O poder abusivo dos grandes grupos financeiros tornou-se ameaça global. Foi a pior herança do longo período de desregulação financeira, de predomínio avassalador do ultraliberalismo que foi gradativamente destruindo a ordem do pós-guerra.
Os abusos do período acentuaram a concentração de renda, geraram como reação o advento do nacionalismo de ultradireita, estimularam a violência e o desmonte institucional de nações. Mas deixaram uma herança maldita: a enorme concentração de poder econômico e jurídico nas mãos de grandes financistas.
No Chile de Pinochet, nos anos 70, ocorreu fenômeno semelhante. Aproveitando o choque politico provocado pela queda do regime, os ultraliberais da escola de Chicago deram início a um processo de venda indiscriminada de ativos públicos. Chegaram a privatizar o maior banco público chileno, com tal gana que despertaram a atenção do ditador. Ele acabou prendendo parte dos financistas aventureiros, depois de tachá-los de “piranhas financeiras”.
No Brasil, esse tipo de personagem bebeu até o fim nas operações de juros elevados e câmbio baixo que marcaram os governos FHC, Lula e Dilma – com um breve interregno em que os juros foram derrubados, mas não houve força política para mantê-los baixos. Antes disso, deram enormes tacadas em um processo de privatização com cartas marcadas.
Agora, tendo como aríete a Lava Jato, os “piranhas financeiros” brasileiros arrombaram os portões de qualquer institucionalizada, qualquer sistema de freios capazes de conter sua gana e impedir a destruição da máquina pública brasileira.
Dilma tinha enorme quantidade de defeitos, como governante. Mas tinha uma qualidade central: não fazia negócios, sequer para salvar o próprio mandato.
O movimento dos lobistas em direção a Brasilia passou a se intensificar com a perspectiva de fim do governo Dilma e de implantação da tal Ponte Para o Futuro, a pinguela ideológica aplicada no coral uníssono da mídia, e destinado a criar uma falsa legitimação para os maiores negócios com ativos públicos da história da economia brasileira..
Antes disso, a Lava Jato iniciara a rodada final de consolidação da financeirização da economia, destruindo o mais forte setor da economia real – as empreiteiras – e poupando os “piranhas financeiros” através de um acordo com o Banco Central que praticamente livrou-os de punições. E tudo sob o silêncio cúmplice da mídia.
A operação Ponte Para o Futuro foi a concretização desse desmonte, abrindo espaço para a maior queima de ativos públicos da historia, superior até às privatizações do período FHC.
Com a queda de Dilma, Temer acelerou um processo de reformas que com profundas implicações sobre equilíbrio das famílias de trabalhadores. Mudou a Previdência, desmontou a legislação trabalhista, cortou radicalmente verbas para inovação, educação, saúde. E, assim procedendo, teve a biografia limpa pela mídia. Com Paulo Guedes, o governo Bolsonaro prossegue no jogo.
O aríete desse desmonte foi a Lava Jato, ideologicamente alinhada com o financismo, não apenas no perfil deslumbrado de Deltan Dallagnol, classe média abastada cliente de bancos de investimento, como na definição dos alvos. De um lado, a Lava Jato destruiu destruiu a engenharia nacional; de outro poupou os grupos financeiros envolvidos com a corrupção, ante silêncio submisso da mídia.
Hoje em dia, personagens como André Esteves, do BTG-Pactual, passaram a ter ampla influência. Praticamente não tem nenhum poder que atue como moderador, nem o Judiciário, nem a mídia, nem tribunais de conta.
No caso da licitação da Zona Azul, em São Paulo, conseguiu cooptar a Prefeitura Municipal, os conselheiros do Tribunal de Contas do Município, calar os grupos de mídia, influenciar os tribunais. E tratar com mão pesada os poucos recalcitrantes.
Não se trata de movimento eventual.
Nos últimos anos, esses financistas brasileiros descobriram a importância de cooptação de todos os setores fiscalizadores da coisa pública. Investiram em portais de notícia, adquiriram revistas, assumiram o controle de sites e blogs, passaram a remunerar palestras de ministros, desembargadores e procuradores; tornaram-se os maiores anunciantes da mídia tradicional.
