Ladislau Dowbor: “Temos democracia, mas a classe dirigente é a mesma”

Professor da PUC, o convidado do Nova Economia ressaltou que os grupos que se mantêm no poder seguem inalterados

Crédito: Reprodução/ Youtube TVGGN

O programa Nova Economia da última quinta-feira (16) contou com uma aula de economia contemporânea do professor titular de pós-graduação da PUC-SP e consultor de diversas agências da Organização das Nações Unidas (ONU), Ladislau Dowbor. 

Entre as temáticas abordadas, Dowbor chamou atenção para o fato de que, no Brasil, independente do regime político, os grupos que se mantêm no poder seguem praticamente inalterados. “Depois da ditadura, temos democracia. Mas temos democracia, temos ditaduras, temos golpes, e é tudo a mesma classe dirigente, as mesmas elites.”

A única exceção, de acordo com o docente, foi a “golden decade” brasileira, entre 2003 e 2013. “Houve uma razoável redistribuição, investimentos públicos mais pesados, crescimento de 3,8%, dobrou a população universitária. Há momentos, surtos, em que se coloca mais dinheiro na base da sociedade e faz investimentos públicos necessários, o Brasil se solta [das elites], a coisa funciona. Mas voltam as elites com muita rapidez, retomam as rédeas. O golpe contra a Dilma [Rousseff, ex-presidente] é outro escândalo.”

Desigualdade

Dowbor resgatou alguns indicadores para mostrar a gravidade da desigualdade brasileira. Atualmente, o país ainda soma 79% das famílias endividadas, o que representa 72 milhões de adultos inadimplentes. “Isso em um país em que, se você divide o PIB [Produto Interno Bruto] pela população, isso dá R$ 16 mil por mês de renda por família de quatro pessoas”, continua o professor. 

Assim, se a desigualdade fosse reduzida, seria possível garantir que todos os brasileiros pudessem viver de maneira digna e confortável, além de gerar demandas na base da sociedade que fazem a economia funcionar, até porque o alto endividamento da população trava o consumo. 

O professor cita ainda que apenas a produção de grãos da última safra resultou em quatro quilos por pessoa. Em geral, cada indivíduo consome 180 gramas de grãos por dia. “Mas temos 33 milhões de pessoas que passam fome e 125 milhões em situação de insegurança alimentar. O país não consegue alimentar as suas crianças e vem os Toffolis [em referência ao ministro do STF], os caras de jatinho. Isso aqui não é economia, é sem vergonhice.”

Mobilização

Diante deste cenário, Dowbor explica que a sociedade brasileira não tem força de mobilização e precisa encontrar bases políticas para questionar o sistema vigente, tendo em vista que, diferente das décadas de 198 e 1990, quando os movimentos sociais eram mais fortes e vivíamos a era do capitalismo industrial, atualmente enfrentamos a era do sistema essencialmente financeirizado. 

“Você tinha uma época em que tinha os trabalhadores. Hoje está muito fragmentado, em grande parte é precariado, não é mais proletariado. Tinha uma compreensão do processo de exploração maior quando você está ́ em uma fábrica e os caras pagam um salário muito baixo ou não tem condições de trabalho. O pessoal está ali junto, se organiza. Agora quando a exploração é feita bastante menos por baixos salários e sim por sistema de exploração financeira diversificados e muito diversos… Citei os 72 milhões de adultos inadimplentes. Vão fazer o que? Se manifestar em frente da agência bancária? Depois, apresenta para ele o juros por mês. Ninguém sabe fazer o cálculo  de juros compostos”, emendou. 

Confira o debate compelto no canal do GGN:

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3 Comentários

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  1. É tenebrosa a percepção de que a mera disputa eleitoral, ou o funcionamento das instituições de controle político do Estado significam democracia.

    Isso é um cálculo rasteiro, simplista, que revela bem a razão de estarmos atolados nessa crise civilizatória, sem que a esquerda seja capaz de entender a conjuntura e propor um suporte teórico ao debate necessário.

