O mercado global de medicamentos fitoterápicos movimentou, em 2023, US$ 216 bilhões. Mas o Brasil, apesar das riquezas existentes na Amazônia e demais biomas, teve um faturamento de apenas US$ 173 milhões no mesmo período, o que representa menos de 10% de participação no mercado global.
“Ou seja, no país da biodiversidade, onde se plantando tudo dá, a gente está com uma participação de menos 0,1%. A projeção para o mercado global de fitoterápicos em 2032 é da ordem de US$ 437 bilhões e, pasmem, do ponto de vista da balança entre importar e exportar, nós somos importadores líquidos em todos os elos da cadeia de fitoterápicos”, observa o diretor do Instituto Escolhas, Sérgio Leitão.
O diretor foi um dos convidados do programa Nova Economia da última quinta-feira (7) para ressaltar ainda que dados defasados indicavam que o déficit brasileiro da cadeia de fitoterápicos era de R$ 2 bilhões em 2011. Atualmente, a balança comercial deve estar ainda mais desfavorável.
“Como é que o Brasil, com toda a sua imensa biodiversidade e com todo o potencial que a gente teria para oferecer soluções fitoterápicas ao mundo, é um freguês de carteirinha do mercado mundial?”, continua.
Plano
Medicamentos fitoterápicos são integralmente obtidos a partir de plantas e passam por um processo de industrialização. Assim, fizeram parte do projeto Nova Indústria Brasil (NIB), lançado pelo governo federal no início do ano, a fim de definir políticas públicas para estimular o desenvolvimento do setor industrial.
No documento, existe a proposta de lançar um programa específico para o fomento da pesquisa e indústria de fitoterápicos no país em 90 dias. O prazo, porém, não foi cumprido.
“Os insumos dessa cadeia nacional de fitoterápicos são de agricultores familiares. No plano simplesmente não tem a participação em nenhum momento do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa)”, aponta Leitão. “Você não imaginaria uma discussão que afetasse o agronegócio sem o MAPA estar presente. Não existe essa condição. Mas no Brasil se faz uma discussão sobre uma estratégia nacional de fitoterápicos apenas com a participação do Ministério da Saúde e do Ministério da Indústria e Comércio.”
Pesquisa e concorrência
Wagner Barbosa, farmacêutico e professor titular da Universidade Federal do Pará (UFPA) afirmou que o centro acadêmico tem, pelo menos, cinco décadas de pesquisa com recursos naturais locais.
“Normalmente o que se tem pesquisado vai na linha da substância ativa do fármaco. Então, existem plantas que são utilizadas, por exemplo, para controlar o diabetes, como a pata de vaca. Durante muito tempo se pesquisou qual é a substância que reduz a glicemia numa perspectiva da indústria do medicamento sintético. Isso travou por bastante tempo a evolução da pesquisa para a fitoterapia no Brasil”, comenta o professor.
A pesquisa, porém, vive um momento de readequação. “Nos programas de pós-graduação da área da farmácia, o nosso foco sempre é pesquisar aquele remédio ou aquele fitoterápico artesanal, para que a partir daí nós possamos avançar na tecnologia e desenvolver a formulação.”
Para Barbosa, as universidades precisam pesquisar formas populares de usar os fitoterápicos, até porque o país tem uma série de insumos que são exportados para, depois, importá-los novamente como produto final, a exemplo do jaborandi.
A planta é utilizada para produzir um colírio para controlar a pressão ocular. Abundante na região Nordeste, o jaborandi é exportado, fato que, para o docente, mostra a falta de estratégia nacional para aproveitar os nossos recursos naturais. “Quando você dá uma ordem de pedido em uma farmácia, o distribuidor já envia para a China imediatamente.”
A China, mais uma vez, se mostra um grande desafio para a indústria nacional. Lá, a substância ativa usada para a produção de aspirina custa menos de R$ 0,02, já que o tigre asiático a fornece para o mundo inteiro. “A escala é massacrante”, continua o professor.
“Quando a gente não tem o conhecimento sobre determinada planta, sobre o seu uso, alegação de uso, a gente vai gastar muito mais dinheiro para desenvolver [os medicamentos]. Pesquisamos substâncias em vez de pesquisar o remédio que já é utilizado”, conclui Wagner Barbosa.
Confira o debate com a bancada do Nova Economia, composta desta vez por Luis Nassif, João Furtado e Sergio Leo:
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