4 de junho de 2026

Brasil: tudo será como antes

"Entre Oligarquias, as origens da República brasileira" reconstitui o pacto oligárquico das elites fazendeiras
Rodrigo Goyena na TV Brasil

Vale a pena ler o excelente “Entre Oligarquias , as Origens da República Brasileira (1870-1920)”, de Rodrigo Goyena Soares (FGV Editora).

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O autor reconstitui e interpreta o período que antecedeu a Proclamação da República até o apogeu da República Velha, o pacto oligárquico das elites fazendeiras.

Não se recomenda a leitura para os que julgam que o Brasil consegue aprender com a própria história. Na formação da República Velha há todos os ingredientes do país atual.

Os ruralistas, os extrativistas da época, já dominavam completamente a economia. A começar pelo sistema tributário. Conta o livro:

A tributação do ganho agrícola

“Tomando o aluguel imobiliário como referência de custo, pontuavam que enquanto o tributo da taverna “esta[ va] na razão de 70% […], o imposto sobre os mercadores de café permanec[ ia] na de 27%”. Uma injustiça, salientava-se ao fim, visto que o valor lucrativo do café era muito mais alto do que o do taverneiro. 

A resposta veio a galope. Por meio da Associação Comercial do Rio de Janeiro e de São Paulo, e do Centro da Lavoura e Comércio do Café, os produtores agrícolas assinalaram que o protecionismo teria o efeito duplamente negativo de inflacionar os preços finais ao consumidor e de desabastecer o mercado interno, porque a indústria nacional, segundo eles, era de estufa”.

(…) Mais particularmente, bradavam pelo transbordamento do fardo tributário para o setor cafeeiro, considerado por eles o baluarte de um Império cuja classe dirigente seria imoral, devido à vilipendiada transformação de interesses particulares, próprios ao mundo agrícola, em objetivos coletivos.

A Revolta do Vintém:

A revolta do vintém contra o reformismo da época manifestava o resultado desequilibrado de uma lógica de endividamento público que premiava com a venda de títulos as instituições financeiras em detrimento da massa populacional, que pagava o preço com tributos diretos e indiretos, quando as classes mais privilegiadas se negavam a fazê-lo.

A influência dos bancos:

Também conclamavam pelo relaxamento dos juros bancários, um setor julgado concentrado demais, e pela institucionalização do crédito ao consumo.

As instituições políticas

As instituições da Primeira República — federalismo em teoria, oligarquias estaduais, política dos governadores, eleições restritas, práticas de poder local — e mostra os limites: desigualdade civil e racial persistente, exclusão da maior parte da população, mecanismos de controle eleitoral, clientelismo. Ac

A expansão dos novos bancos

Não foi apenas Campos Netto quem facilitou a multiplicação de bancos;

Farejando melhor o vapor das usinas do que o cheiro do café, Rui Barbosa autorizou os novos bancos a participarem do capital das empresas incorporadas. Todos teriam carteiras comerciais e hipotecárias, e preferências em contratos ferroviários, mineiros e migratórios, tal qual o direito de expropriar as terras requeridas para essas finalidades prioritárias.

A resistência negra

Traz também informações sobre as organizações civis criadas na época, e sobre o Quilombo do Jabaquara:

Quando não, optaram pelo confronto e pela resistência, tão bem plasmados no Quilombo de Jabaquara, formado em Santos no ano de 1882. Somando algo próximo a 10 mil libertos por si mesmos, a comunidade prontamente chamada de Canaã dos Cativos ergueu barracas de palha e taipa — e chegou a estabelecer um comércio local blindado por sentinelas que expulsavam os capitães-do-mato.

No mesmo ano de 1882, denotando a força de um contágio rebelde não apreensível na simples procura de uma liderança escrava nacional, de resto, inexistente, irromperam fugas coletivas no sul da Bahia que se desdobraram, igualmente, em formações quilombolas. Muitas vezes incitados por estrangeiros abolicionistas que penetravam as fazendas mesmo após os galos cantarem, os escravos eram reiteradamente auxiliados pelo estratégico fenômeno dos quilombos volantes. Eram agrupamentos que podiam alcançar mais de 30 pessoas — entre elas, escravos fugidos e homens livres. O objetivo era auxiliar as fugas em massa, fornecendo um amparo imediato aos que rompiam os grilhões.

Os fenômenos militares

Outro dado interessante é como os militares que foram à guerra se organizaram politicamente posteriormente: no livro, a experiência da Guerra do Paraguai; no Brasil moderno, o simulacro de guerra do Haiti.

