22 de junho de 2026

“Jurotropismo” – Uma Nação infectada pelo rentismo, por Marco Gorini

Nosso futuro saudável como Nação passará inexoravelmente pela repactuação do papel do sistema financeiro no acordo social.

“Jurotropismo” – Uma Nação infectada pelo rentismo

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por Marco Gorini

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“Tropismo viral: Em virologia, ‘tropismo’ significa a propensão que um vírus tem em infectar determinado tipo de célula ou tecido em especial.” Wikipedia.

“A ilusão da Parte é julgar-se o Todo. A ilusão do Todo é julgar-se sem Partes”. Prof. Roberto Crema.

Nas últimas três décadas, o Brasil tem figurado entre os top 5 países com a maior taxa de juro real do mundo. Na semana passada, o COPOM elevou a taxa de juros, nos colocando como o segundo país com a maior taxa real do mundo, atrás apenas da Rússia, uma nação em guerra. Este é o pano de fundo deste artigo.

Nada foi mais testado ao longo da história do que a Vida, que acumula bilhões de anos em uma jornada de adaptação e evolução contínuas. No decorrer deste processo, só foi viável chegarmos até aqui devido à capacidade dos sistemas vivos encontrarem o “espaço da homeostase”, pois sem ela, não haveria Vida possível, mas apenas entropia e, no desfecho, morte.

É a presença da homeostase que garante aos sistemas vivos coexistência, a harmonia e a sintropia entre as suas partes. O corpo humano é um exemplo fenomenal para entendermos essa questão, pois qualquer desequilíbrio que persista e rompa as fronteiras dos limites traçados pelo “espaço homeostático”, a doença se instala e, no limite, morremos. Não há saúde possível sem homeostase.

Com essa reflexão em mente encontrei a inspiração na microbiologia para trazer esse neologismo do “Jurotropismo”. Entendi ser uma metáfora válida, pois nossa realidade atual é a de uma Nação infectada por um vírus, que contagia diversas células do seu sistema e compromete a sua existência saudável, homeostática.

O país está infectado pelo vírus do “jurotropismo”, inoculado por uma parte da sociedade, especialmente uma parte do mercado financeiro e os exclusivos rentistas, que, como a citação no início do texto realizada pelo Professor Roberto Crema, é iludida e comporta-se como se fosse o Todo, atraída e nutrida pela sua ganância infinita.

Os sintomas são diversos e estão em toda parte, expostas no sofrimento do setor produtivo que precisa subsistir de forma disfuncional para financiar suas operações, no sofrimento das famílias endividadas de forma perversa e cruel, assim como do governo, que administra um orçamento cada vez mais restrito para as politicas públicas que servem a grande maioria da Nação. Podemos diagnosticar o contágio do jurotropismo em cada balanço das entidades nacionais, sejam empresas, famílias ou governos, todos carregando passivos caríssimos e de curto prazo, drenando recursos de forma inexorável para o mercado financeiro e os rentistas.

O mantra dos jurotropistas é “maximizar”. Maximizar a captura de lucros, da forma mais rápida, simples e fácil possível, sempre mais, mais e mais, como se não fosse motivo de análise psiquiátrica acreditar que é possível, em um sistema finito como o planetário, o crescimento e a maximização perpétuas.

A verdade é que estamos uma Nação refém de uma Casta. Vale destacar que primeiramente escrevi “somos”, mas voltei e optei por escrever “estamos”, pois se o que hoje vivemos é fruto de escolhas humanas, apesar do imenso esforço desta Casta e seu exército de “especialistas” para naturalizar e legitimar as narrativas, o futuro pode ser diferente, caso escolhas diferentes sejam feitas.

Este vírus está levando o sistema social a agonizar. Ele é fruto de um paradigma ancorado no individualismo filosófico, corrente que nutre a tal crença de que a Parte é o Todo e, por isso, nutre escolhas baseadas na premissa falsa de que que o ótimo individual leva ao ótimo coletivo e global. Ele se propaga pelos canais de informação, formação e operação do dia a dia. Entretanto, sempre devemos recordar que como todo paradigma, é um constructo social, um mero acordo.

É fato que as finanças são essenciais para a saúde de uma Nação e que o Brasil possui um dos sistemas financeiros mais refinados do mundo, mas não por isso deixa de enfrentar importantes desafios. Como exemplo, cito apenas três dos mais atuais:

O Boletim Focus: divulgado semanalmente pelo Banco Central do Brasil, reúne as projeções do mercado financeiro sobre indicadores econômicos, como inflação, taxa de câmbio, taxa Selic e crescimento do PIB. As estimativas são baseadas em consultas a instituições financeiras e economistas. O relatório serve como uma importante referência para o planejamento econômico e para as decisões de política monetária no país, refletindo as expectativas de curto e médio prazo.

