22 de maio de 2026

TVGGN: As favelas brasileiras são o exemplo de Estado realmente mínimo

Renato Meirelles, do Data Favela, ressalta a importância do combate às fake news, que reforçam estigmas e travam o desenvolvimento das comunidades
Crédito: Reprodução/ TVGGN

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O mercado financeiro, os economistas liberais e a mídia tradicional cobram, incansavelmente, que o governo federal preze pelo déficit zero, mesmo que para isso tenha de cortar investimentos nas áreas de infraestrutura, educação e saúde. 

Mas, para Renato Meirelles, presidente do Data Favela e membro do conselho de professores do IBMEC, o maior exemplo de Estado mínimo que temos hoje e sua respectiva realidade são as periferias de todo o país. 

“Se tem um lugar em que o Estado não existe é na favela. A favela é a concentração geográfica das desigualdades brasileiras onde o Estado não tem nem o monopólio da força, garantido pela Constituição”, observa o convidado do programa TVGGN 20H da última sexta-feira (12). 

Na última semana, o Data Favela lançou um estudo sobre o impacto das fake news na vida de 16 milhões de brasileiros moradores de comunidades. 

“Em geral, quando perguntamos às pessoas como elas veem as favelas, o que vem são cenas de violência, tráfico de drogas, agressão e de extrema pobreza. Quando repetimos a mesma pergunta para pessoas da própria favela, vem alegria, senso de comunidade, trabalho e esperança”, comenta Meirelles. 

Assim, o pesquisador conclui que a visão de quem não mora da favela tem das favelas é uma visão muito estereotipada, muitas vezes acaba sendo reforçada pelas fake news.

“Um exemplo bastante claro: quando deputados da extrema direita acusaram o então ministro da Justiça, Flávio Dino, de ter conseguido entrar em uma favela porque pediu para o tráfico, qual é a mensagem implícita nisso: que na favela só tem bandido”, continua o entrevistado.

Oportunidades

O reforço de tal estereótipo resulta em prejuízo econômico para a população, que além de representar 9% dos lares brasileiros, movimenta mais de R$ 201 bilhões por ano. 

“Ou se trata as fake news ou vamos ter um prejuízo econômico muito grande no desenvolvimento das favelas, seja porque aumenta o estigma, seja porque tem um prejuízo para os consumidores das favelas”, comenta Meirelles. 

“Mentiras fazem com que os empreendedores de favela que dependem muito da internet para vender os seus produtos vendam menos porque o consumidor tem medo de ter os dados hackeados”, emenda o entrevistado. 

Potência

O Brasil soma 148 milhões de pessoas que pertencem às classes C, D e E, população superior à da Alemanha (83 milhões) e Espanha. 

Já em relação às favelas, são 11.400 comunidades espalhadas por todo o território nacional, que, apesar do estigma negativo, concentram todas as características dos líderes do futuro, elencadas pelo Fórum Econômico Mundial de Davos: resiliência, capacidade de trabalhar em grupo, capacidade de trabalhar com a adversidade. 

Segundo Meirelles, quando uma pessoa cresce em uma favela, ou ela desenvolve tais habilidades ou estará perdida. 

“A lógica da solidariedade na favela é o que faz ter o lado da potência, não só o lado da carência, o lado que movimenta mais de R$ 200 bilhões no Brasil. Mas na periferia, da mesma forma que foi impactada pelo coronavírus, está sendo impactada agora pela epidemia de fake news”, alerta o convidado. 

Além do impacto das fake News, Renato Meirelles falou ainda sobre a importância do empreendedorismo e da riqueza da tecnologia social desenvolvida nas comunidades. Confira o bate-papo na íntegra em:

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Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É repórter do GGN desde 2022.

