Covid-19 – Detectando um declínio na taxa de crescimento no número de casos: Tendência real ou ilusão momentânea?

Em números absolutos, as estatísticas registradas na semana passada (8-14/3) foram tão ou ainda mais assombrosas que as da semana anterior.

Covid-19 – Detectando um declínio na taxa de crescimento no número de casos: Tendência real ou ilusão momentânea?

Por Felipe A. P. L. Costa [*].

RESUMO. – Este artigo atualiza os valores das taxas de crescimento (casos e mortes) divulgados em artigo anterior (aqui). Estes dois parâmetros (sozinhos ou combinados) servem como um guia preciso e confiável para se monitorar o rumo e o ritmo da pandemia. Entre 8 e 14/3, as taxas ficaram em 0,59% (casos) e 0,68% (mortes). Foi a quarta escalada seguida na taxa de mortes. Mas a taxa de casos declinou. Este recuo pode ter sido um mero acidente de amostragem, mas pode ser um sinal (tênue, mas esperançoso) de que as medidas de controle estariam a produzir efeitos positivos. Seja como for, não é difícil perceber a relação de causa e efeito que gera, amplia e prolonga a crise: Quando os governantes endurecem as medidas de controle, a disseminação do vírus diminui; quando os governantes amolecem, a disseminação do vírus aumenta.

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1. O RITMO ATUAL DA PANDEMIA NO PAÍS.

Ontem (14/3), de acordo com o Ministério da Saúde, foram registrados em todo o país mais 43.812 casos e 1.127 mortes. Teríamos chegado assim a um total de 11.483.370 casos e 278.229 mortes.

Em números absolutos, as estatísticas registradas na semana passada (8-14/3) foram tão ou ainda mais assombrosas que as da semana anterior.

Foram registrados 464.026 novos casos – uma ligeira queda em relação ao recorde estratosférico da semana anterior (468.085, entre 1 e 7/3). Foi a 15ª semana com mais de 300 mil novos casos, 10 das quais foram registradas em 2021.

Desgraçadamente, porém, atingimos um novo patamar no número de mortes: 12.818 – 22% a mais que o recorde anterior (10.469, entre 1 e 7/3). Foi a 17ª semana com mais de 7 mil mortes, nove das quais foram registradas em 2021.

2. TAXAS DE CRESCIMENTO.

Como já alertei em vários artigos anteriores, o jeito certo de monitorar o rumo e o ritmo de uma epidemia (ou pandemia, como é o caso de agora) exige que examinemos algum parâmetro que nos informe sobre a dinâmica da disseminação da doença. Exemplos de tais parâmetros seriam as taxas de crescimento no número de casos e de mortes [1].

Vejamos os resultados mais recentes.

Em comparação com as médias da semana anterior (1-7/3), as médias da semana passada (8-14/3) exibiram tendências opostas – enquanto a taxa de mortes seguiu escalando, a de casos declinou (ver a figura que acompanha este artigo).

A taxa de crescimento no número de casos recuou de 0,62% (1-7/3) para 0,59% (8-14/3) – a primeira queda ao longo das últimas quatro semanas.

Em compensação, a taxa de crescimento no número de mortes saltou de 0,58% (1-7/3) para 0,68% (8-14/3) – o maior percentual desde a última semana de agosto (24-30/8) [2, 3]!

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FIGURA. A figura que acompanha este artigo ilustra o comportamento das médias semanais das taxas de crescimento no número de casos (pontos em azul escuro) e no número de óbitos (pontos em vermelho escuro) em todo o país (valores expressos em porcentagem), entre 28/6/2020 e 14/3/2021. (Valores acima de 2% não são mostrados.) As médias mais baixas das duas séries (casos e mortes) foram observadas entre 11/10 e 8/11, razão pela qual o período é referido aqui como o ‘melhor mês’. Logo em seguida, porém, note como as duas nuvens de pontos experimentaram rupturas e mudaram de rumo. E note como o apagão que houve na divulgação das estatísticas, na segunda quinzena de dezembro, rebaixou artificialmente as duas trajetórias.

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3. CODA.

Não há dúvida de que o país permanece com os dois pés afundados na lama. Uma situação que se arrasta desde 3/1/2021 (ver a figura que acompanha este artigo).

Mas cabem aqui algumas considerações adicionais.