O BNDESPAR (o braço de participações do BNDES) passou a investir no mercado através de fundos privados administrados por ele. As propostas de reforma fiscal os têm poupado sistematicamente. As grandes estatais, como a Petrobras, os contratam para projetos de privatização, nos quais atuam na preparação da licitação e, provavelmente, na compra da empresa.
E esse desmonte foi sancionado pelo Supremo Tribunal Federal, ao permitir a privatização de subsidiárias de estatais, mesmo sem a aprovação do Congresso.
As operações de venda geraram enormes ganhos para toda a cadeia improdutiva do mercado, consultores que preparam a venda, escritórios de advocacia, fundos que adquirem as ações. E o resultado final são empresas esvaziadas, perdendo valor.
É um desmonte que não leva em consideração as consequências sobre cada setor. A venda da Eletrobras significará tirar do mercado o único agente moderador de tarifas. Haverá uma explosão das tarifas domésticas e industriais.
Para permitir melhorar a rentabilidade do mercado, no financiamento de longo prazo, aumentaram os custos do BNDES, impactando toda a cadeia de investimentos em infraestrutura.
E todas essas instituições – mídia, Supremo, Judiciário, Congresso – fecham os olho para o desmonte das políticas científico-tecnológicas, as políticas sociais, o SUS, as universidades.
Passado o pesadelo, a reconstrução do país estará irremediavelmente comprometida, sem as ferramentas básicas para a recuperação do dinamismo econômico.
Paulo Araujo
3 de setembro de 2020 7:48 amNassif, desculpe.
Mas por que você acha que alguém, dos que têm poder, vai se preocupar em reconstruir o País???
Não é um desmonte.
É uma reconfiguração.
Ainda mais que controlam todas as instâncias de Poder.
Se olhares do ponto de vista deles, tem lógica.
Mas não há nenhum humanismo aí.
Só dureza e implacabilidade na veia!
Quem não for viável (aproveitável) será descartado, e que se vire de alguma forma.
Igual a uma empresa deficitária.
Hoje é mais fácil de levar o dinheiro embora. E sabemos que boa parte dele já está fora mesmo.
Crise? Ela não existe para a finança.
Sempre ganham.
Vai piorar.
O Brasil, acabou.
E foi de propósito.
E será para sempre.
Renato Lazzari
3 de setembro de 2020 10:53 amDesculpe, caro Paulo Araujo, mas essa retórica é a mesma de outro Paulo, o Guedes.
É claro que O Brasil não acabou – o Brasil não é uma firma é um país, e um país não acaba nunca – e que esse golpe do capitalismo é passageiro, instável, insustentável. Ou melhor, só pode ser sustentado com violência. Considerando que para manter o controle, a violência tem que ser crescente, há o momento em que esse golpe será desfeito. E esse é um momento delicado: ou se arranca o mato pela raiz ou ele volta a crescer. Sem metáfora, ou se repete o erro da turma do Ulysses Guimarães – anistia aos criminosos que corromperam a democracia, sendo eles militares ou civis, donos ou empregados da iniciativa privada ou funcionários públicos, tanto faz – ou se cria uma democracia mais sólida. Como já vimos, pouco adianta criação de leis, a CF de ’88 é prova disso. O que é necessário, e já está sendo feito em escala e profundidade inimagináveis para os golpistas, é a aquisição cultural de cidadania. Para isso tanto os mais civilizados trabalham quanto temos tido a colaboração dolorida das lições impostas pelos selvagens. A barbárie do capitalismo finalmente mostrou sua cara, é impossível não vê-la, tanto em reflexões quanto na prática: no mínimo o Chile está aí como prova concreta de como o capitalismo sequestra as possibilidades de prosperidade individual e soberania nacional. Por outro lado a China não apenas está sabendo se impor sem violência como também tem sabido promover a prosperidade individual de seus cidadãos. Capitalismo – o pessoal chama de Capitalismo de Estado – controlado, administrado… civilizado, enfim, e não bárbaro, selvagem, primitivo como é o do dólar.
De qualquer forma, se se quiser evitar engano em previsões, não se decrete o fim da civilidade nem do nosso país por causa apenas dessa passageira invasão bárbara.
naldo
3 de setembro de 2020 11:25 amA excrescência é essa moda por reformas desrespeitando a CF, é golpe, é mutreta, é roubo, e uma muleta para canalhas e larápios enriquecerem as custas do Estado negando-o…….. reformas são desrespeito as leis e ao povo brasileiro, e tem que acabar, a constituição é para ser respeitada e não mutilada pelos canalhas e gatunos da hora……
paulo araujo
3 de setembro de 2020 7:18 pmAmigo, não gosto nem quero viver o que estamos vivendo.
