Economia Criativa gera revolução no setor elétrico

Setor reúne segmentos produtivos capazes de abrir portas para o futuro e encontrar saídas inteligentes: lâmpadas já perderam filamentos e aumenta o número de geração distribuída no Brasil 
 
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Reprodução Facebook
 
Jornal GGN – Meu Deus, isto fala! A exclamação do Imperador Pedro II foi para a invenção do escocês Alexander Graham Bell: o telefone, que concorria com a lâmpada elétrica, do estadunidense Thomas Edison. Isso aconteceu em 1876, quando não se podia imaginar que, no futuro, esses e outros participantes da Exibição Internacional Centenária, na Filadélfia, estariam inseridos na chamada Economia Criativa (EC). Esse conceito aglutina forças para enfrentar crises econômicas, como a do Brasil, ou a do hemisfério Norte, que já se despede. 
 
As transformações no setor de energia elétrica, que já concorria com o aparelho telefônico há 142 anos, chegam com a mesma força que revolucionou a telefonia. E nesse caso, mais uma vez a EC é essencial para a sobrevivência de empresas de grande porte do setor elétrico, diz o engenheiro Carlos Renato França Brasil, superintendente de Tecnologia, Inovação e Eficiência Energética da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig).  
 
“Não será diferente com relação ao que aconteceu com as telecomunicações”, avalia. Para se precaver, ele informa que a companhia trabalha em um plano de tecnologia, focado em inteligência digital, com edital a ser publicado, em breve. “Vivíamos dentro de um setor que ainda era visto como monopólio. Isso está acabando”, destaca. 
 
Com as mudanças na regulamentação do setor elétrico, o consumidor terá mais autonomia e a possibilidade de gerar e armazenar energia. “A empresa que não estiver preparada para essas mudanças vai desaparecer”, alerta. Carlos Renato acredita que a “geração distribuída (GD) está para o setor elétrico assim como celular para a telefonia”. 
 
Esse segmento e as baterias para armazenamento de energia, segundo acredita, vão fazer a diferença. A rede vai continuar, mas vai perder a importância. “Tudo o que for repetitivo poderá ser substituído por um sistema inteligente. Um número maciço de dados enviados por pessoas diferentes de áreas variadas, fragmentado, está mais sujeito a erros do que um sistema baseado em padrões inteligentes”, completa. 
 
A tendência aponta para consumidores que vão até produzir a própria energia e exigir soluções novas. Grandes e pesadas instalações serão substituídas por ferramentas mais leves, inteligentes e criativas. O resultado de tudo isso? Mais autonomia para usar energia da forma que mais precisar. As fazendas solares, com parcerias, fazem parte dos planos da companhia. 
 
Para quem não está familiarizado com a expressão, o Instituto Nacional de Eficiência Energética (INEE) explica que GD é a geração de energia mais próxima do consumidor e inclui potências cada vez menores: geradores para aproveitamento de fontes de energia alternativas ou de emergência para operação no horário de ponta, painéis fotovoltaicos e Pequenas Centrais Elétricas (PCHs). Equipamentos de medida que facilitem controle de carga em caso de ligamento e desligamento e de diversas formas de energia.
 
Lâmpadas já perderam filamentos, telefones encolheram e viraram celulares. Aplicativos (Apps) alteram a economia e a vida social de distintos estratos sociais. Uber, Wase, WhatsApp, Airbnb e Alexa, da Amazon, são respostas rápidas a desejos antigos.  
 
Num mundo cada vez menos analógico é preciso saber que alguém acaba de ter uma ideia nova, economicamente viável e que vai colocá-la em prática para substituir procedimentos lentos, caros e sujeitos a erros. 
 
Mas práticas inovadoras que facilitam processos e reduzem custos nem sempre são essencialmente digitais e mesmo assim fazem parte da EC. Se um eletricista segue normas e não faz a ligação de padrões que não se enquadram nelas, a solução é trabalhar com um kit ‘anti-reprova’, por exemplo, que já é utilizado. Ali estão peças extras para resolver pequenos problemas, ideia que partiu dos próprios eletricistas. 
 
Outra novidade é um cabo com várias saídas, mais uma vez usando celulares como referência, para recarregar baterias, na instalação de medidores em indústrias. Eles substituem voltas e curvas de fios em um painel para cumprir normas técnicas. Agora, normas podem ser atendidas de forma rápida com um fio e várias terminações que se conectam ao painel. 
 
