É interessante analisar o estilo da velha direita, aquela que era a mais estridente no período pré-Bolsonaro.

Bolsonaro representa quase tudo o que ela defendia: combate às cotas, combate a qualquer forma de políticas de gênero, políticas sociais, combate ferrenho ao lulismo etc. 

Mas a onda midiática virou e não há mais espaço para a defesa do bolsonarismo. O truque, então, consiste em atacar os que atacam Bolsonaro. É um truque quase tão antigo quanto a Sé de Braga: se não puder defender o indefensável, ataque quem o ataca.

Demétrio Magnoli, o ghost writer do senador Demóstenes Torres na audiência do Supremo Tribunal Federal (STF) – contra a política de cotas – atacou vigorosamente o senador Renan Calheiros por… tentar estimar o número de mortes provocado pelas falhas de Bolsonaro.

Com sua competência habitual, Magnolli mostra ser impossível calcular o número de mortes derivadas do boicote de Bolsonaro. Admite que Bolsonaro cometeu “crimes de Estado” – alvíssaras! -, mas o foco total é em Renan, “enfeitiçado pelas redes sociais”,  “pantomima política”, é o mínimo que diz sobre o relator da CPI do Covid.

Apresenta um argumento infalível: Renan é sabido em relação aos bolsonaristas; mas é ignaro em relação aos intelectuais do porte do próprio Magnolli. De certa forma repete a retórica dos senadores bolsonaristas, de dar carteiradas acadêmicas em cima ou de fontes não qualificadas, ou de interpretações tortas das suas conclusões.

Magnolli usa o segundo recurso: recorre a uma fonte qualificada, e faz uma interpretação tora de suas conclusões.

Apresenta sua fórmula cientifica: “a melhor régua da pandemia é o cálculo do excesso de mortes —ou seja, do total de óbitos que supera a taxa de óbitos verificada em anos recentes”.

Cita, então,  estudo do The Economist, que estima o número de mortes com base na comparação com dados históricos de óbitos, de anos anteriores.

Diz ele:

A melhor régua da pandemia é o cálculo do excesso de mortes —ou seja, do total de óbitos que supera a taxa de óbitos verificada em anos recentes. A revista The Economist utilizou uma ferramenta estatística para estimar esse valor, até 8 de maio de 2021 (econ.st/3yzjzoa). Sugiro que, nos seus passeios pela ciência, Calheiros consulte o estudo.

No mapa resultante, o Brasil situa-se em faixa de alto impacto (150 a 250 por cem mil), junto com EUA, Argentina, Cuba, Reino Unido, Itália e Espanha. Equador, Bolívia, Bulgária e Polônia, por exemplo, situam-se em faixa superior (250 a 350 por cem mil), enquanto México, Peru e Rússia aparecem na mais elevada (350 por cem mil ou mais). Como provar que, sem Bolsonaro, ficaríamos junto com a Alemanha (25 a 50) ou o Chile (100 a 150)?

Vai além:

Um utópico lockdown permanente talvez reduzisse as mortes a algo perto de zero. A Suécia, que nunca fechou quase nada mas levou o vírus a sério, inscreve-se em faixa de baixo impacto relativo (50 a 100). Se tivesse optado por lockdowns, terminaria como a Finlândia (0 a 25) ou como a Bélgica (150 a 250)?

Essa fantástica lição de erudição tem uma pequena – porém fatal – falha. Os dados do The Economist se propõe a medir apenas a subnotificação da doença. Não tem nada a ver com o desempenho do país frente à doença.

Magnolli trata a Suécia como modelo de sucesso no combate ao Covid, quando os indicadores do The Economist medem apenas a qualidade da noitificação da doença em cada país. O “baixo impacto relativo” mostra apenas que a Suécia faz uma notificação relativamente eficaz.

Confira os resultados da Suécia, na comparação com mais de uma centena de países.

O número de casos per capita é de 10.556,18, que a coloca no 4o lugar entre as nações mais infectadas do planeta. Com a subnotificação, sua classificação pode melhorar um pouco, mas nada relevante, a julgar pela comparação com outros países nórdicos.

Em relação aos óbitos, é o 20o país com maior número de óbitos per capita.

Na comparação acima, como os três países têm pouco mais da metade da população da Suécia, montei os gráficos usando, para eles, uma escala que representa a metade da escala da Suécia. Mesmo assim, é notória a diferença entre os óbitos na Suécia e neles.

Em cima desses dados, Magnolli traz sua sentença definitiva:

“A CPI pode qualificar Bolsonaro como “genocida”, jogando para a arquibancada. Ou pode escrever o epitáfio de seu (des)governo. Só não pode fazer ambos”.

Quem souber as relações causais, que explique. A torcida do Flamengo, aliás, ficou profundamente incomodada com o fato de Renan utilizar um termo, “genocídio”, que, segundo os puristas, não é o mais apropriado para definir o morticínio povocado por Bolsonaro.

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4 comentários

  1. Magnoli – má fé, ou burrice ? Os dois, com ativismo e boa dose de hipocrisia. Alias, como a maior parte da “direita” bananeira…

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