Não aposte em pouso suave pós-pandemia, diz Nouriel Roubini

Tatiane Correia
Repórter do GGN desde 2019. Graduada em Comunicação Social - Habilitação em Jornalismo pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), MBA em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Com passagens pela revista Executivos Financeiros e Agência Dinheiro Vivo.
[email protected]

Em artigo, economista questiona se preços podem ser controlados sem causar recessão -e as evidências históricas sugerem que não

Photo by Jp Valery on Unsplash

O foco do debate econômico em 2021 ficou concentrado se o avanço da inflação nos Estados Unidos e em outras economias avançadas seria transitório ou permanente

Enquanto Bancos Centrais e analistas acreditavam que esse avanço seria provisório por conta de gargalos temporários de oferta e efeitos de base, boa parte dos acadêmicos dizia que a inflação permaneceria elevada devido ao superaquecimento de demanda agregada em níveis excessivos.

No caso, essa demanda seria impulsionada por políticas monetárias frouxas, políticas fiscais excessivamente estimulantes e um rápido acúmulo de poupança das famílias ao longo da pandemia, o que gerou uma demanda reprimida na reabertura econômica.

Em artigo publicado no site Project Syndicate, o economista Nouriel Roubini explica que, além da demanda agregada em excesso, “vários choques negativos de oferta agregada estavam contribuindo para o aumento da inflação – na verdade, para a estagflação (crescimento reduzido ao lado de inflação mais alta)”.

De acordo com Roubini, a resposta inicial à pandemia de covid-19 gerou bloqueios que interromperam as cadeias de suprimentos globais e diminuíram a oferta de trabalho. Além disso, surgiram dois choques de oferta: a invasão da Ucrânia pela Rússia e a resposta “zero covid” da China à variante Omicron, que voltou a afetar a cadeia de suprimentos.

“Com a inflação subindo perto de dois dígitos, o Federal Reserve dos EUA e outros bancos centrais admitiram que o problema não é transitório e que deve ser urgentemente resolvido por meio do aperto da política monetária”, aponta Roubini.

Por conta disso, Roubini diz que o cenário de “aterrissagem suave” sonhado por formuladores econômicos não deve ser alcançado, uma vez que o aumento da inflação “é persistente o suficiente para que apenas um aperto sério da política possa trazê-la de volta ao intervalo da meta”.

“Qual cenário é mais provável? Tudo depende de uma combinação de fatores incertos, incluindo a persistência da espiral salário-preço; o nível em que as taxas de juros devem subir para conter a inflação (criando folga nos mercados de bens e trabalho); e a disposição dos bancos centrais de infligir dor de curto prazo para atingir suas metas de inflação”, diz o economista.

Também seria preciso saber o rumo da guerra da Ucrânia e seu impacto sobre os preços das commodities, assim como o efeito da política zero Covid na China dentro das cadeias de suprimentos.

Segundo Roubini, a evidência histórica mostra que um pouso suave é altamente improvável, deixando espaço aberto para um pouso forçado e a volta da inflação baixa, ou um cenário estagflacionário. “De qualquer forma, uma recessão nos próximos dois anos é provável”.

Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente

Junte-se a nós: www.catarse.me/jornalggn

Leia Também

As possibilidades econômicas de Lula e as consequências econômicas de Bolsonaro, por Nathan Caixeta 

Litro do diesel pode chegar a R$ 10 no segundo semestre

The Guardian: A Rússia está vencendo a guerra econômica – e Putin não está mais perto de retirar as tropas

Tatiane Correia

Repórter do GGN desde 2019. Graduada em Comunicação Social - Habilitação em Jornalismo pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), MBA em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Com passagens pela revista Executivos Financeiros e Agência Dinheiro Vivo.

1 Comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. O foco central das análises econômicas feitas através dos comentários de analistas ligados aos grandes centros é muito mais direcionado às realidades desses países. Até pelo impacto e peso representado pelo conjunto desse grupo, subentende-se que caso suas economias entrem de volta nos eixos, os restantes dos países acabarão por se beneficiar. Quando se refere a demanda agregada acumulada, além de aumento da poupança das famílias, não é sobre a realidade do Brasil e das dificuldades da economia do País que se está analisando. Aperto monetário como medida para conter demanda excessiva e a duração do espiral inflacionário e o impacto no emprego. Nos EUA, inflação acima de 7 porcento e o desemprego na casa de 3,5 porcento ; é um cenário alcançado por essas preocupações. Aqui a pergunta é se a taxa CELIC vai chegar aos 13,75 até o final do ano ou vai ficar nos atuais 12,75 pp. O mundo que importa é o deles, o Brasil faz parte do planeta. Existe importância econômica com o País, mas não é maior do que a que se dá aqui mesmo a ela.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Seja um apoiador