    Em um mundo onde 1% concentra mais da metade da riqueza dos 99%/ restantes, como imaginar que as formas de representação sejam capazes de permitir aos miseráveis e pobres algum peso relativo?

    É essa armadilha ideológica que permite a perpetuação da barbárie na qual estamos.

    Pergunte ao morador de rua se ele se sente democraticamente representado.

    O morador das favelas.

    O trabalhador comum, que tem tenda de 1 ou 2 SM.

    Esse desentendimento permite as saídas fascistas.

    A social democracia alemã não percebeu.

    Assim como esses senhores defensores de um pacto democrático Inexistente.

    Fora impostores.

  2. Para a maioria dos analistas e pensadores acadêmicos brasileiros, bem como para a maioria dos jornalistas políticos, as classes pobres do país, assim como a camada mais baixa e empobrecida da classe média, não apresentam grande interesse teórico e prático. Creio que muitos destes analistas, pensadores e jornalistas pensem que estas classes sociais por não “possuírem” as condições intelectuais necessárias à uma interpretação e avaliação política “objetiva” da realidade (e tais condições para estes pensadores e analistas talvez se resumam à independência espiritual frente às condições materiais de existência, algo como uma dialética pura e abstrata do espírito) não possuem qualquer relevância para uma crítica da existência política do país. Daí tais analistas, pensadores e jornalistas conceituarem como democrático um sistema político que pode muito bem ser definido, simplismente, como um sistema eleitoralista. Consideram-no democrático porque possui elementos técnicos-jurídicos, como a queridíssima constituição cidadã ou órgãos político-juridicos, que alardeiam em suas redações constitucionais uma rigorosa e ideal igualdade de todos perante a lei (não se dão ao trabalho mínimo de observar que tais princípios de isonomia não se manifestam concretamente sequer como política pública desses mesmos elementos técnico-jurídicos e políticos-jurídicos, enfim, demonstrando que isonomia não tem por efeito necessário isogoria, quando se trata de um sistema tecnocrático). O engraçado é que muitos destes analistas, pensadores e jornalistas pertencem à um estrato baixo ou bem mediano da classe média, estrato cuja estrutura social e econômica deveria fazê-los mais sensíveis a tais questionamentos políticos, mas acabam por assumir ativamente uma cultura ideológica essencialmente liberal (dialética pura e abstrata do espírito? Ou interesse de classe travestido de independência espiritual?)

  3. Eu concordo e imagino que além de termos democracia, termos ditaduras, termos golpes, e é tudo a mesma classe dirigente, as mesmas elites, também temos um crescimento de famílias dominantes na política que se somam aos velhos caciques, aos velhos coronéis e seus clãs.
    Entendo que deveria ser feito um levantamento minucioso, bem estudado, imparcial e super transparente e que pesquise pelo menos os últimos 10 anos,para se identificar, rastrear, fiscalizar e informar ao público e aos detores de fiscalização, tudo que aconteceu com o uso das verbas públicas destinadas as pregeituras, governos estaduais, secretarias, órgãos gederais e principalmente, e também,todo o passo a passo no uso das verbas de representação para vereadores,deputados e senadores. A impressão que fica é que a fiscalização, o acompanhamento contábil e investigativo, que deveria conferir e constatar o bom uso, ou não, na aplicação desses tevursos públicos, nos deixam uma dúvida sobre o tamanho de um possível rombo e dangria do finheiro público, caso realmente esteja sendo mal aplicado e/ou desviado, daquele que deveria ser o destino autorizado no empemho da verba.
    Os fabulosos crescimentos de patrimônios e aplicações,por parte de políticos,que são publicados, denunciados e muito mal ecplicados, quando são cobrados, estão se tornando coisa comum, até para aqueles que acabaram de chegar e já sentam nas poltronas dos melhores camarotes da ascensão social

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