascismo brasileiro foi um desastre e segue sendo. No sábado 25 de julho, em São Paulo, o presidente da Argentina ofendeu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva com, entre outros termos, “presidiário”. Além disso, chamou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, relator da trama golpista, de “lixo careca”.
O vice-presidente da República Federativa do Brasil, Geraldo Alckmin, afirmou que a presença e a performance de Javier Milei na Convenção de Flávio Bolsonaro, lançando o senador pelo estado do Rio de Janeiro e filho mais velho de Jair Bolsonaro, foi um desserviço para a Argentina.
“É lamentável que o presidente de um país vizinho amigo, que compõe até o Mercosul, preste um desserviço ao seu país. Porque vem ao Brasil, numa [época de] eleição, [e] não deve presidente se envolver em eleição de outro país”, disse o vice-presidente.
O chanceler brasileiro, Mauro Vieira, convocou, no domingo (26/12), o embaixador da Argentina no país, Daniel Raimondi, e transmitiu ao diplomata estrangeiro a repulsa do governo brasileiro à fala do presidente argentino.
Posteriormente o chanceler argentino Pablo Quirno (um dos vários a ocupar este cargo ao logno do caótico governo Milei), em entrevista à Rádio Mitre da Argentina, reiterou apoio de Milei à família Bolsonaro e disse que seu governo vê o mundo “de maneira diferente” do governo Lula.
“Acredito que precisamos situar este episódio mais recente no contexto de uma série de incidentes ocorridos entre o Brasil e a Argentina, decorrentes das diferenças políticas e ideológicas existentes — especificamente entre o presidente Milei e o presidente Lula. Enxergamos o mundo de maneiras completamente diferentes. O presidente participou de um ato partidário, evidentemente apoia a família Bolsonaro no Brasil”, declarou Quirno.
O mesmo chanceler afirma que ““Não há nenhuma chance de que, do nosso lado, a relação se rompa. Nós não levamos isso ao plano institucional. Temos que enquadrar este último episódio em uma série de outros fatos que vêm ocorrendo entre os países por uma série de diferenças políticas e ideológicas”, declarou o ministro.
Um dos efeitos diretos na opinião pública e nos meios de comunicação do Brasil foi se debruçar na péssima situação econômica do país vizinho. A Agência Brasil de Comunicação, veículo público diretamente subordinado à Empresa Brasil de Comunicação e ao governo federal, deu capa para uma matéria muito dura a respeito das consequências da política econômica de Milei.
Com o título “Quase metade dos jovens argentinos vive em vulnerabilidade social: pesquisa da UBA aponta desemprego, informalidade e sofrimento mental” a nota materializa uma sociedade à imagem e semelhança do estado mental e sociopata do presidente argentino inventado pela Corporación América (controlada pela família Eurnekian). Vejamos a distopia que combina ultraliberalismo com neofascismo e subordinação colonial.
Quase a metade (48,9%) dos jovens da Argentina vivem em situação de vulnerabilidade social, afirma pesquisa da Universidade de Buenos Aires (UBA) divulgada nesta semana. Isso representa 4,1 milhões de pessoas.
Dos jovens vulneráveis, 57% afirmam que o dinheiro fruto do trabalho não chega ao final do mês e apenas 24,8% continuam estudando. Ainda segundo o levantamento, dois em cada dez jovens argentinos não estudam, nem trabalham, enquanto 30% estão desempregados.
Além do desemprego, depressão e uso de álcool e outras drogas estão entre os fatores que prejudicam a juventude do país vizinho. Aproximadamente 30% reconhecem que não conseguem controlar o próprio consumo de álcool, cigarro ou outras drogas.
A pesquisa da Universidade de Buenos Aires aponta que, entre os jovens que trabalham, apenas 15% têm emprego registrado, com 76% em trabalhos informais ou por conta própria. Entre os que trabalham, a maioria (56,1%) não estuda mais. Do total da população jovem argentina, 32% não estudam, não trabalham, nem buscam trabalho.
Além disso, a pesquisa aponta que 78% dos jovens não têm plano de saúde, dependendo exclusivamente dos serviços públicos e 40% afirmam viver em bairros “inseguros ou muito inseguros”.
A situação de vulnerabilidade social se reflete na saúde mental dos jovens argentinos. Mais de 70% manifestaram ter “problemas frequentes” de nervos ou ansiedade. E mais de 50% disseram sentir apatia ou depressão.
Não por acaso que na segunda-feira 27 de julho o ministro da Fazenda, Dario Durigan, chamou o presidente da Argentina, Javier Milei, de “palhaço” nesta segunda-feira, 27, ao rebater críticas feitas pelo argentino à economia brasileira. A declaração foi dada em entrevista à Rádio Jornal, de Pernambuco.
“O palhaço do presidente da Argentina veio ao Brasil ontem e falou de Brasil, quando o risco-país da Argentina é muito mais alto, a dívida pública é muito mais alta, a inflação lá é muito mais alta”, afirmou Durigan. O ministro também citou o baixo nível de desemprego, a inflação controlada, os resultados da balança comercial e a produção agrícola do Brasil. “Não dá para entrar na onda dessas pessoas que dizem que vai virar apocalipse, que vai ter problema”.
O efeito maior da péssima conduta de Javier Milei é aumentar a tendência à rejeição da Argentina no Brasil, já mesclada com a manipulação grosseira pelo sionismo e Trump da seleção argentina de futebol profissional masculino durante a Copa do Mundo deste ano.
Junto da rejeição manipulada, está a má fama de racismo intrínseco aos argentinos que viajam ao exterior e o alinhamento de seu governo de turno com o imperialismo. Evidente que nada disso reflete o povo argentino, mas se torna um elemento a mais de instabilidade e tensão para o Mercosul diante da pressão do Império e a retomada da política absoluta do Big Stick na América Latina.
Bruno Beaklini (Bruno Lima Rocha Beaklini), militante socialista libertário de origem árabe-brasileira, cientista político e professor de relações internacionais e jornalismo. Escreve semanalmente para o MEMO e tem seus textos publicados regularmente em portais como IHU, GGN, Repórter Popular, Semana On, El Coyote, Blog de Canhota, Brasil de Fato, Fórum, Outras Palavras, Brasil Debate e artigos especiais na Carta Maior. Tem presença frequente em rádios latino-americanas e de língua espanhola, além de participação em entrevistas para Hispan TV, Press TV, RT e Radio Sputnik. Editor dos canais do portal Estratégia & Análise.
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