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

6 Comentários
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  1. Leandro

    14 de julho de 2024 10:00 pm

    O pesquisador já foi morador de favela? A favela realmente é o microcosmo e o macrocosmo da desigualdade social e econômica brasileira, não é somente um lugar em que o Estado (União,Estados, Municípios) não tem sequer o monopólio do uso da força, mas também um lugar em que o próprio Estado exerce o uso da força, sob a forma de pressão e opressão social, ao manter tais favelas como “realidades” sociais da existência de milhões de brasileiros, isto é, como realidades sociais da existência política do país. A ideia de que quem vê a favela pelo lado de fora tem uma visão estereotipada por enxergar ou associar à ela imagens de violência, tráfico de drogas e extrema pobreza, será que não é por demais simplista? Quem vê a favela pelo lado de fora busca ter uma visão dela enquanto um espaço geográfico-social inserido no espaço geográfico-social maior da Cidade e não enquanto espaço de experiências comunitárias particulares produzidas pelos arranjos sociais internos dela (e buscando ter uma visão da favela enquanto um espaço geográficos-social inserido na cidade, o que se vê dela ou nela não é carência, pobreza, violência? Em favelas da zona sul do Rio de Janeiro é possível encontrar pessoas vivendo não como gente mas em condições em que parece que são animais, a violência criminal existente nelas é uma realidade, o tráfico de drogas tomou posse da maior parte delas infelizmente). As idéias ou visões que a maior parte dos moradores de favela tem delas, como um lugar de refúgio, de identidade, de solidariedade e de alegria, podem, por sua vez, ser vistos também como lugares comuns produzidos pelo efeito dos arranjos sociais-comunitários internos delas (favelas), que funcionam em oposição à política de exclusão social das Cidades em relação à elas. Olhar e tratar as favelas simplesmente como espaços de maior potencial econômico ou de potencial relevância econômica para a Cidade é tratar e olhar e buscar resolver profundamente o conflito social e político entre favela e Cidade, entre favela e governos, entre favela e sociedade? Quando da chamada “Retomada do Morro do Alemão” se ouviu muito em telejornais do Rio de Janeiro (TV Globo): “Agora a Comunidade deve ser integrada na vida da cidade, ali há um grande potencial econômico, a favela tem que crescer”. Isso foi mais ou menos a ideia que se criou em um período do governo do PT, de uma nova classe C. Mas essa suposta nova classe C era só uma classe pobre que temporariamente se tornou consumidora, que alcançou temporariamente um maior poder de compra e logo decaiu, mas que junto ao poder de compra sequer alcançou índeces de desenvolvimento humano dignos, ainda que temporários. Ah! Já fui morador de favela e graças à Deus não sou mais. Na favela tem gente trabalhadora? Sim e muito trabalhadora, assim como fora da favela também tem gente trabalhadora (mas sem ter o ônus de viver em um local de carência, de violência. Então, por favor, sem romantismo babaca).

    1. Marco Paulo Valeriano de Brito

      15 de julho de 2024 2:34 pm

      Você têm razão Leandro.
      Só superaremos esses conceitos superando o capitalismo.
      Em todo o mundo capitalista há grandes desigualdades econômicas e sociais, claro que mais ou menos, conforme o grau de poder e hegemonia de cada país capitalista, central ou periférico, contudo, as desigualdades humanas estarão lá evidentes.
      Só o socialismo consegue ir superando as desigualdades, claro que não é da noite pro dia, e quando falo de socialismo digo, desde o socialismo capitalizado, como dos países escandinavos, até o híbrido, como estamos vendo se desenvolver na China.
      O modelo soviético, stalinista, não deu resultados, portanto, creio que mesclar as experiências escandinavas (Dinamarca, Finlândia, Islândia, Noruega e Suécia), com a chinesa, com novos modelos ambientalistas, Eco-Humanistas, devem ser o rumo a ser tomado para o futuro da humanidade, diminuição das desigualdades e salvaguarda do planeta Terra.

