
A política comercial implementada pelos Estados Unidos no governo de Donald Trump representa uma ruptura direta com o multilateralismo defendido pela OMC.
O acesso ao mercado americano, antes regido por regras claras, passou a ser usado como instrumento de pressão política, conforme aponta a análise de Carla Norrlöf, professora da Universidade de Toronto.
Em artigo no Project Syndicate, Norrlöf destaca que as tarifas de Trump não se baseiam em critérios econômicos objetivos — como déficits comerciais ou dependência de mercado —, mas sim em interesses geopolíticos, recompensando países alinhados e punindo aqueles que mantêm autonomia estratégica.
Embora a justificativa oficial tenha sido a correção de déficits, a lógica não se sustenta. Países com maiores déficits — como União Europeia (-0,85 % do PIB dos EUA), México (-0,62 %), Vietnã (-0,45 %) e Japão (-0,25 %) — enfrentaram tarifas moderadas (15 % a 25 %).
Em contraste, o Brasil, que mantém superávit (cerca de +0,03 % do PIB), foi duramente atingido com uma sobretaxa de 50 %, evidenciando o caráter político do tarifaço de Trump.

O governo brasileiro classificou essa medida como uma “ingerência política”, e informou que acionou a OMC para consultas formais sobre a abusividade das tarifas — o que reforça seu posicionamento em defesa do comércio multilateral.
Além disso, setores da indústria apontaram que a medida gera impactos desiguais e atinge diretamente a soberania nacional. Para a FIESP, o Japão e outros parceiros, usar justificativas não econômicas “quebra todo o regramento comercial e o direito internacional”.
Até economistas americanos expressaram surpresa: embora Trump alegue déficits comerciais, os EUA realmente têm superávit com o Brasil. Eric Rosengren, ex-presidente de um escritório do Federal Reserve, classificou a tarifa como “um uso estranho das tarifas” e sinalizou que isso afetará os preços do café sem alterar o cenário político no Brasil.

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