Porque basicamente só o mercado financeiro é escutado? Como é tratado o risco de conflito de interesse e manipulação? Esta semana foi publicada mais uma denúncia sobre isso, conforme link ao final do artigo.

– Mandato do presidente do Bacen x do presidente da República: em 2019 foi aprovada a independência do Banco Central e foi alterado o regime de mandato do presidente do BC, desvinculando-o do mandato do presidente da república.

Temos observado nos últimos 2 anos o quanto esse descasamento pode gerar de conflitos políticos, incertezas e falta de coordenação entre governo e Bacen, especialmente quando a troca de governo se dá em espectros opostos em termos de visão sobre como conduzir a economia em um país. O argumento defendido para a desvinculação é o de “proteger” o Bacen de interferência política. A pergunta que fica é sobre quem protege o Bacen do mercado financeiro?

– Porta-giratória: O problema da “porta-giratória” no serviço público refere-se à prática em que funcionários públicos saem de suas posições para trabalhar em empresas privadas, muitas vezes no mesmo setor em que atuaram anteriormente, e depois retornam ao serviço público ou vice-versa. Isso pode gerar conflitos de interesse, favorecimento e uma falta de continuidade nas políticas públicas. A preocupação é que esse movimento constante entre os dois setores comprometa a ética, a transparência e a eficácia do serviço público, além de criar um ambiente onde interesses privados se sobreponham ao bem público.

Analisando apenas o período do plano real até os dias de hoje, o Banco Central teve 11 presidentes. Destes, apenas um – Alexandre Tombini – era funcionário de carreira do banco. Todos os demais vieram do mercado financeiro e, após o mandato, retornaram ao mercado financeiro.

Conclusão:

Parece cada vez mais nítido que o nosso futuro saudável como Nação passará inexoravelmente pela repactuação do papel do sistema financeiro no acordo social. Temos as competências, os instrumentos, a infraestrutura e a necessidade urgente para que avançar nesta direção.

Entretanto, observando o cenário de agonia causado pelo atual acordo disfuncional, algumas perguntas ficam vivas para mim: “até quando?”; “o que será necessário para a mudança ocorrer?”; “haverá resiliência para suportar até lá?”; “sucumbiremos antes?”; “o que devemos fazer quando acordos não funcionam mais?; “há vontade para mudar?”

Não tenho respostas e me divido em nutrir esperanças ou sucumbir ao pessimismo. Os sinais da enfermidade são normalizados e parece que, ainda que graves e com tendência de piora, não tem sido o suficiente para engendrar novas escolhas e um novo rumo.

Links das citações:

1.       Sobre o boletim focus: https://iclnoticias.com.br/mp-junto-tcu-manipulacao-taxa-selic/

https://dinheirama.com/faria-lima-faz-ajustes-no-focus-para-manipular-bc-diz-gestor/#:~:text=Faria%20Lima%20faz%20’ajustes’%20no,para%20manipular%20BC%2C%20diz%20gestor

2.       Sobre o descasamento do mandato do Banco Central e da Presidência da República:

https://www12.senado.leg.br/noticias/videos/2024/07/simone-tebet-defende-mudanca-em-mandato-do-presidente-do-banco-central

https://www.dieese.org.br/outraspublicacoes/2021/sinteseEspecialAutonomiaBC.html

3.       Sobre o problema da porta-giratória:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_presidentes_do_Banco_Central_do_Brasil

https://www.ihu.unisinos.br/categorias/186-noticias-2017/570735-as-portas-giratorias-e-a-blindagem-do-banco-central

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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  1. Antonio Uchoa Neto

