A predominância dos Estados Unidos e da China na economia mundial não significa que os dois países sejam capazes de determinar, sozinhos, os rumos da governança global. Essa é a avaliação do economista britânico Jim O’Neill, ex-presidente da Goldman Sachs Asset Management e criador da sigla BRIC.
Em artigo publicado pelo Project Syndicate, O’Neill explica que questões como mudanças climáticas, pandemias, resistência antimicrobiana, governança da inteligência artificial e desequilíbrios econômicos exigem uma articulação mais ampla, envolvendo tanto os países do G7 quanto os integrantes do BRICS+.
O economista afirma que essa é justamente a motivação para a criação de uma nova plataforma de diálogo, voltada à aproximação entre os países ocidentais e o bloco ampliado dos BRICS.
O’Neill reconhece que Estados Unidos e China ocupam posição dominante na economia internacional. Segundo ele, a economia norte-americana gira em torno de US$ 30 trilhões, enquanto a chinesa alcança aproximadamente US$ 20 trilhões em valores nominais, mas essa comparação muda quando outros indicadores são considerados.
A União Europeia, por exemplo, teria um Produto Interno Bruto (PIB) de aproximadamente US$ 21 trilhões se fosse tratada como uma única economia, e o articulista lembra que mais da metade da expansão do PIB nominal mundial neste século teve origem justamente nos Estados Unidos e na China, fator que explica a enorme capacidade de ambos influenciarem a atividade econômica global.
Alguns fatores relativizam a hegemonia
Apesar da liderança econômica das duas maiores economias do mundo, O’Neill aponta três elementos que relativizam essa predominância.
O primeiro é demográfico: Estados Unidos e China somam menos de um quarto dos habitantes do planeta, tornando inviável qualquer estratégia global que ignore países como Índia, Indonésia e os membros europeus.
O segundo fator diz respeito ao câmbio: a força do dólar nos últimos anos amplia artificialmente a diferença entre as economias quando medidas em termos nominais. Ao se aplicar o conceito de Paridade do Poder de Compra (PPC), a economia chinesa praticamente dobra de tamanho, alcançando cerca de US$ 44 trilhões, enquanto a indiana se aproxima de US$ 18 trilhões.
O terceiro argumento é o fortalecimento político do BRICS+: embora reconheça que o crescimento econômico chinês tenha sido decisivo para consolidar o bloco, O’Neill afirma que a organização passou a desenvolver dinâmica própria e deixou de ser apenas um agrupamento econômico.
Segundo ele, a proposta de transformar o BRICS em um espaço de coordenação política surgiu inicialmente nos ministérios da Fazenda do Brasil e da Rússia, demonstrando que a China não exerce controle absoluto sobre a agenda do grupo.
Na avaliação de O’Neill, a principal consequência desse novo cenário é a necessidade de o Ocidente rever sua forma de relacionamento com os países do BRICS+. Para ele, os governos europeus terão de combinar reformas econômicas internas com maior protagonismo em iniciativas internacionais capazes de atrair a cooperação das economias emergentes.
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