Se dei a perceber que concordo, é o contrário.
Mas não vou me iludir.
Mesmo quando o Golpe ainda não tinha acontecido, já percebia o que viria.
Pois é, tivemos o Golpe e o resto é o que se viu e vê.
Sou leitor no Nassif há muitos anos, desde o Dinheiro Vivo.
E sempre me espanto pelo otimismo dele em relação a pessoas.
Sempre tenho a impressão de que ele acha que os caras fazem o que fazem não por vontade e sim por algum engano.
E que se informados mudarão o rumo.
Isso jamais me impedirá de voltar aqui, porém.
Para os poderosos, cada um de nós é uma laranja que pode ser espremida até tirar o suco. Depois, é só pegar a próxima.
A condição atual do Brasil é de uma suruba bem louca, e todos querem pegar uma carona nela antes que a música acabe.
Como se não houvesse amanhã.
Falar em preocupação neste clima chega a ser estranho. Ninguém se preocupa com nada, mas cada um quer pegar sua parte.
Vale para tudo.
Seja floresta depois de queimada, empresas públicas, serviços a população, sei lá…tudo, é uma suruba!!!
Se eu fosse um estrangeiro, olharia para o Brasil atual com espanto e curiosidade, para saber como é que pode ter um lugar assim.
Mas eu não sou.
Me sinto como se estivesse no Titanic, na viagem.
Mas tivesse visto o filme, antes.
Abraço.
Ugo
3 de setembro de 2020 7:49 amO dilema é construir ou reconstruir, a velha Europa mesmo destruída no conflito da segunda grande guerra conseguiu Reconstruir o País, ainda existia uma massa intelectual que fascismo e nazismo não tinham sufocado. Foram estas verdadeiras lideranças a superar os ódios criados pelas ditaduras e colocar as bases da UE.
Na terra da Santa Cruz existem lideres pátrios para Construir?
Joel lima
3 de setembro de 2020 8:06 amOs rentistas são os senhores de escravo 2.0 . Chegará um momento em que os governos terão de enfrenta-los se não quiserem o caos. Quase certo que assim como o Brasil foi o último país a acabar com a escravidão ele também será último a sair das garras do rentismo. Mas será que haverá ainda Brasil antes desse dia chegar ?
DINIZ KLEIN
10 de setembro de 2020 9:35 amMentira, o último país a acabar com a escravidão foi a Mauritânia na década de 1980. Os EUA só acabaram com a segregação racial em 1965, no fim das Leis Jim Crow.
Eugenio L. da Costa
3 de setembro de 2020 8:42 amCaro Nassif,
Observando as condenações sem provas do LULA, e as blindagens dos corruptos tucanos de do ex presidente TEMER, percebe-se que há um Judiciário Brasileiro, algo por trás, porque está mais a serviços do ricos ou poderosos do que fazer JUSTIÇA. Ora, pensando com caso de Serra e Temer, há um toma lá e dá cá, quantos favores fizeram Serra, Aécio e Temer a estes que os protege no Judiciário? Pra mim parece ser está troca de favores que os protege – O TRÁFICO DE INFLUENCIA. COMO O PRES. LULA NÃO SE PRESTOU A ESSA TROCA DE FAVORES, ELE FOI PERSEGUIDO.
Caro
3 de setembro de 2020 9:51 amSou leitor assíduo do ggn, o que há de melhor na imprensa brasuca. Não preciso discorrer sobre a importância da publicidade para a manutenção do saite. Ocorre que uma avalanche de anúncios já há tempos tem atrapalhado a leitura. Daí a pergunta, sem o menor traço de malicia: assinantes se vêem livres dos anúncios?
