CPI da Covid: desvios da saúde, cocaína e cigarros, a grande indústria do crime

Bertholdo comemorando a vitória de Rodrigo Maia para presidência da Câmara

Se a CPI do Covid quiser ir a fundo no levantamento da corrupção, há uma figura-chave. E com uma facilidade, já está detido em São Paulo, acusado de envolvimento nos rolos do IABAS, o instituto acusado de desvio de recursos na gestão Wilson Witzel, no Rio de Janeiro.

Trata-se de Roberto Bertholdo, advogado conhecido de Curitiba, operador de vários políticos nacionais.

Ganhou notoriedade anos atrás, ao grampear o telefone do ex-juiz Sérgio Moro e, depois, ser esmagado por ele.

Tornou-se um dos principais operadores do Centrão. Quando o deputado Ricardo Barros tornou-se Ministro da Saúde – no suspeitíssimo. Governo Temer – Bertholdo aproximou-se da área da saúde. E teve papel relevante na eleição do presidente da Câmara, Rodrigo Maia.

O caso Voetur

Em seu período de Ministro, Barros fechou a Central Nacional de Armazenagem e Distribuição de Imunobiológicos e passou a operação para uma empresa do grupo brasiliense Voetur.

Jogou fora toda uma experiência acumulada para transporte de vacina, com perdas mínimas. Técnicos especializados foram demitidos, todos eles com curso de especialização em redes de esfriamento desenvolvidas junto com a Fiocruz.

O caso Covaxin

No dia 19 de fevereiro, o Diário Oficial da União publicou um extrato de dispensa de licitação, permitindo a aquisição da vacina Covaxin, do laboratório indiano Bharat Biotech, sem licitação, no valor de R$ 1.614.000.000,00.  Na operação está incluída um misteriosa intermediária, a Precisa, sem clareza sobre seu papel na operação ou sobre quem representa. E com capital social de R$ 13 milhões.

Os rastros de Ricardo Barros estão em toda a operação. Confira:

* O sócio administrador é Francisco Emerson Maximiano, mas que só ingressou na empresa em 25.06.2020, quando a pandemia já estava em andamento.

* A sócia não administradora é a Global Gestão em Saúde S/A. Anote o nome.

Até então a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) sequer vistoriara as fábricas da indiana Coaxin. Não havia pedidos para uso emergencial ou aplicação em massa no país. A vistoria foi feita e não foi aprovada.

As dúvidas não param por ai.

A Global Gestão em Saúde S/A da Precisa Medicamentos, tem dívida de R$ 19,9 milhões com o Ministério da Saúde. Venceu uma licitação de 2017, para fornecer medicamentos fundamentais para pacientes de 152 doenças raras. Recebeu o pagamento de forma antecipada e não entregou o combinado. Apresentou o menor preço, mas não era distribuidora de medicamentos, e não tinha autorização de funcionamento fornecida pela Anvisa.

Tentou, então, adquirir comprar os medicamentos no mercado internacional, mas não apresentou à Anvisa a autorização da importação pelo detentor do registro do fármaco.

O Ministro da Saúde era Ricardo Barros.

O caso provocou uma ação civil pública do Ministério Público Federal do distrito Federal contra Ricardo Barros. A tramitação é na 21a Vara Federal, mas ainda não foi julgado.

Mesmo com todos os sinais de que a compra não seria efetuada, Barros não tomou nenhuma decisão em defesa dos pacientes.

A procuradora da República Luciana Loureira, segundo O Globo, sustentou que “vem realizando atos administrativos em favor da Global por razões até o momento inexplicáveis à luz do interesse público. Em vez de rescindir o contrato e convocar a segunda colocada, a pasta procedeu a injunções, perante a Anvisa, pela flexibilização das exigências, para liberar a importação da Global”. 

O caso do Banco Neman

Nos últimos meses, a Polícia Federal mostrou sinais claros de que o esquema convivia em um mesmo ambiente com o setor de cocaína do PCC (Primeiro Comando da Capital).

No início de maio, a revista Piauí publicou reportagem de Allan de Abreu sobre o Banco Neman.

Era um banco sem correntistas. Atuava na cobrança de dívidas, recebia depósitos de empresas devedoras usando contas em bancos convencionais e entregava em espécie para a empresa credora em poucos dias ou horas. Ou seja, um quadro claro de lavagem de dinheiro.

Atuava em cima de três esquemas criminosos: o tráfico de cocaína, o contrabando de cigarros do Paraguai e os recursos da saúde. Ou seja, um amplo campo para as investigações da CPI do Covid.

Sua sede ficava dentro do Aeroporto Campo de Marte, em São Paulo, perto de um avião.

O banco nasceu em 2016, de propriedade do doleiro Dalton Baptista Neman e do filho Carlos. Em 3 anos movimentos R$ 321 milhões. Coincidentemente, no mesmo prendo em que Bertholdo passa a atuar na saúde, no embalo da indicação de Ricardo Barros para o Ministério.

O dinheiro era depositado na conta de um banco convencional e circulava por diversas contas em nomes de empresas fantasmas, todas em nome de laranjas.

Foi através desse esquema que o Neman lavou dinheiro para o IABAS. E aí aparece o nome de Bertholdo. Investigações do Ministério Público o apontaram como um dos controladores do IABAS. Depositou R$ 700 mil na conta indicada pelo Neman. Três dias depois, o dinheiro foi sacado de uma conta da Caixa Econômica Federal em Jandira, Grande São Paulo, e levado para o Aeroporto Campo de Marte até Jacarepaguá, on Rio. Agentes da PF acompanharam a entrega do dinheiro em uma mochila a um advogado ligado a Bertholdo.

Segundo relatório do COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), o IABAS depositou R$ 6,58 milhões na conta do escritório de advocacia de Bertholdo e R$ 2,47 milhões foram transferidos para o Banco Neman.

As investigações da PF constataram que o esquema de desvios de recursos públicos envolvia mais de 150 empresas.

O esquema foi desvendado após delação de Felipe Ramos Morais, piloto de um helicóptero que trabalhava para o PCC.

Ele apresentou Caio Neman e Wagner Ferreira da Silva o Cabelo Duro, traficante que gerenciava a exportação de cocaína do PCC pelo porto de Santos. Neman também operava para fabricantes de cigarros – uma das principais áreas de atuação do crime organizado no país, com ramificações com o ex-presidente do Paraguai Horácio Cartes.

Dalton e Caio Neman estão presos. Bertholdo está detido temporariamente, todos na carceragem da superintendência da PF em São Paulo.

O SBT News também teve acesso aos áudios da PF, sobre a família Neman.

“Em uma ligação interceptada, Caio Neman, filho de Dalton Neman, chefe do esquema, explicou como o grupo atua. “Os caras mandam a grana para minha conta, vem a nota fiscal, ele esfria o dinheiro dele. Se quiser nota fiscal, eu tenho a 3,5%. A diferença eu dou em espécie para eles”, afirmou”.

Em 8 de maio, o Estadão entrou no tema, através de reportagem de Marcelo Godoy.

 Já em 2016 o Neman havia sido investigado por suas relações com Cartes e com o contrabando de cigarros no país. De acordo ainda com os delegados da PF, os “clientes dos Nemans” já foram investigados na Operação Prato Feito (um ex-prefeito), que apurou o desvio de merenda escolar em São Paulo, e na Operação Zelotes, sobre fraudes no Conselho de Administração de Recursos Fiscais (Carf).

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