22 de junho de 2026

Aumento da Selic não passa de uma picaretagem política generalizada, explica economista

Decisão do Copom é um ciclo vicioso. Eles sobem a Selic, aumentam os juros, elevam a dívida pública e mais dinheiro de imposto é transferido para os mais ricos
Sede do Banco Central, em Brasília. Foto: Adriano Machado/Reuters/Direitos Reservados - via Agência Brasil

O Comitê de Política Monetária (Copom) aumentou, na última quarta-feira (13) a taxa Selic em 1 ponto percentual, para 12,25% ao ano, decisão que surpreendeu até mesmo o mercado financeiro. 

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A expectativa era a de que a elevação fosse de 0,75 ponto, mas sob a justificativa da recente alta do dólar e das incertezas em torno da inflação e da economia global, o Copom aumentou a taxa básica de juros e prometeu repetir o feito nas próximas duas reuniões, de acordo com o cenário internacional e nacional. 

Mas, para Ladislau Dowbor, professor de economia da PUC-SP e consultor de várias agências internacionais, a decisão do comitê do Banco Central (BC) não passa de uma “picaretagem política generalizada”, voltada para interesses do mercado financeiro e de gigantes mundiais, como a BlackRock e o JP Morgan.

“A primeira coisa [para entender] é o seguinte, quem é que faz aplicação financeira? Aqui chamam de investimento, mas é aplicação financeira. Investimento é quando você produz alguma coisa que aumenta o estoque de capital. Aqui são aplicações financeiras, mas na realidade é especulação”, explica o professor.

Dowbor chama a atenção para o fato de que 75% das famílias brasileiras não fazem aplicações porque mal conseguem “fechar o mês” com a renda que recebem.

“Na realidade, nós temos 79% das famílias que estão endividadas, ou seja, parte do que elas têm estão transformando para pagar juros em vez de dinamizar a economia comprando coisas”, ressalta o docente e convidado do programa TVGGN 20H da última quinta-feira (12).

Além de atender aos interesses de 1% da população mais rica do país, a alta de 1% da Selic não faz jus à realidade econômica do país, que teve 0,9% de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) no terceiro trimestre, mas sim um processo de apropriação dos tributos pagos pela população. 

Isso porque o 1% mais rico tem entre 10% e 15% do Tesouro Direito, em que os investidores compram títulos da Dívida Pública Federal. 

“O segundo ponto muito importante de entender é o seguinte, esse estoque da dívida de mais de R$ 7 trilhões, não é que o Estado construiu universidades, fez coisas úteis e se endividou para isso. Não, são esses bancos, esses grupos financeiros, eles vão comprando títulos do governo financiado pela Selic e a Selic dá os juros para eles e eles reaplicam esses juros, (7:38) o que vai aumentando a dívida e aumentando o volume de dinheiro dos nossos impostos transferidos para esses grupos”, resume Dowbor.

Ciclo

A decisão do Copom responde, então, a um ciclo vicioso. Eles sobem a Selic, aumentam os juros, elevam a dívida pública e mais dinheiro de imposto é transferido para os mais ricos.

Outra consequência do aumento da Selic é o agravamento do processo de industrialização do país, uma vez que, ao observar que as famílias estão endividadas e, consequentemente consomem menos, o capital que investiriam em fábricas para produzir bens é direcionado em títulos da dívida pública. Assim, além de garantir um retorno, o investimento não tem grandes riscos se comparado à complexidade de gerir uma indústria. 

“É muito mais interessante fazer aplicação financeira do que fazer investimento produtivo, o que reorienta toda a economia para a especulação financeira e explica a desindustrialização e a fragilização da economia”, acrescenta o professor da PUC.

Ladislau Dowbor acrescenta ainda que o aumento da Selic em 1 ponto percentual custa ao país R$ 70 bilhões em juros da dívida pública, montante que representa quase metade do que é gasto com o programa Bolsa Família (R$ 170 bilhões). 

“Isso, para mim, é apropriação indébita. Para os muito ricos, a gente não fala em roubo, a gente fala em apropriação indébita mais elegante, certo? Mas quando você ganha dinheiro sem fazer a contrapartida correspondente e produtiva para a sociedade, isso é simplesmente desonesto ou sem vergonha”, continua o economista.

