Por Marcio Tambelli
Comentário ao post “As dificuldades comercias dos produtores de frutas orgânicas“
Nassif,
trabalho em um delivery de produtos orgânicos que compra diretamente com a Luciana no Ceasa, a cadeia de frutas orgânicas padece de outros problemas além da dificuldade em escoar a produção, vamos a eles:
1-Ineficiência da cadeia: a inexistência de rotas constituídas para absorção de frutas vindas principalmente da região Nordeste. Não se consegue comprar frutas dos produtores do Nordeste sem a compra de um lote mínimo pedido pelos produtores (na casa das toneladas). Isso inviabiliza os pequenos distribuidores a terem disponibilidade de produtos, bem como, impede que seja garantida produtos com qualidade e a preços competitivos(máximo de 30% acima do convencional) . Falta organização logística a cadeia, pode-se avançar em logística reversa, redes de produtores, pontos de distribuição.
2-Certificação: ao se debater sobre o mercado orgânico é necessário se debater sobre as certificadoras e o monopólio exercido por elas. A certificação custa caro e influencia o preço do produto comercializado pelos produtores. Para se vender um produto como orgânico é preciso provar que aquele alimento foi produzido de acordo as regras que orientam a produção orgânica, isso garante a procedência do produto bem como a garantia do preço adequado para o produtor. As certificadoras garantem aos consumidores a procedência do alimento, só que a um custo exorbitante para o produtor, além da necessidade de se renovar a certificação a cada ano. Um exemplo esperançoso sobre esse debate é a Rede Ecovida, a maior rede de produtores orgânicos do Brasil, que organizou os produtores da região sul do país, inclusive estabelecendo as rotas de comércio nessa região e certifica seus membros através da certificação participativa (os próprios produtores certificam as propriedades uns dos outros).
3-Aparência x Qualidade: criou-se um mito que produtos orgânicos são feios, muchos, sujos entre outros adjetivos. O que o produto orgânico definitivamente não é: padronizado. No post que deu origem esse a outro post, o assíduo comentarista deste blog Sanzio, comete um equívoco ao colocar os produtos orgânicos como de má qualidade e caros (sabiamente rebatido pela Marcinha). Na verdade a produção orgânica no Brasil atingiu a excelência em diversos produtos, e como eu trabalho diariamente a dois anos com produtos orgânicos, tenho nas frutas o maior desafio do nosso trabalho bem como a maior satisfação. Estamos acostumados a chegar no supermercado e olhar aquelas maçãs brilhando, pessêgos do tamanho de um punho e ameixas importadas como se fossem o máximo, a aparência da fruta conta mais que o sabor e a qualidade. É no consumo de frutas que percebemos de forma mais clara a diferença entre os orgânicos e os convencionais e é onde a padronização que a própria Luciana cita na matéria, não corresponde.
4-Preço: sim, o alimento orgânico é mais caro. Por que? Uma série de fatores elevam o preço do produto orgânico, especialmente frutas e legumes: certificação, necessidade de maiores cuidados com a produção, ineficiência logística, maior remuneração ao trabalho do produtor, dificuldades de comercialização e competitividade entre quem vende orgânicos e finalmente, o que foi a notícia do outro post, o preço limita o acesso aos orgânicos as classes com maior poder aquisitivo. Costumamos dizer aqui no trabalho a quem reclama do preço: o alimento orgânico não é mais caro ele é mais valioso.
5-Comercialização: quem mora em São Paulo não tem dificuldade em conseguir alimentos orgânicos. Temos diversos deliverys de alimentos, lojas específicas, 6 feiras sendo as principais as do Parque da Água Branca e recentemente a do Parque do Ibirapuera (no modelodromo perto do Círculo Militar) onde muitos preços rivalizam com os convencionais. Na comercialização temos muitas opções, está faltando nesse momento é consumidores.
6-Reeducação Alimentar: uma das etapas mais difícies a consolidação do mercado orgânico, é a necessidade de se reeducar os nossos hábitos alimentares. Principalmente com relação as famosas porcarias, junkie-food, guloseimas. A alimentação através de produtos orgânicos estabelece outro vínculo com o produto consumido, esse alimento faz parte de um outro ciclo de produção e consumo que é dissociado da produção convencional, por mais que essa seja a referência tanto de produção quanto de comercialização. Por isso que sempre perguntamos: O que você alimenta quando você se alimenta?
Para finalizar, o box da Luciana no Ceasa existe a cerca de 4 anos, compramos produtos dela a igual espaço de tempo, grande parceira.
Recomendo a leitura de “A revolução de uma palha” de Masanobu Fukuoka.
Bom, espero ter contribuído um pouco mais para o debate!!!!
Deixe um comentário