“Livro didático garante acesso menos desigual ao conhecimento”, diz pesquisadora em Educação

Tarcísio recuou da decisão de oferecer apenas livros digitais aos alunos do Estado, mas vai enfrentar investigações do MP e ação do PSOL.

Crédito: Marcello Casal Jr./ Agência Brasil

A tentativa de digitalizar os materiais didáticos oferecidos aos alunos do ensino fundamental e médio da rede pública do Estado de São Paulo, anunciada na última semana, vai de encontro à convicção de pesquisadores, associações educacionais a até às experiências internacionais comprovadamente frustradas.

Desde abril, a gestão de Tarcísio de Freitas (Republicanos) indica o uso do diário de classe digital, em que os professores têm de abrir as aulas organizadas em 20 slides no celular e projetá-las na TV da sala.

Mas o ápice da polêmica aconteceu no início do mês, com a recusa do secretário da Educação, Renato Feder, dos livros didáticos do programa nacional do Ministério da Educação, que fornece o material gratuitamente a todos os estados e destina 10 milhões de exemplares apenas para São Paulo.

A decisão, de gabinete, tendo em vista que não envolveu diálogo com docentes, pesquisadores e associações, é desmontada pela professora Theresa Adrião, docente da Faculdade de Educação da Unicamp e líder do Grupo de Estudos e Pesquisas em Política Educacional (GREPPE).

“O livro didático impresso é um recurso adotado em quase todas as escolas do mundo. Ainda que considere ser possível e até desejável que outras experiências e recursos pedagógicos devam ser acionados, especialmente aqueles que mobilizem a experimentação, a construção e a troca de informação entre educandos e docentes, é certo que o livro didático favorece a organização dos conteúdos e o acesso menos desigual ao conhecimento escolarizado”, comenta a pesquisadora.

Contra as evidências

Thereza ressalta ainda que o livro digital apresenta limitações em relação à exigência do equipamento para acessá-lo, somada à necessidade de contar com uma conexão de internet para garantir o acesso. “Além disso, conteúdos ou aulas assentadas em fontes digitais demandam equipamentos como lousas digitais para as estratégias didáticas e exigem formação de professores“, emenda.

A pesquisadora ressalta ainda que não há na Unesco pesquisas que demonstram que a substituição de livros impressos por digitais torna a educação mais eficaz.

Já a recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria é que a exposição às telas seja de, no máximo, uma hora por dia para crianças de 2 a 5 anos; até duas horas para as de 6 a 10 anos; e até três horas para os adolescentes e jovens entre 11 e 18 anos, sob o risco de trazer prejuízos à saúde dos estudantes.

Frustração

Experiências internacionais mostram que a educação 100% digital não é a melhor opção para garantir melhores desempenhos dos alunos.

Desde a década de 1990, a Suécia investiu na informatização de materiais didáticos e aulas. Mas, em 2022, o governo teve de rever a estratégia, tendo em vista o pior desempenho das crianças em leitura e provas, menor capacidade de concentração dos alunos e excesso de distração.

Verificou-se ainda que os alunos dedicam menor esforço para escrever bem, já que os programas de ortografia geram a impressão de que a escrita é mais fácil do que realmente é.

Em dezembro, ministra Lotta Edholm publicou um artigo no jornal Expressen em que descreve a educação 100% informatizada como uma grande experiência, mas que que “houve uma postura acrítica [do governo anterior] de considerar a tecnologia necessariamente boa, independentemente do conteúdo”.

Recuo

Depois que o assunto se tornou polêmica, Tarcísio de Freitas voltou atrás e afirmou que os livros seriam impressos a todos os alunos.

Mesmo assim, o problema continua. O Ministério Público Estadual informou a instauração de um inquérito para apurar a mudança por “potencial prejuízo à continuidade do processo educacional e risco para a garantia de acesso ao material didático”.

Nesta sexta-feira (10), os parlamentares do PSOL pediram na Justiça que o governo paulista seja obrigado a usar os livros do Programa Nacional de Livros Didáticos (PNLD), pois a decisão de digitalizar o ensino apresenta um latente conflito de interesses e desvio de finalidade.

Isso porque o governo do Estado tem um contrado milionário com a Multilaser, empresa de tecnologia que fabrica, entre outros produtos, materiais de informática, como tablets e notebooks. Vale ressaltar que o secretário de Educação é um dos acionistas da Multilaser.

A ação do PSOL evidencia ainda que a rejeição de Tarcísio ao material do MEC, que custaria R$ 200 mil em livros didáticos, configurando prejuízo ao patrimônio público.

*Com informações do G1.

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Camila Bezerra

Jornalista

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