Mindlin, Buck e a saga da Metal Leve

Do Último Segundo

Coluna Econômica 17/03/2010

A morte de José Mindlin – semanas atrás – serviu de álibi, no blog (www.luisnassif.com.br) para um interessante levantamento sobre as raízes da industrialização brasileira, especialmente da Metal Leve, a notável fábrica de autopeças da qual Mindlin era acionista. Inclusive com depoimentos de filhos de ex-executivos da empresa.

A Metal Leve tornou-se uma empresa modelo. Fabricante de pistões de automóveis, no início licenciando know how da alemã Mahle. Depois, desenvolvendo sua própria tecnologia.

O controle estava compartilhado por sete acionistas, em partes iguais: Mindlin, Adolf Buck (o diretor geral), Ludwig Gleich, dono da Motorit, uma grande retifica, Abrahão Jacob Lafer, pai do ex-chanceler Celso Lafer, Aldo Baptista Franco da Silva Santos, ex-alto funcionário do Banco do Brasil e dois outros da família Klabin Lafer.

No auge, a Metal Leve chegou a exportar pistões para aviões dos Estados Unidos, a montar um centro de pesquisas e uma fábrica no país.

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Personagem dos mais interessantes era A. Buck. Tinha sido banqueiro em Viena. A família foi exterminada no campo de concentração de Auschwitz, conforme se recordou o comentarista André Araújo, cujo pai foi executivo da empresa.

Chegou no Rio sem recursos, com 60 anos de idade. Para sobreviver, no início chegou a vender banquinhos para torcedores, nos jogos do Maracanã.

Um conhecido conseguiu-lhe um emprego na Motorit. Quando a Metal Leve nasceu, assumiu sua direção operacional, comandando vendas, compras, gerência financeira e recursos humanos. Já Mindlin cuidava das relações externas do grupo.

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A empresa foi filha do modelo de industrialização brasileiro trazido por JK – com a implantação da indústria automobilística. Com as dificuldades de importação, a empresa tinha o monopólio do fornecimento de pistões e bronzinas para as montadoras e para o mercado de reposição, especialmente graças à influência de Mindlin junto à Cacex (Carteira de Comércio Exterior do Banco do Brasil, que regulava as importações).

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Nos anos 90, a abertura rápida da economia, mais a apreciação cambial, levaram à desnacionalização da empresa. Principalmente porque as montadoras começavam a substituir fornecedores locais pelos grandes fornecedores globais.

Algumas das mais importantes empresas de auto-peças nacionais foram engolfadas por esse movimento, entre elas a Metal Leve e a Cofap.

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Chegou a valer US$ 270 milhões na Bolsa. A demora em vender fez com que seu preço caísse para um quarto.

Acabou vendida para a Mahle alemã.

E, aí, uma outra história interessantíssima. Quando a Mahle cedeu a tecnologia para a Metal Leve, era uma pequena empresa de auto-peças alemã que sobreviveu à guerra.

O dono era Ernst Mahle. Seu filho, músico, acabou vindo para o Brasil, radicando-se em Piracicaba, onde montou uma orquestra para jovens.

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Da Metal Leve ficou a lembrança do pioneirismo de migrantes judeus que ajudaram na construção do Brasil industrial.

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