CLAUDIO
5 de setembro de 2020 6:57 pmColoque um bloqueador de anúncios ADB
Caro
12 de setembro de 2020 2:15 pmOi Cláudio, grato pelo toq. Acredite: até hj espero por uma resposta — sigo sem saber se assinante fica livre anúncios. Fui um potencial assinante desse q considero dos mais lúcidos portais de notícias. Fui…
Yuri Berezovoy
3 de setembro de 2020 10:11 amParabéns Nassif, um dos poucos que falam abertamente da apropriação de governos por bancos ou corporações. Devíamos ir além, ao ler os outros comentários, as pessoas assumem a premissa da maçã podre, onde se removermos os mais atores e políticos tudo utopicamente funcionará com humanismo. O golpe de violência que não percebemos é que estruturas de governo são criações historicamente desenhadas pelo topo da pirâmide, moldadas como as sociedades secretas e cultos, hierarquizadas e compartimentalizadas, com o sol, aquele que carrega a luz, no topo, exercendo sua autoridade sobre seus sujeitos que obedecem não voluntariamente, mas por medo de punição e coação, visto que a base do estado de direito são ações coercitivas. Coação não é um direito, não importa quantos juristas escrevam que é. Não existem governos, só existem bancos e corporações. Uma maçã podre compromete todo o cesto, governos são cultos, a única forma igualitária de se organizar é com voluntariado e horizontalidade. O único empenho da raça humana não deve ser ficar correndo eternamente para corrigir sintomas de suas doenças, mas sim o de fazer a todos entenderem que Direitos não são constitucionais, mas existenciais, e que a única solução é difundir o conhecimento para que cada um seja governante de si mesmos, só assim deixaremos de ser escravizados por entidades e atores externos.
peregrino
3 de setembro de 2020 10:31 amFomos jogados nas garras da ambição suprema…
algo assim como a recolonização, pelos rentistas, de um país já dividido em capitanias hereditárias
coronelismo tradicional, mas nas mãos de um só representante
Lucinei
3 de setembro de 2020 11:06 amA esquerda radical (sic) ABUSA de desperdiçar oportunidades de deixar claro que o capitalismo É a corrupção, que a superfatura É a “lei do mercado”…
Claro, atacar o PT, PT, PT e a esquerda reformista é muito mais cômodo; confrontar o bloco da direita dá mais trabalho.
Lucinei
3 de setembro de 2020 11:10 amA esquerda radical (sic) ABUSA de desperdiçar oportunidades pra deixar claro que o capitalismo É a corrupção, que a superfatura É a lei do mercado…
Claro, atacar o PT, PT, PT e a esquerda reformista é sempre mais cômodo; confrontar o bloco de direita dá mais trabalho….
Marco Vitis
3 de setembro de 2020 11:50 amNelson Jobim continua empregado de André Esteves ?
Mas o Nelson Jobim não é tido como uma pessoa de “reputação ilibada” ?
E o notável Pércio Arida continua sócio de André Esteves?
Mas o Pércio Arida não é tido como uma pessoa “íntegra, incorrupta” ?
uberdan alves de oliveira
3 de setembro de 2020 12:32 pmGostei das informações do jornal. Infelizmente, continuamos sendo saqueados. Mais de quinhentos anos de saque. Até quando? Se o Brasil é o paraíso dos financistas, é porque antes há um investimento alto, que gera lucros estratosféricos, na produção da educação alienante das massas, nas escolas e fora delas. Acredito que as Universidades públicas precisam se aproximar do ensino fundamental e médio, de modo permanente. Há um abismo. O inimigo do professores, não são professores. A provação do FUNDEB, como permanente, só se materializá-la em benefícios reais, se cada professor, aluno e pais de alunos, terem pleno conhecimento do conteúdo EC -108, e lutarem por sua efetivação.
José Américo
3 de setembro de 2020 10:17 pm“As operações de venda geraram enormes ganhos para toda a cadeia improdutiva do mercado, consultores que preparam a venda, escritórios de advocacia, fundos que adquirem as ações. E o resultado final são empresas esvaziadas, perdendo valor.”
Os custos de um IPO variam de 2,5 a 5,5%. Tudo para se fazer, basicamente, arquivos sob modelo padrão. É algo, em tudo, similar a uma atividade cartorária. É uma remuneração absurda e para um mercado, de fato, absolutamente produtivo. Ora, existindo linhas de financiamento ao capital produtivo com taxas de 5% ou mesmo levemente superiores, é evidente que não faria qualquer sentido assumir um custo de captação dessa natureza (pago à vista, praticamente).
É uma ciranda giratória – o mercado financeiro se retroalimenta com taxas sobre taxas, embutidas e/ou sem qualquer transparência.