Alternativas

Para romper o ciclo vicioso, Dowbor sugere que o governo invista mais dinheiro na base da sociedade. “Botar dinheiro para esses grupos financeiros especulativos é um dreno. Quando você coloca dinheiro  para a base da sociedade, seja através do SUS, seja através do sistema de educação, seja Bolsa Família, seja o salário mínimo, seja qual for o subsistema, digamos, o dinheiro vai na base da sociedade, em uma economia que está em situação de subutilização da sua capacidade produtiva, você está dinamizando o conjunto da máquina. Esse é essencial.”

Confira a aula de economia de Dowbor na íntegra no programa TVGGN:

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Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É repórter do GGN desde 2022.

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5 Comentários
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  1. Douglas da Mata

    13 de dezembro de 2024 9:54 am

    É excruciante quando se tem que gritar o óbvio…

    Interesante ele falar em picaretagem, sendo um quadro acadêmico dito progressista…

    É essa a definição do governo Lula…

    Picaretagem.

  2. Antonio Uchoa Neto

    13 de dezembro de 2024 9:58 am

    O pior disso tudo é que o sistema financeiro nacional (se é que se pode dizer que isso existe) é apenas um entreposto, um intermediário, para que os BlackRocks e JP Morgans da vida possam ganhar, aqui, com juros livres, leves, e soltos, e com pouca – ou nenhuma – regulamentação e tributação, o que não podem ganhar lá, em seus países de origem, ou no sistema financeiro internacional (se é que se pode dizer que isso existe, igualmente; assim como as águas do planeta são uma só, o financismo também é um só).
    E ainda tem gente que acha é saudável, e uma possibilidade de promover a mobilidade social, dar corda a essa picaretagem, e estimular o trabalhador a economizar (Jesus! Como?) e aplicar suas sobras. Que sobras, cara pálida? Para que essas sobras alimentem o setor produtivo, e não o parasitismo financista? Que piada de mau gosto, e cínica.
    Trabalho desde os dezesseis anos, e salvo alguns poucos anos, durante o interregno petista no poder (2003-2014), jamais pude ‘economizar’ mais do que alguns parcos caraminguás. Que foram pulverizados pela necessidade, uma vez encerrado o interregno, e retorno à picaretagem política (e econômica) generalizada, achatamento dos salários, etc., etc., etc.
    Não creio que Lula 3 possa reverter esse quadro. Este não se altera com conciliação, somente com ruptura.
    Tibieza política, covardia econômica, submissão a uma Ordem Internacional francamente exploradora, quintas-colunas abundantes em todos os setores.
    Tudo a serviço do Binômio Bancos/Corporações. Em cuja folha de pagamento estão parte do Executivo, todo o Legislativo, e parte substancial do Judiciário. Além de presidentes de Bancos Centrais.

  3. Rui Ribeiro

    13 de dezembro de 2024 11:23 am

    Decisão do Copom é um ciclo vicioso. Eles sobem a Selic, aumentam os juros, elevam a dívida pública e mais dinheiro de imposto é transferido para os mais ricos. Em decorrência, a inflação fica sob controle, porque a maioria esmagadora da população fica com menos dinheiro para satisfazer suas necessidades básicas, o que se reflete na redução da demanda, com empresas vendendo menos, desempregando e produzindo menos. Os Especuladores fazem a farra.

  4. Jossimar

    13 de dezembro de 2024 1:49 pm

    Já viram a quantidade dos “influencers” que tem no youtube ensinando as pessoas a ficarem ricas com “investimento” de R$ 100 por mês?
    O Brasil é mesmo o país dos vagabundos, de alto a baixo. Até acredito que “a baixo” tem menos.

  5. JOSE OLIVEIRA DE ARAUJO

    14 de dezembro de 2024 7:29 am

    O o dito crime organizado no Brasil, está causando série preocupações na sociedade, é o que podemos inferir pelo noticiário. No entanto, perto do super crime organizado do clube da usura, é café pequeno como se diz gíria. o prejuzio causado pelo crime organizado, pode chegar a alguns bilhões de reais, enquanto o super crime organizado do clube da usura é de alguns trilhões de reais.

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