      Aquele abraço,

      Marco Paulo Valeriano de Brito
      Enfermeiro-Sanitarista, Professor-Pesquisador, Gestor e Servidor Público Federal

  2. jura

    15 de julho de 2024 12:26 pm

    Ele comeca criticando o estado minimo, ausência do Estado nas favelas e do seu monopólio da força, enquanto essa é a única presença do Estado nelas.

    E termina enaltecendo o empreendedorimo, a solidariedade e a capacidade de trabalho dos favelados como soluções para a falta de segurança e trabalho…

    O emprego dele no IBMEC na Cinelândia do Rio de Janeiro está garantido, mas até mesmo lá falta Estado. Basta dar uma volta na Cinelândia pra ver que tudo que falta no morro falta lá também…

    1. jura

      16 de julho de 2024 1:55 am

      “Favela” é uma árvore nordestina que produz favas. Havia uma no alto do morro em Canudos onde os canhões no exército brasileiro atiravam nos brasileiros da cidade.

      Depois de destruir os lares de Canudos, os soldados foram morar no morro da Previdência por falta de moradia, que foi chamado de favela em memória a Canudos.

      Favela, portanto, também é uma obra do Estado mínimo.

  3. Marco Paulo Valeriano de Brito

    15 de julho de 2024 2:36 pm

    Você têm razão Leandro.
    Só superaremos esses conceitos superando o capitalismo.
    Em todo o mundo capitalista há grandes desigualdades econômicas e sociais, claro que mais ou menos, conforme o grau de poder e hegemonia de cada país capitalista, central ou periférico, contudo, as desigualdades humanas estarão lá evidentes.
    Só o socialismo consegue ir superando as desigualdades, claro que não é da noite pro dia, e quando falo de socialismo digo, desde o socialismo capitalizado, como dos países escandinavos, até o híbrido, como estamos vendo se desenvolver na China.
    O modelo soviético, stalinista, não deu resultados, portanto, creio que mesclar as experiências escandinavas (Dinamarca, Finlândia, Islândia, Noruega e Suécia), com a chinesa, com novos modelos ambientalistas, Eco-Humanistas, devem ser o rumo a ser tomado para o futuro da humanidade, diminuição das desigualdades e salvaguarda do planeta Terra.

    Aquele abraço,

    Marco Paulo Valeriano de Brito
    Enfermeiro-Sanitarista, Professor-Pesquisador, Gestor e Servidor Público Federal

  4. Leandro

    15 de julho de 2024 7:04 pm

    Mas quem, no mundo ocidental, tem hoje em dia coragem de falar claramente e mais do que isso, de assumir claramente uma postura ou ação anticapitalista? Os ditos partidos de esquerda não se diferenciam dos partidos de direita em termos práticos e muitas vezes mesmo teóricos (parece que tudo o que tem de diferente é uma retórica frágil). Falar e agir politicamente contra o capitalismo é mesmo um escândalo, afirmar ser socialista e o socialismo o único modo de existência política, social e econômica viável para uma sociedade alcançar uma prosperidade comum, igualitária, é considerado um desvario ou uma imbecilidade (e muitos realmente se acovardam de assumir uma postura socialista, ainda que apenas ideológica). Vivemos tempos difíceis. Prefiro compreender o Brasil ao lado da grande população pobre do país (porque somos um país de gente pobre), isto é, prefiro compreender o país a partir do seu ponto fundamental de entendimento: a desigualdade abissal entre ricos e pobres. Acho que não compreender o país assim vai levar sempre a fórmulas do tipo:Vamos fazer o bolo crescer para depois dividi-lo. A própria idéia de neoindustrialização do país aventada aqui no GGN, pelo Sr. Luis Nassif, levará à isso, porque como já foi dito por ele: “O importante é aumentar a produção, desenvolver o país, mas com preocupação social”. (tudo isso dentro do modo capitalista de existência) Esse “mas” deixa adivinhar muitas coisas.

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