“Eu tinha certeza que esse dia chegaria”, diz Lula

"Não tenho mágoas, porque o sofrimento que pobres estão passando nesse país é infinitamente maior que cada dor que eu sentia quando estava preso"

“Fui vítima da maior mentira jurídica contada em 500 anos de história. Mas não tenho mágoas, porque o sofrimento que as pessoas pobres estão passando nesse país é infinitamente maior que cada dor que eu sentia quando estava preso”   

Jornal GGN – “Eu tinha certeza que esse dia chegaria, esse dia chegou com o voto do Fachin”, desabafou o ex-presidente Lula, em coletiva de imprensa, logo após o ministro do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, derrubar todas as ações judiciais da Operação Lava Jato contra ele e a Corte retomar o julgamento do ex-juiz como suspeito.

No início do discurso, transmitido ao vivo pelas redes sociais, o ex-presidente lembrou que há quase três anos ele saia daquele mesmo lugar, a sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC paulista, para se entregar à Polícia Federal e iniciar os 580 dias preso.”

“Eu fui obviamente contra a minha vontade, porque sabia que estavam prendendo um inocente. Muitos dos que estavam aqui queriam que eu não fosse me entregar. Mas não seria correto um homem da minha idade, com a construção da história, construída junto com vocês, aparecer na capa do jornal como um fugitivo.”

Relembrando os anos de metalúrgico, Lula percorreu desde 1968, nas primeiras greves, e 1975, quando virou presidente do sindicato, mencionando a criação dos movimentos sociais. “O movimento mais importante foi a tomada de consciência, que através do sindicato eu não iria resolver os problemas do país”, disse. “Eu sou o resultado da consciência política da classe trabalhadora, na hora que ela evoluiu, eu evolui.”

Ao falar sobre a sua prisão, para a mesma plateia que esteve presente no dia em que se entregou à Polícia Federal, Lula afirmou: “Eu sei que fui vítima da maior mentira jurídica contada em 500 anos de história. Eu sei que a minha mulher Marisa morreu por conta dessa pressão e o AVC se apressou. Eu fui proibido de visitar meu irmão dentro do caixão. Se tem um brasileiro que tem razão de ter muitas e profundas mágoas sou eu, mas não tenho. Sinceramente, porque o sofrimento que o povo brasileiro está passando, que as pessoas pobres estão passando nesse país é infinitamente maior que o crime cometido contra mim, de cada dor que eu sentia quando estava preso”, disse.

Dor da população

“Não há maior dor que um ser humano chegar na hora do almoço e não ter um prato de feijão com farinha para dar pro seu filho. Essa dor que a sociedade brasileira está sentindo agora que me faz dizer pra vocês: a dor que eu senti não é nada, diante da dor que sofrem milhões e milhões de pessoas. É muito menor do que sofrem quase 270 mil pessoas que viram seus entes queridos morrer, e sequer puderam se despedir dessa gente”, continuou.

Prestando solidariedade às vítimas da Covid-19 e seus familiares, Lula também elogiou os profissionais de saúde do Sistema Único de Saúde (SUS), “heróis do SUS que durante tanto tempo foram descredenciado, no exercício da sua profissão, quando veio o coronavírus, se não fosse o SUS a gente teria perdido muito mais do que a gente perdeu”.

Em duras críticas ao atual governo de Jair Bolsonaro, o ex-presidente disse que a questão da vacina não se trata de deter ou não recursos para adquirir, mas de “se ama a vida ou a morte, questão de saber do papel de um presidente da República”.

Esse dia chegou

Ao agradecer o trabalho de seus advogados, Cristiano Zanin e Valeska Teixeira, Lula disse que “só foi possível o que aconteceu segunda-feira [dia em que o ministro do STF derrubou todas as ações do Paraná contra ele] pela coragem” de sua defesa.

“Eu tinha certeza que esse dia chegaria, esse dia chegou com o voto do Fachin. E toda a amargura que passei, todo o sofrimento já passou. Tudo bem, nós vamos continuar brigando para [Sergio] Moro ser considerado suspeito, porque ele não tem direito. Deus de barro não dura muito tempo. Eu tenho certeza que hoje ele está sofrendo muito mais do que eu sofri, porque eles sabem que cometeram erros.”

“E o triplex, que eles nunca apresentaram um documento, nunca apresentaram um centavo, foi a razão para eu ser condenado a 9 anos de prisão e a pagar uma multa que vale 50 vezes o apartamento”, continuou.

Imprensa: verdade prevaleceu

Ressaltou também o papel da imprensa e dos meios de comunicação para a consolidação da Operação Lava Jato e a sua prisão.

“Durante todos esses anos, a imprensa não exigiu nenhuma veracidade de Moro. Mas estamos com um perito, que está na PF, autorizada na Suprema Corte, e mesmo esse perito avalizando e a divulgação sendo autorizada pelo STF. No meu caso, eles nunca pediram autorização. Contra o Lula não precisava provar que o documento tinha seriedade, afinal de contas um torneiro mecânico sem dedo já tinha feito demais. Era preciso evitar que esse cidadão voltasse. Porque a América Latina nunca trabalhou em 500 anos com tanta política de inclusão social.”

E apesar de quase três anos, desde a prisão, para Lula ser inocentado, o ex-presidente afirma que não tem mágoas e que é “agradecido ao ministro Fachin”, “porque ele cumpriu uma coisa que a gente reivindicava desde 2016”, lembrou.

Na atuação da imprensa com a Lava Jato e o ex-juiz Sérgio Moro, o ex-presidente também mencionou que a edição desta segunda-feira (08) do Jornal Nacional foi “ética”, “pela primeira vez a verdade prevaleceu”.

A verdade, segundo Lula, foi pela primeira vez “dita pelo presidente da Segunda Turma do STF, pelo ministro Gilmar Mendes, dito por Ricardo Lewandowski e até pela ministra Cármen Lúcia. E eu como não tinha muita experiência, fiquei feliz com a verdade”, ironizou, ao se referir à perseguição dos grandes meios de comunicação contra ele. “Desde 1965 eu lido com a imprensa, e eu sempre disse que o papel da imprensa, quando o jornalista sai para rua é para dizer a verdade. A verdade nua e crua, é pra isso que nós precisamos de imprensa livre.”

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