    11 de outubro de 2024 10:39 am

    “Parece cada vez mais nítido que o nosso futuro saudável como Nação passará inexoravelmente pela repactuação do papel do sistema financeiro no acordo social.”
    O sistema financeiro não faz parte de qualquer acordo social. Também nada tem a ver com Nação.
    Quem já tem um pacto em vigor, 100% favorável a si mesmo, não repactua nada com ninguém; muito menos com uma ‘nação’, e, ainda, para atender algum acordo social.
    O sistema financeiro é um mundo à parte, autossuficiente, fechado em si. Suga, mas não excreta. Se serve dos outros, mas não serve a ninguém, senão a si mesmo. Não se importa se inchar, ou explodir como uma bolha; sempre existirá quem lhe venda os pulmões, para encher outra. E, de bolha em bolha, o dono do sabão segue enriquecendo.
    O sistema financeiro está andando e andando para quem está sentado ‘naquela cadeira’. Ele controla o dinheiro e sua circulação, remunera e suborna os legisladores, o que diabo ele tem a ver com presidentes?
    Presidentes não mandam em banqueiros. E banqueiros mandam em legisladores, e, embora isso seja um pouco menos explícito, em juízes e magistrados.
    Atribui-se a um Rothschild a frase: se me deixam imprimir o dinheiro de uma nação, eu pouco me importo com quem está no comando dela.
    Um banqueiro moderno diz: se um país mantém o livre fluxo de capitais, eu pouco me importo com o resto.
    E muito menos com presidentes.
    Se o seu presidente, amigo, quer, e eventualmente consegue, colocar o pobre no orçamento, ainda assim não há com o que se preocupar; afinal, ele só colocará o rico no fisco com a permissão do mesmo – e isso, só em final de novela da globo, ou em conto da carochinha.
    Ou caroChina, como diz um amigo meu.
    Sem dúvida, “A ilusão da Parte é julgar-se o Todo. A ilusão do Todo é julgar-se sem Partes”.
    Mas o sistema financeiro não é parte, nem todo.
    Ele é um observador de fora, onipotente, onisciente, e onipresente. Pode tudo (comprar legisladores e juízes, inclusive), sabe tudo (do resultado da próxima reunião do COPOM aos humores do mercado secundário, dentre muitas outras coisas), e está em toda…parte. A única ‘parte’ que lhe interessa.
    Principalmente, no imaginário coletivo dos extratos da população que o sustentam. E que querem ser, ardentemente, ‘parte’ dele.
    O sistema financeiro é um (O, na verdade, já que somos monoteístas) Deus. Somos todos seus filhos, e ‘parte’ dele. Em outras palavras, é uma fraude, como toda religião – mas o que importa, se aceitamos, bovinamente, ser ‘parte’ dessa fraude?
    E de que isso tudo nos serve?
    A mim, serviu para descobrir que, tal e qual a religião a qual nos submetemos voluntariamente, por não a julgarmos fraudulenta (o que ela é, insisto), não há fraude no sistema financeiro; o sistema financeiro é, em si, uma fraude.
    E está, aos nossos olhos, em muito boa companhia: Deus.
    Nutrir esperanças, ou sucumbir ao pessimismo?
    Não sei; cada um que faça a sua escolha. Mas, recordando Camus: “Importa menos ser feliz, do que ser consciente.”

  2. Nuno José Silva Vieira

    11 de outubro de 2024 11:38 pm

    Esse papo de rentismo já está tão sem tempero quanto comida de hospital… Quando Dilma decidiu baixar juros na marra, só conseguiu desestabilizar os demais ativos. Imóveis encareceram na base de 30% ao ano e apenas os especuladores enriqueceram, fazendo com que uma geração inteira de jovens sequer tivesse condição de financiar sua residência mesmo relativamente bem empregados. A Inflação teve que ser artificialmente controlada, assim como o câmbio, que naturalmente se deprecia no diferencial do carrytrade. O juro de longo prazo, que realmente importa, no entanto, nunca caiu, ao revés, só disparou…
    É realmente preocupante ver que nosso país sempre figura entre os que tem maior taxa de juros real, mas reduzi-lo sem um minino de racionalidade e ortodoxia é ainda mais nocivo…

  3. Marcos

    12 de outubro de 2024 3:41 am

    É simples abaixar as taxas de juros, é só o governo parar com a farra de gastar exorbitantemente com a máquina pública fora do essencial, parar com as regalias da realeza dos funcionários públicos, parar com a gastança desenfreada do dinheiro arrecadado dos idiotas pegadores dos maiores impostos do mundo. O problema dos juros é simplesmente consequência dos gastos públicos. No Brasil impostos são usados para o benefício de poucos, e nunca são suficientes, necessitando fazer o governo emprestar do mercado financeiro, que cobra juros para isso, que vemos na forma de taxa de juros.

    1. Moacir Rodrigues de Pontes

      12 de outubro de 2024 6:54 pm

      O gasto exorbitante é justamente com o pagamento dos juros da dívida pública. Dívida constituída porque os mais ricos decidiram que, ao invés de pagar impostos, iriam “financiar” o Estado! Juros para o benefício de poucos…

  4. JOSE OLIVEIRA DE ARAUJO

    12 de outubro de 2024 7:42 am

    O plano real teve um papel decisivo no combate a hiperinflação, mas a contra partida do seu êxito, foi entregar a chave do cofre (BACEN) para o mercado financeiro e transformar o Brasil numa USUROCRACIA. Se alguém tem dúvida deste controle, basta verificar quanto custa aos cofres públicos anualmente, o ppagamento dos serviços da dívida, que em grande parte é gerada artificialmente.

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