Fim da greve da educação: vitória de Pirro, por Bruno Resck

A política neoliberal rebaixa as nossas expectativas. A manutenção do Novo Ensino Médio pelo governo dos trabalhadores é um exemplo

Acervo ANDES

Fim da greve da educação: vitória de Pirro, por Bruno Resck

No dia 23 de junho, o SINASEFE (Sindicato Nacional dos Servidores Federais da Educação Básica, Profissional e Tecnológica) deliberou pela suspensão da greve após a assinatura dos Termos de Acordo com o governo Federal. O movimento paredista dos técnicos administrativos e docentes dos Institutos Federais durou 81 dias.

Em breve retornaremos às atividades. Com o retorno, docentes e TAES se deparam novamente com salas de aula superlotadas, ausência de climatização, laboratórios e infraestrutura sucateada, além de auditórios improvisados e banheiros com condições inadequadas, especialmente, nos campi avançados localizados no interior do país.

Após o longo período de negociação, marcado pelo descaso do governo federal, quem enfrentará a insatisfação dos alunos e familiares serão, inevitavelmente, os professores e os técnicos administrativos. É importante ressaltar que uma greve prolongada nunca é o objetivo dos servidores, mas uma resposta às condições adversas enfrentadas.

Os professores e técnicos administrativos saíram duplamente derrotados dessa greve: material e subjetivamente.

No aspecto material, a proposta do governo não contempla, satisfatoriamente, as perdas orçamentárias e remuneratórias dos últimos anos. Ficou para 2025 um reajuste de 9% para os docentes. No entanto, de acordo com as regras do Arcabouço Fiscal, caso o governo não cumpra sua meta em 2024, existe um mecanismo de “punição” que restringe as despesas e congela os reajustes. Portanto, corremos o risco de ficar sem reajuste em 2024 e 2025.

Subjetivamente, a campanha promovida pelo próprio governo dos “trabalhadores” criou a imagem perante a sociedade de que professores são verdadeiros marajás do funcionalismo público.  

A sociedade normalizou a tragédia da educação. Todo mundo quer uma educação de qualidade e valorização dos professores; mas, paradoxalmente, o movimento grevista é duramente atacado pelo governo, pela sociedade e pelos alunos. Constantemente escutamos: mas vocês têm estabilidade do emprego, ganham bem, estão reclamando de quê? Os alunos estão sendo prejudicados! Um bom exemplo de como dividir para conquistar.

É evidente a normalização da precarização da educação. Ninguém mais discute sala de aula lotadas. Ter quarenta alunos numa sala de aula virou um “não assunto”. Mesmo nos Institutos Federais, reconhecidos pela educação pública de qualidade, vivemos uma realidade de sucateamento. Porém, estávamos brigando para conseguir uma recomposição orçamentária para podermos honrar com compromissos básicos como papel higiênico e energia elétrica.

A política neoliberal rebaixa, dia após dia, as nossas expectativas. A manutenção do Novo Ensino Médio pelo governo dos trabalhadores é um exemplo, pois a luta agora é pela aprovação de uma versão “menos pior” do NEM. O Arcabouço Fiscal do Haddad é uma versão “menos pior” do Teto de Gastos do Temer. E assim vamos criando as condições para transferir os serviços públicos para o grande capital. Parece estranho num governo de “esquerda”? Não.

O BNDES está financiando Parcerias Público-Privadas para a privatização do ensino infantil nos municípios. Estaria na pauta do governo progressista PPPs para os Institutos Federais? Aliás, com o anúncio da criação de 100 novas unidades, cria-se a demanda por mão de obra. Diante da sinalização do governo de não valorizar os servidores da educação, não podemos duvidamos que, em breve, a iniciativa privada seja convidada a gerir os IFs com dinheiro público do BNDES.

Recentemente, a militância petista jactou-se pelo fato de que o Brasil se posicionou como a 8ª economia do planeta. Somos um país rico! É impensável que num país rico como o Brasil, servidores da educação tenham que cruzar os braços para pedir melhores condições de trabalho. É contraditório um país com tamanha riqueza, contando moedas para a educação, pesquisa e educação.

O ajuste fiscal neoliberal de Lula e Haddad foram os grandes vencedores: com severidade nos gastos primários e indulgência nos gastos financeiros.

Vencida a batalha da educação, Lula, Haddad e Tebet se preparam para uma nova frente: o fim dos pisos constitucionais da educação e saúde e a desvinculação do salário-mínimo.

Alguns colegas consideram que a greve foi positiva, mas comparável com uma Batalha de Pirro, outra vitória como esta, e estaremos acabados.

Bruno Resck – Geógrafo – professor no IFMG campus avançado Ponte Nova

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1 Comentário

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  1. Parabéns Professor pela excelente síntese da miséria da política educacional que vivemos há décadas. Formado como professor de História fui fazer a vida como funcionário público e bancário, em busca de melhores condições de sobrevivência. O governo atual de Lula parece querer provar na prática que seus inimigos estavam certos. A criação e manutenção de “benefícios sociais” para empresários falidos e outras sortes de vagabundos é recorrente e a revisão ou extinção das renúncias fiscais são assuntos proibidos. A taxação de grandes fortunas e a cobrança sumária das dívidas dos grandes sonegadores, inalcançável.Estamos a caminho do abismo político a passos largos e os avestruzes do otimismo continuam a nada ver.

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