Na semana passada, relatei as dificuldades da agricultura africana em relação à mão de obra. Baixa remuneração, péssimas condições de trabalho e desânimo das novas gerações com a atividade fazem reproduzir o mesmo êxodo que ocorreu no Brasil.  

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Fui mais longe. Aproveitando a atualidade do tema sobre o trabalho doméstico, me referi às atividades rurais no Brasil, onde persistem queixas, sobretudo em médias e grandes propriedades, quanto às exigências trabalhistas.

Numa situação próxima do pleno emprego, como a brasileira, ou que caminha nessa direção, como a de certos países da África, será muito difícil obter mão de obra rural se esta não for bem remunerada e em condições dignas.

Uma alternativa é apoiar seriamente o empreendimento individual ou familiar.

Assim, não será o pequeno aparelho de controle e fiscalização com que conta o ministério do Trabalho que irá reduzir a oferta de trabalhadores do campo. Isso ficará por conta das leis de mercado que regem o sistema econômico em que vivemos.

No Brasil, a população rural que crescia a uma taxa de 1,6% ao ano na década de 1950, hoje cai na mesma proporção. Sem atratividade, a oferta de mão de obra no campo tende a diminuir ainda mais. “Borandá”, certo Edu Lobo?

Evidentemente, estamos diante de um fator que passa longe das preocupações de quem está investindo forte na compra de terras na África.

Para garantir segurança alimentar e energética, antes de tudo, é preciso ter disponibilidade de terras agricultáveis. É um começo e que pode ser comprado. Se juntos vierem recursos hídricos e bom clima, melhor ainda. Labor humano apenas enquanto sobrar e for barato.

Mas isso não é tudo. Caso contrário, o Brasil não ocuparia a posição que ocupa como produtor e exportador de alimentos, fibras e energia renovável.

Nas últimas décadas, mecanização e inovação tecnológica têm feito a diferença. Especialmente, em países de alta concentração fundiária.

Nos dois artigos precedentes sobre o tema, vimos que, descontadas as áreas desérticas da África e as amazônicas do Brasil, ainda assim, o território africano é, aproximadamente, quatro vezes maior do que o brasileiro.

Pois bem, consideremos para as duas regiões os seguintes grupos de produtos, importantes pelos seus valores no mercado internacional e seguranças alimentar e energética: cereais, oleaginosas e cana-de-açúcar.

Segundo dados da FAOSTAT, em 2011, a África plantou essas culturas numa área duas vezes e meia maior (133 milhões de hectares) do que se fez no Brasil. Produziu três vezes menos (290 milhões de toneladas).

Motivo: produtividade através da aplicação de tecnologia.

Vejam as produtividades comparadas África x Brasil em kg/ha:

Cereais (1.546/4.038);

Oleaginosas (1.649/3.376);

Cana-de-açúcar (55.041/76.448)

No total desses três grupos de culturas, de um mesmo hectare, o Brasil tira oito vezes mais produtos do que a África.

É quase certo que, depois dos investimentos em terras africanas, as inovações tecnológicas agrícolas e pecuárias chegarão ao continente.

Tanto quanto o Brasil, o futuro celeiro do planeta poderá estar lá.