Mudanças têm uma dinâmica própria e forçam companhias a buscarem soluções de mercado e a oferecerem novos serviços para sobreviver; a Netflix praticamente quebrou a Blockbuster; e a Amazon ameaça redes de comércio varejista.  
 
A analista técnica responsável pela Casa da Economia Criativa do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de Minas Gerais (Sebrae-MG) Raquel Vilarino Reis explica que o conceito é amplo e fortalece atividades especialmente em períodos de crise econômica. O atendimento é feito numa construção da década de 1920, no Bairro Funcionários, em Belo Horizonte, adaptada aos novos tempos. 
 
Origem do termo Economia Criativa
 
A ideia surgiu na Austrália na década de 1980, e ganhou fama quando o governo trabalhista inglês a incorporou em sua estratégia de política macroeconômica. O Primeiro-Ministro inglês, Tony Blair, identificou 13 setores (publicidade, arquitetura, editorial, rádio e TV, design, cinema, música, serviços de software e computador, jogos de computador, design de moda, artesanato, artes performáticas e mercado de artes e antiguidade), capazes de reerguer a economia nacional, chamando-os de “indústrias criativas”. 
 
No Brasil, os 13 setores estão agrupados em quatro áreas: Consumo (Design, Arquitetura, Moda e Publicidade); Mídias (Editorial e Audiovisual), Cultura (Patrimônio e Artes, Música, Artes Cênicas e Expressões Culturais); e Tecnologia (P&D, Biotecnologia e TIC). 
 
Segundo Raquel Vilarino, os mineiros são muito criativos e a música lidera a procura por cursos e orientações na Casa da Economia Criativa. Invenções como jogos de tabuleiros, bordados, artesanato e ideias unem interesses de pessoas diferentes. A maior parte das empresas criativas do estado, 19,9%, está concentrada em Belo Horizonte, o equivalente a 12,6 mil empresas. 
 
Como se pode perceber, Dom Pedro II tinha razão de vislumbrar o futuro em pleno século 19, com a curiosidade de quem sempre se interessou pelas ciências. Foi por isso que o Brasil se tornou o segundo país do mundo a ter o telefone, e como já é, atualmente, um gigante do setor de energia elétrica e de energias alternativas limpas e renováveis, o futuro parece promissor. 
 
Números da Indústria Criativa
 
Como o próprio nome diz, indústria criativa requer mesmo muita criatividade. E nesse quesito, Minas Gerais está bem no ranking, com um volume de R$ 9,5 bilhões em riqueza gerada por estabelecimentos tidos como criativos, atrás apenas de São Paulo (R$ 73,5 bilhões) e Rio de Janeiro (R$ 24,1 bilhões). 
 
Os dados são da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan) no período 2013-2015. No Brasil são 525,7 mil empresas que geram 4,3 milhões de empregos e 52% são microempresas. Em Minas Gerais, estão 63,4 mil empresas, com 423,2 mil empregados. 
 
Para entender como a economia criativa impacta a indústria no Brasil e em Minas Gerais e delimitar setores, a Agência P7, a Gerência de Inteligência Competitiva da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), a Fundação João Pinheiro (FJP), o Sebrae e a Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (Codemig) formaram um grupo de trabalho, com resultados publicados em julho 2018, referentes a 2016. 
 
O salário médio nacional neste setor é de R$ 2.170,33 e, em Minas Gerais, R$ 1.686,13. Considerando todos os estados brasileiros, São Paulo está em primeiro lugar com 28,43% de indústrias criativas, e Minas Gerais, em segundo lugar, com 12,07% delas, à frente de estados como Rio de Janeiro (7,98%), Paraná (7,69%), Rio Grande do Sul (7,57%) e Santa Catarina (6,85%). 
 
O Produto Interno Bruto (PIB) criativo gerou R$ 144,6 bilhões, 2,64% do PIB nacional em 2015, de acordo com o estudo da Firjan, o que é avaliado como baixo diante da suposta capacidade criativa do povo brasileiro. Entre 2013 e 2015, o emprego encolheu 4,7% e a produção, 2,8%. Embora num ritmo decrescente na intensidade da queda, mostrou que essas pessoas conseguem se recolocar no mercado, justamente porque têm criatividade.
 

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