Para os autores — veteranos do Prata que citavam a torto e a direito os pais fundadores dos Estados Unidos, o advento de um Executivo forte no México e a desfeudalização de um Japão agora industrializante —, somente os militares, vozeando os anseios populares, teriam legitimidade e representação para formular novos projetos para o Brasil: “eles não sabem governar, aviltando-se ante um título de distinção”, lia-se como que ouvindo berros novamente na imprensa militar, num tom próprio ao binarismo do nós contra eles e, portanto, à radicalização contra o governo.86

O associativo operário

Representativo de uma parcela ainda pequena da população, o associativismo operário não logrou naquele momento erguer uma liderança orgânica e nacional, formada na própria classe e capaz de pautar suas reivindicações em escala única.

A intenção de taxar os mais ricos

Previu-se a criação de um imposto territorial, cujo fim último era promover indiretamente uma política de reforma agrária. Tratava-se de forçar, com uma tributação mais agressiva sobre a propriedade fundiária, a venda de lotes improdutivos num momento, nas próprias palavras de Gaspar Silveira Martins então na Fazenda, “que se vai preparando a substituição do regime de trabalho [servil]”. 

Tal como ocorreu quase três décadas antes, na ocasião dos debates sobre a aprovação da Lei de Terras, o novo imposto permaneceu letra morta. Alcançou-se meramente a criação de uma taxa de 20 réis por metro quadrado em terrenos não edificados, exclusivamente na Corte: um valor irrisório para uma cobrança que terminaria ao fim revogada em 1880. 

O segundo insucesso tributário concerniu à criação de um imposto de renda mais rigoroso e, portanto, com maior extensão do que o tributo sobre indústrias e profissões, que não ultrapassava 3% da receita nacional. Objetivava-se taxar as rendas apuradas a partir da Lei do Terço, que havia estabelecido critérios mais rígidos de comprovação salarial. Na percepção do deputado pelo Maranhão Fábio Alexandrino de Carvalho Reis, o “imposto sobre a renda [seria] o único racional, o único imposto em que se pode guardar melhor proporcionalidade, o único em que se pode evitar a repercussão sobre terceiros e, por conseguinte, o único imposto legítimo”.

Leia também:

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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2 Comentários
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  1. Rui Ribeiro

    22 de setembro de 2025 12:45 pm

    “Minha proposta é apresentar um substitutivo garantindo que essa prerrogativa seja assegurada apenas para os crimes de opinião. Isso fortalece o Parlamento, a democracia e a liberdade de expressão. Democracias fortes são as que têm parlamentos fortes. Nada mais da essência do Parlamento do que a livre manifestação do pensamento, seja qual for a orientação política”. – Ciro Nogueira

    Exemplos de livre manifestação do pensamento que fortalecem o parlamento:

    “Naquela região onde a milícia é paga, não tem violência”. – Bolsonaro

    “A Maria do Rosário não merece ser estuprada porque ela é muito ruim, porque ela é muito feia, não faz meu gênero, jamais a estupraria.” – Bolsonaro

    “Através do voto você não vai mudar nada nesse país, absolutamente nada. Só vai mudar, infelizmente, quando um dia nós partirmos para uma guerra civil aqui dentro. E fazer um trabalho que o regime militar não fez, matando uns 30 mil, começando pelo FHC. Se vai morrer alguns inocentes, tudo bem. Em tudo quanto é guerra morrem inocentes”. – Bolsonaro

    “Não há a menor dúvida. Eu daria golpe no mesmo dia. [O Congresso] não funciona e tenho certeza que pelo menos 90% da população ia bater palmas. O Congresso hoje em dia não serve para nada, só vota o que o presidente quer. Se ele é a pessoa que manda, que decide e que tripudia em cima do Congresso, que dê logo o golpe, parte logo para a ditadura”. – Bostonaro

    É essa liberdade de opinião que fortalece o parlamento, Ciro?

  2. Rui Ribeiro

    22 de setembro de 2025 1:02 pm

    Progressistas são vítimas cancelamento mas a direita culpa os próprios cancelados ao tempo em que absolve os canceladores.

    Jimmy Kimmel foi cancelado pelo Trump. A culpa não é da extrema-direita que fala em liberdade de expressão mas censura, a culpa é dos progressistas cancelados:

    “Esquerda acaba por cair na armadilha que ela mesma criou”. – Lygia Maria

    A Lígia Maria parece ter feito estágio com o Paulo Coelho. Este foi torturado pelos Militares e culpou o Raul Seixas, outra vítima de tortura, e absolveu os torturadores.

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