Em primeiro lugar, cabe lembrar que as taxas de casos e mortes estão correlacionadas entre si – quando uma sobe, a outra tende a subir; quando uma desce, a outra tende a descer.

Devemos observar ainda que há uma defasagem de tempo entre as duas taxas, visto que a infecção necessariamente antecede o óbito.

O que observamos na semana passada bem pode ser uma manifestação de tal defasagem: a taxa de mortes seguiu escalando em função de escaladas anteriores na taxa de casos. Se a referida queda na taxa de casos estiver a sinalizar uma mudança real de trajetória, deveremos testemunhar uma queda correspondente na taxa de mortes já ao longo desta semana.

Seja como for, não é difícil perceber a relação de causa e efeito que gera, amplia e prolonga a crise: Quando os governantes endurecem as medidas de controle, a disseminação do vírus diminui; quando os governantes amolecem, a disseminação aumenta.

O recado para governadores, prefeitos e dirigentes empresariais de boa-fé cabe em uma frase: A saída para a crise depende da adoção de medidas efetivas de proteção e confinamento [4].

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NOTAS.

[*] Para detalhes e informações sobre o livro mais recente do autor, O que é darwinismo (2019), inclusive sobre o modo de aquisição por via postal, faça contato pelo endereço [email protected]. Para conhecer outros livros e artigos, ver aqui.

[1] Arrisco dizer que a pandemia chegará ao fim sem que a imprensa brasileira (grande parte dela, ao menos) se dê conta de que está monitorando a pandemia de um jeito, digamos, desfocado – além de burocrático e bastante superficial. Para capturar e antever a dinâmica de processos populacionais, como é o caso da disseminação de uma doença contagiosa, devemos recorrer a um parâmetro que tenha algum poder preditivo. Não é o caso da média móvel. Mas é o caso da taxa de crescimento – seja do número de casos, seja do número de mortes. Para detalhes e discussões a respeito do comportamento da pandemia desde março, em escala mundial e nacional, ver os quatro volumes da coletânea A pandemia e a lenta agonia de um país desgovernado (aqui, aqui, aqui e aqui).

[2] Entre 19/10 e 14/3, as médias semanais exibiram os seguintes valores: (1) casos: 0,43% (19-25/10), 0,4% (26/10-1/11), 0,3% (2-8/11), 0,49% (9-15/11), 0,5% (16-22/11), 0,56% (23-29/11), 0,64% (30-6/12), 0,63% (7-13/12), 0,68% (14-20/12), 0,48% (21-27/12), 0,47% (28/12-3/1), 0,67% (4-10/1), 0,66% (11-17/1), 0,59% (18-24/1), 0,57% (25-31/1), 0,49%(1-7/2), 0,46% (8-14/2), 0,48% (15-21/2), 0,53% (22-28/2), 0,62% (1-7/3) e 0,59% (8-14/3); e (2) mortes: 0,3% (19-25/10), 0,26% (26/10-1/11), 0,21% (2-8/11), 0,3% (9-15/11), 0,29% (16-22/11), 0,3% (23-29/11), 0,34% (30-6/12), 0,36% (7-13/12), 0,42% (14-20/12), 0,33% (21-27/12), 0,36% (28/12-3/1), 0,51% (4-10/1), 0,47% (11-17/1), 0,48% (18-24/1), 0,48% (25-31/1), 0,44%(1-7/2), 0,47% (8-14/2), 0,43% (15-21/2), 0,48% (22-28/2), 0,58% (1-7/3) e 0,68% (8-14/3).

[3] Sobre o cálculo das taxas de crescimento, ver as referências citadas na nota 1.

[4] É um erro imaginar que a saída para a crise será pavimentada pela campanha de vacinação, mesmo na hipótese de que ela saía do marasmo em que se encontra. Como alertei em artigos anteriores, os efeitos da vacinação só serão percebidos – na melhor das hipóteses – quando mais da metade dos brasileiros tiver sido vacinada. E mais: Devemos tomar cuidado com as armadilhas mentais que cercam a campanha de vacinação. Três das quais seriam as seguintes: (1) a imunização individual não é instantânea nem nos livra de continuar adotando as medidas de proteção social (e.g., distanciamento espacial e uso de máscara); (2) a imunização coletiva só será alcançada depois que a maioria (> 75%) da população tiver sido vacinada; e (3) a população brasileira é grande, de sorte que a campanha irá demorar vários meses (mais de um ano, talvez).

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